Cinco anos após tragédia em MG, Espírito Santo ainda amarga o prejuízo da lama no Rio Doce

Em Baixo Guandu, pescadores, vendedores e peixeiros ainda estão sem o auxílio da Fundação Renova. Até mesmo o artesanato de olaria foi impactado, já que a argila do Rio Doce não pode mais ser usada.

Por Alessandro Bachetti, G1 ES

Cinco anos após o maior desastre ambiental do país, o rompimento da barragem de rejeitos da Samarco em Mariana (MG), moradores de municípios do Espírito Santo ainda sofrem as consequências da lama que poluiu e inutilizou o Rio Doce.

A barragem de Fundão era controlada pela Samarco, em uma ação conjunta das empresas Vale e BHP Billiton.

A barragem rompeu no dia 5 de novembro de 2015 e espalhou lama com rejeitos de minério primeiramente no subdistrito de Bento Rodrigues, a 35 quilômetros da sede de Mariana.

No mesmo dia, os cerca de 62 milhões de metros cúbicos de lama atingiram o Rio Doce. No dia 16 de novembro, a lama chegou ao município de Baixo Guandu, no Noroeste do Espírtio Santo, onde a captação de água do Rio Doce foi completamente suspensa – e nunca mais retomada.

“Foi triste demais. Na época, a gente sofreu mais pela incerteza. Para a gente, o rio acabou. Imagina se esse rio acaba?”, questionou o capoteiro Rubens Silva de Araújo, morador de Baixo Guandu, que viu de perto a lama chegar ao município, no fim da tarde de uma segunda-feira.

Para quem trabalhava e sobrevivia de produtos que eram captados ou usados diretamente no rio, a vida mudou de forma drástica. O vendedor Elias Martins, que era dono de um comércio de produtos de pesca, precisou começar a vender outros produtos.

“Colocamos confecção, calçados para vender. Tivemos que ter variedade de produtos, para tentar recuperar o prejuízo”, disse.

Já os pescadores e vendedores de peixes ainda estão vivendo de ajuda da família, de amigos e de voluntários. Vários deles nunca receberam o auxílio da Fundação Renova, criada para gerenciar recursos e ações de reparação.

“Ninguém compra peixe. Se falar que é da água doce, acham que é do Rio Doce. Ninguém compra peixe da água doce mais. Eu tinha uma rede estabilizada. Essa lama que desceu nos desestruturou completamente”, lembrou o vendedor de peixes Daniel Lima da Silva.

Até mesmo o artesanato tradicional de Baixo Guandu foi impactado pelo derramamento dos rejeitos de minério. A olaria, tradição de peças feitas em barro, era feita essencialmente com a argila extraída do Rio Doce que, de acordo com os oleiros, era perfeita, pois tinha as quantidades certas de areia e terra para dar o acabamento ideal nas peças.

Agora, os clientes não querem mais comprar peças com a argila do Rio Doce. E nem os oleiros estão dispostos a ter contato com a lama de rejeitos para fazer o artesanato. Eles preferem comprar um barro que não é tão bom, e que acaba dando defeitos nas peças, para não por a saúde em risco.

“É um material que tá infectado. Eles não vão comprar e eu também não vou pegar, para não me prejudicar e nem prejudicar os outros oleiros. A gente compra terra das mesmas empresas que fazem tijolo, mas não é um material selecionado, uma terra boa pra artesanato. A gente faz as peças e infelizmente aparece muito defeito. Cerca de 20 a 30% das peças a gente acaba perdendo devido à materia prima”, enumerou o oleiro Eder Pereira Johanson.

“Meu pensamento é que a gente nunca mais consiga utilizar esse barro. Uma vez infectado ali, acho que não tem mais como tirar. Porque tem produto químico”, explicou.

Para o prefeito da cidade, Neto Barros (PCdoB), a população até hoje não se recuperou dos prejuízos, e pode demorar anos para que os danos sejam reparados.

“Estamos aguardando, ainda, as ações de reflorestamento, a limpeza da calha do rio. Talvez, a gente demore séculos para recuperar o prejuízo ambiental, que é enorme, imensurável. Ninguém conseguiu, ainda, precisar o tamanho. O dano não é só ambiental, é econômico, social e moral”, contou.

A maior dificuldade em conseguir a indenização para as pessoas impactadas está na comprovação de que essas pessoas realmente dependiam do Rio Doce para sobreviver, como aponta a advogada de grupos atingidos pela lama, Richardeny Lemke Ott. Cerca de 255 pessoas receberam a indenização, um montante de R$ 90 mil reais.

“A maioria das categorias são categorias informais. O nosso país é feito de pessoas que trabalham informalmente. Elas não têm como comprovar o seu ofício. São lavadeiras, areeiros, revendedores de pescados, comerciantes, [donos de] bares, pousadas, restaurantes. Tanto que 95% do que foi pleiteado pelas comissões de atingidos, de vários territórios, foram aceitos e reconhecidos pela Justiça da 12ª Vara Federal de Belo Horizonte”, explicou.

A Fundação Renova informou que, nesses cinco anos desde o desastre, foram desembolsados cerca de R$ 224 milhões em indenizações e auxílio emergencial para famílias de Baixo Guandu.

“A Renova tem investido sistematicamente nos municípios atingidos pelo rompimento valores significativos para construção de estação de tratamento de esgoto, uma ação compensatória com o intuito de melhorar a qualidade da água a longo prazo”, disse Juliana Bedoya, gerente de programas socioambientais da fundação.

Ainda de acordo com a Fundação, Baixo Guandu recebeu R$ 12 milhões para a construção de uma nova estação de tratamento de esgoto. A Renova também deve enviar dinheiro para a construção de um hospital regional, com 55 leitos de enfermaria e 10 UTIs.

De acordo com a Fundação, 1.314 famílias foram beneficiadas pelo programa de indenização mediada em Baixo Guandu e 1.765 pessoas recebem o auxílio financeiro emergencial.

Até agora, nenhuma ação ambiental foi feita em Baixo Guandu, como por exemplo recuperação de nascentes.

Desde a tarde dessa quarta-feira (4), indígenas das aldeias de Aracruz, no Norte do estado, interditaram duas rodovias, a ES-269 e a ES-010, em um protesto por causa do rompimento da barragem. Eles querem que mais famílias sejam incluídas nos programas de indenização da Fundação Renova.

A Renova informou que os representantes têm feito contatos constantes com as lideranças e órgãos para que o impasse seja solucionado.

Disse, ainda, que 1.587 pessoas de comunidades indígenas e 387 pessoas de comunidades tradicionais recebem apoio da Fundação.

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