Chegam os anos 1920 e com o progresso, a velha “Ponte de Madeira”

Esta foto apresenta a outrora “Villa” de Nova Venécia em 1925. O objetivo era mostrar a “nova” ponte que o Governo do Estado fez construir com pilares de alvenaria de pedra e sobre estrutura de madeira, com cerca de 106 metros de comprimento sobre o rio São Mateus. (Fonte: MENSAGEM FINAL apresentada pelo Exmo. Snr. Presidente do Estado do Espírito Santo, Dr. Florentino Avidos, ao Congresso Legislativo, em 15 de Junho de 1928. Foto impressa em papel couchê entre as folhas 220 e 221.)

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

O atual Morro da Matriz, com suas casinhas de estuque na época, era circundado a leste pelo então caudaloso Córrego da Serra, que na região onde hoje se encontra a Av. Matheus Toscano com suas escolas formava uma área alagadiça, espécie de pântano, brejo ou “taboal” como era chamado pelos antigos. Pelo lado noroeste, onde hoje é a Praça Jones dos Santos Neves (também conhecida como “Jardim”, Praça do Bradesco ou Praça dos Namorados) existia uma lagoa. A sudoeste na região das ruas Riacho e Goitacazes, várias nascentes vertiam suas águas que seguiam para o Córrego da Serra. Assim era o Barracão, um pedacinho bem peculiar do Brasil rural da Primeira República.

O Presidente do Estado do Espírito Santo (como era chamado o governador na Primeira República) na época, Florentino Avidos, tinha como projeto desenvolvimentista a colonização do norte e noroeste do Estado. Para isso era necessário abrir estradas e construir pontes como a de Colatina sobre o Rio Doce.

Aqui também a construção da primeira ponte no distrito sobre o Rio Cricaré aconteceu a partir de 1924. Foi inaugurada em 1925, porém, um ano depois uma enchente arrancou seus corrimãos, que refeitos puderam ver passar os pioneiros do Refrigério, Perdido, Córrego da Areia, Santa Joana, Rio do Norte e outras regiões do atual município situadas na margem norte do Rio Cricaré.


A “Estrada de Ferro São Matheus” – EFSM

Abrindo esses novos territórios repletos de matas intocadas com árvores gigantescas, a extração madeireira teve início. Se antes o rio era o caminho para escoar o café ou a madeira, tornou-se necessário apressar esse transporte. A “Estrada de Ferro São Matheus” – EFSM, sonhada pelo Barão de Aymorés quase meio século antes, chegava aqui, fazendo o transporte de pessoas e cargas como a madeira e correspondências. Foi construída entre 1922 e 1929.

A Maria Fumaça fazia sua parada na vila do Barracão próximo onde hoje estão os Correios. O trajeto para São Mateus era quase o mesmo que fazemos hoje pela rodovia, porém o percurso durava mais que uma manhã. O trem saia da estação localizada próxima ao Porto de São Mateus às sete da manhã e só chegava aqui às quatorze horas, à tarde. Neste trajeto, das locomotivas, que seguiam de São Mateus e Nova Venécia, respectivamente, a que estivesse mais adiantada parava no quilômetro quarenta e um (atual vila de Nestor Gomes) para dar passagem a outra que seguia em sentido contrário. Aliás, no “Km 41” aproveitando a parada, que geralmente se dava na hora do almoço para quem vinha de São Mateus havia restaurante dentre outros comércios a disposição de moradores e de viajantes da Maria Fumaça antes de chegarem a Vila de Nova Venécia. No projeto original de 1895-96 a antiga “Estrada de Ferro dos Aymorés”, depois retomada em 1922 como “Estrada de Ferro São Matheus” pretendia chegar na região de Barra de São Francisco ou mesmo Minas Gerais. No governo de Florentino Avidos tentou-se liga-la a Estrada de Ferro Vitória a Minas em Colatina. Infelizmente a bitola (distância entre os trilhos) era estreita, gerando a dificuldade com relação a velocidade da composição, um dos motivos que levou a ferrovia a ser extinta em 1942, sendo substituída pela estrada de rodagem que hoje nos liga a São Mateus desde então.

