‘Comprava boneca branca e pintava pra ficar pretinha’, diz artesã que fabrica bonecas de pano pretas

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Marrom com mechas, preta com cabelo colorido, tranças em meninas e meninos. No ateliê da dona Armicinha, no bairro Cidade Continental, na Serra, na Grande Vitória, tem boneca de todos os jeitos, mas todas são negras. A reportagem é de Daniela Carla, da TV Gazeta.

“O meu produto é boneca preta. Larguei o que eu fazia antes e parti pra empreender mesmo com bonecas pretas”, contou a artesã Armicinha Leone.

Armicinha se apaixonou por bonecas de pano há 15 anos. Inicialmente, começou fazendo bonecas brancas para doar. Mas, uma vez, decidiu fazer versões pretas e levou para um asilo.

Dona Armincinha, no próprio ateliê, costurando uma boneca preta

Dona Armincinha, no próprio ateliê, costurando uma boneca preta

Quando fez isso, Armicinha lembrou da dificuldade que tinha pra comprar bonecas pretas para a própria filha. A menina, filha de mãe negra e pai branco, se sentia diferente.

“Eu não encontrava boneca preta. O pai dela procurava nas lojas, porque queria que ela tivesse uma boneca, mas não conseguia. Eu comprava as bonecas brancas e pintava com tinta de tecido, com café, de toda forma pra ela ficar pretinha pra dar de presente pra minha filha porque a gente não conseguia na loja”, falou Armicinha.

Mas a dificuldade que Armicinha teve para comprar uma boneca preta para a filha, há 30 anos, segue atual. Uma pesquisa feita pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), em 2020, mostrou que de cada 100 bonecas vendidas no Brasil, apenas sete são pretas.

Dona Armicinha segura bonecas feitas por ela, e outras várias bonecas feitas por ela ao fundo

Dona Armicinha segura bonecas feitas por ela, e outras várias bonecas feitas por ela ao fundo

De acordo com especialistas, mesmo crianças pequenas já percebem diferenças raciais, o que se reflete ao longo de toda a vida daquele indivíduo.

“A gente vê que o menininho ali que tem o cabelo mais liso, loirinho, olho azul, ele chama mais atenção, ele provoca mais carinho das pessoas adultas e isso vai sendo sentido pela criança [negra] o tempo todo”, afirmou a presidente da comissão de cotas da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Jacyara Silva de Paiva.

Segundo a presidente da comissão de cotas da Ufes, brincar com bonecas pretas faz bem para o desenvolvimento de todas as crianças.

“Uma boneca preta negra na mão de uma criança branca vai fazer com que ela desenvolva a empatia, a solidariedade, as ideias de diversidade em relação a quem é diferente dela. Na mão de uma criança negra, uma boneca negra vai colocar ela num mundo de protagonismo, vai elevar a sua autoestima, vai fazer com que ela se veja através daquele brinquedo”, disse Jacyara.

Bonecas de pano pretas feitas por dona Armicinha

Bonecas de pano pretas feitas por dona Armicinha

Armicinha participa de feiras onde expõe e vende as bonecas feitas por ela. Em um episódio, ela publicou uma foto, em um grupo de amigos, em que ela aparece ao lado de uma bancada com várias bonecas pretas.

Foi então que um dos participantes do grupo lamentou o fato de todas as bonecas na foto serem pretas e questionou onde estavam as bonecas brancas, ao que Armicinha respondeu que bonecas brancas podiam ser encontradas em qualquer loja.

“Eu não vendo boneca branca. Eu vendo boneca preta”, falou Armicinha.

A conversa foi publicada nas redes sociais da filha de Armicinha, onde a jovem explicou que a mãe só fazia bonecas pretas.

A mensagem foi vista por mais de 30 mil pessoas e aumentou a procura pelas bonecas de dona Armicinha e chegou em pessoas como a recreadora infantil Irani Alves, que encomendou uma boneca preta de cerca de um metro.

“Nós somos iguais, e essa conscientização tem que vir de pequenininho porque depois de grande não resolve”, falou a recreadora infantil Irani Alves, que encomendou uma boneca preta de um metro.

Para Armicinha, apesar dos avanços em relação há 30 anos, a oferta de bonecas pretas no mercado aumentou, mas está longe de atingir o nível de igualdade com as bonecas brancas.

“Eu acredito que, até hoje, as mães que querem dar uma boneca preta para a criança, ela também tem essa dificuldade. Eu sei que as coisas mudaram muito, que já tem umas bonecas no mercado, mas não é de quantidade ainda. Eu acho que nós temos que ter mais bonecas”, falou Armicinha.

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