Covid: depois de oito mortes em um dia, cidade tem 15 curados para cada 1 novo caso diário

Por José Caldas da Costa

Depois de enfrentar o pior quadro da pandemia dentre todos os municípios capixabas, o município de Barra de São Francisco, a 250km de Vitória, na região Noroeste do Estado, colhe os frutos de uma série de medidas concatenadas assumidas pela administração municipais e, 30 dias após bater recorde de mortos pela Covid, comemora o fato de registrar apenas um caso novo para cada 15 doentes curados.

“Fizemos o que tinha de ser feito. Com trabalho duro, enfrentamos a doença com medidas restritivas no momento e pelo tempo certo, sem medo das reações negativas de alguns setores da sociedade. Montamos um novo centro de atenção aos pacientes de Covid, fizemos cerco sanitário com testagem em massa no interior e vacinamos o mais rápido possível a população dentro da prioridade estabelecida pelo ministério da Saúde”, disse o secretário municipal de Saúde, Gustavo Lacerda, que também é o vice-prefeito.

Gustavo executava as medidas de sua área, enquanto o prefeito Enivaldo dos Anjos determinava as ações político-administrativas: diante do pico da doença – a cidade chegou a ter 928 casos ativos no dia 8 de abril -, acelerado pela “cepa inglesa”, da qual Barra de São Francisco foi epicentro, o prefeito decretou estado de emergência e calamidade em saúde pública, fechou as atividades econômicas por 15 dias, acompanhado de toque de recolher das 8 da noite às 6 da manhã.

Para convencer a população a usar máscara de proteção, o prefeito trocou a punição pela promoção e organizou o sorteio de brindes semanais entre as pessoas “flagradas” usando máscara. Essas pessoas preenchiam um cupom e ganhavam de leitoa assada a 100 cestas básicas por semana.

Como as atividades econômicas foram reduzidas, o prefeito criou um centro de apoio alimentar à população em vulnerabilidade, chegando a servir 800 refeições por dia (o equivalente a quase 2% da população do município).

Uma das façanhas conquistadas pelo município foi consegui, em apenas sete dias, transformar em centro de atenção a doentes com convite, com 50 leitos hospitalares para os primeiros atendimentos, um prédio de 1.500 metros quadrados que estava em estado de abandona. A montagem do centro, um mini-hospital, como ele costuma dizer, contou com o empenho de servidores municipais, de pessoas da comunidade e o apoio de empresas que doaram os equipamentos.

“Chegavam doações de todos os lados. Só a Arcelor doou 50 camas hospitalares novas, mas antes já estávamos sendo socorridos por pessoas e também pelo hospital Santa Rita, que mandou várias camas para nosso centro de atenção. Sem a força das comunidades, seria difícil conseguir o que conseguimos”, disse o prefeito.

Enivaldo só lamenta que 175 pessoas já tenham morrido da doença no município, sendo mais de 120 só nesses quatro primeiros meses de sua gestão. “Antes de termos essa ação através do novo centro de atenção, as pessoas eram diagnosticadas com a doença, iam para casa, pioravam e não voltavam com medo de ser internadas. Acabavam sendo levadas já em estado grave”, observou o secretário Gustavo sobre o grande número de mortes.

A Secretaria de Estado de Saúde transformou os 57 leitos do Hospital Doutor Alceu Melgaço Fillo em exclusivos de Covid. Houve um momento, em março, que morreram oito pessoas somente em um dia. Devido ao estado grave em que chegavam, poucos que eram entubados conseguiam sobreviver. No pior momento, o hospital tinha 10 pessoas entubadas na CTI, 13 entubadas no semi-intensivo e nenhuma vaga na enfermaria. “Foram dias de muita dor e sofrimento”, comenta o prefeito Enivaldo dos Anjos.

Há pouco mais de uma semana, Gustavo anunciou que os casos ativos estavam despencando, graças às ações do município e previa a redução para menos de 100 casos em dez dias. “Com a testagem em massa, identificávamos os doentes e faziam a barreira sanitária ao seu redor”, disse.

As previsões estão bem próximas de se cumprir. Há dois dias, Barra de São Francisco não registra óbitos por Covid. No Hospital Estadual da cidade, há nove pessoas doentes na UTI (está sobrando um leito, depois de quase quatro meses), nenhuma no semi-intensivo, e 12 na enfermaria. Segundo o secretário, a chance de sobrevida para os entubados em UTI é de 50%.

Nesta quinta-feira, o município, que continua no risco alto de contágio, teve apenas cinco novos casos de novos casos positivos, enquanto 75 pessoas aumentavam 3.900 o número de recuperados pela doença. Os casos ativos caíram, em 20 dias, de 928 para apenas 225 pessoas ainda doentes. Se a média diária de curados continuar se mantendo, nos primeiros dias de maio o município atinge as previsões do secretário e baixa para menos de 100 casos ativos.

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