Com mais casos de covid-19 e menos leitos no ES, especialistas temem falta de atendimento

Com o número de casos de covid-19 chegando próximo aos piores momentos da pandemia e com menos leitos exclusivos para o tratamento da doença no Espírito Santo, profissionais de saúde temem que nem todos os pacientes infectados com o novo coronavírus possam ser atendidos adequadamente.

Na última quinta-feira (26), o Estado teve uma ocupação de 87,44% dos leitos de UTI para a covid-19, o maior percentual registrado desde o início da pandemia. Isso se explica, em parte, pelo fato de o número de internados ter aumentado, nas últimas semanas, e o de leitos exclusivos para o coronavírus ter caído, já que foram revertidos para pacientes com outras enfermidades.

Diante dessa situação, surge a pergunta: como o sistema de saúde do Espírito Santo pode suportar um aumento da demanda, com menos leitos disponíveis e mais gente nas ruas?

“As pessoas me perguntam muito como estão os hospitais, se estão cheios ou estão lotados. A resposta é simples: olha para o bar, olha para a casa noturna do seu bairro. Se ela estiver cheia, a UTI está cheia. Se a casa noturna estiver lotada, o hospital está lotado. Se tiver muita gente se aglomerando, o hospital está assim. Eu acho que isso responde por si mesmo. Eu tenho visto, nos bairros onde eu frequento, tudo muito lotado e os hospitais muito lotados também”, afirmou o médico intensivista Leonardo Goltara.

Nos últimos dias, a taxa de isolamento social teve média de 43%, bem longe do recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 70%. Aglomerações em bares voltaram a ser rotina. Já os ônibus continuaram lotados, como sempre.

A diferença do início da pandemia para hoje é que o sistema de saúde não está todo voltado para a covid-19. Em julho, havia 693 leitos de UTI disponíveis para atender pacientes com covid-19. Atualmente, são oferecidos 464 leitos para o tratamento da doença. Desse total, 369 estão ocupados — ocupação de 79,53%.

“Com a paralisação de todas as cirurgias que não eram de urgência, toda a estrutura hospitalar estava voltada para o atendimento da covid. Então a gente tinha esse esforço”, pontuou a epidemiologista Ethel Maciel.

“A estrutura é insuficiente. Tem muito mais gente doente do que gente disponível. A gente tem que lembrar que não é só estrutura de hospital, leito. Tem que ter médico, enfermeiro, fisioterapeuta. Tem que ter recursos humanos e isso não se produz do dia para a noite”, frisou Leonardo Goltara.

Em entrevista coletiva, na tarde desta segunda-feira (30), o secretário estadual de saúde, Nésio Fernandes, ressaltou as dificuldades que o governo do Estado tem tido em adquirir leitos em hospitais particulares. Disse também que pretende expandir os leitos já disponibilizados pelo Estado, para que recebam pacientes com o coronavírus.

“Nesta semana, o Estado do Espírito Santo prepara um vulto grande de medidas, de novas obras, novas construções e readaptações nos hospitais públicos da gestão pública direta do Estado do Espírito Santo, para poder também garantir que, dentro das quatro fases da segunda etapa da estratégia ‘Leitos para Todos’, a gente consiga dar garantia de acesso a todos os pacientes atingidos pela covid-19”, destacou o secretário.

Aglomerações

No último domingo (29), durante a comemoração nos comitês de campanha dos quatro prefeitos eleitos no segundo turno das eleições, o que se viu nas ruas da Grande Vitória foi muita aglomeração e gente sem máscara.

“O que a gente viu foram exemplos muito ruins. Infelizmente, candidatos e pessoas que foram eleitas sem o uso de máscara, aglomerando, cumprimentando multidões”, destacou Ethel Maciel.

Em uma pandemia, que não dá trégua para o descuido, a conta chega para quem está na linha de frente. “Os profissionais de saúde, neste momento da pandemia, estão exaustos. Muitos adoeceram e ainda não retornaram, porque ficaram com sequelas”, disse a epidemiologista.

“Desejaria muito mais solidariedade da população, porque esse sofrimento não é só nosso, dos profissionais de saúde. É da população inteira. Eu gostaria que a população fosse mais solidária”, completou o médico intensivista.

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