Vista panorâmica da Vila de Nova Venécia no início da década de 1940. Mais de 10 anos antes da emancipação, enquanto o mundo sentia o impacto da Segunda Guerra Mundial a pequena “Barracão” se desenvolvia buscando sua independência. Além da velha ponte de madeira construída pelo governo de Florentino Avidos ainda é possível ver nessa foto a antiga estação da EFSM com um vagão estacionado na Avenida Vitória em frente ao acesso a ponte. No alto a primeira igreja de São Marcos ainda em construção. E a direita o local onde mais tarde surgiu a Praça Jones dos Santos Neves, antiga lagoa que foi aterrada no final dos anos 1920 com a construção da Estrada de Ferro São Matheus – EFSM. Acervo: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).

A migração de italianos e descendentes e a Casa de Pedra do Perletti

Em fins da primeira metade da década de 1920 teve início um processo de “recolonização” ou “migração” em que velhos imigrantes italianos, seus filhos e netos vindos do sul e centro do Estado colonizam as terras do norte capixaba. Geralmente com mais de recursos que seus antecessores (que haviam protagonizado a Imigração Italiana em nossa região entre os anos de 1888 e 1896) buscavam novas oportunidades nas terras férteis e ricas em madeira de lei que estavam sendo colonizadas aqui no norte do Espírito Santo.

Esta nova fronteira agrícola, foi aberta e se consolidou após “pacificação” dos povos originários da nação Borum (aimoré/botocudo). Povos que após serem aldeados pelo Serviço de Proteção ao Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN) e sofrerem genocídio e etnocídio devido a doenças e extermínio e aculturamento, haviam deixado vastos territórios “livres” de sua presença.

Foi neste tempo de desenvolvimento econômico por volta de 1925 que o italiano Battista Perletti veio se estabelecer aqui. Fez-se proprietário de um terreno no Córrego Dourado, um pouco afastado do centro da vila na época, e mandou erguer uma construção típica da sua terra natal, uma Casa de Pedra. De grossas paredes, representando a robustez de seus sonhos, o ousado comerciante estabeleceu um empreendimento arquitetônico com a finalidade de pilar e comercializar o café produzido na região com uma inovação tecnológica, uma máquina a vapor.

A morte de sua esposa por volta de 1927 e a crise financeira que se abateu sobre o Brasil a partir de 1929 fez com que o Perletti vendesse sua casa de pedra. O projeto de enriquecer na América não se realizava. Voltava para a Itália viúvo, doente e com seu único filho. Mas a Casa de Pedra permanecia aqui. E ainda hoje representa a saga repleta de esperanças e decepções vividas por aqueles que ousaram sonhar. Somente no final dos anos 1930 é que o alagoano Waldemar Conde de Oliveira se tornaria proprietário do imóvel que desde 2003 é Patrimônio Arquitetônico do Estado por resolução do Concelho Estadual de Cultura (CEC).


O Leão Alado de São Marcos

Um pouco antes, no ano de 1925, o governo da Itália enviou uma encomenda para Nova Veneza, em Santa Catarina que já era paróquia e estava construindo sua nova matriz. Uma escultura em alto-relevo de bronze representando o Leão Alado de São Marcos, símbolo da outrora Sereníssima República de Veneza. Quando o navio “Itália” montado com uma exposição flutuante mostrando as belezas da Itália chegou ao Porto de Vitória, vindo dos portos do nordeste, houve então a confusão já que a escultura, que vinha em um caixote de madeira, era destinada simplesmente para “Nuova Venezia, America dell’Sud”. Mateenses que estavam na capital lembraram que Nova Venécia era no Espírito Santo, há cerca de setenta quilômetros de São Mateus. Em sua inocência mal sabiam da outra Nova Veneza, localizada no interior de Santa Catarina. A escultura foi então enviado para cá e recebida com missa campal em meio a grandes festejos no terreiro de café que existia no local onde hoje existe um posto de combustíveis em frente a Delegacia de Polícia.

É sabido que quando os moradores de Nova Veneza souberam da troca, resolveram vir buscar o leão, se necessário armados, porém a distancia os fez desistir. Felizmente o conflito se resolveu quando foi enviada outra escultura, idêntica a nossa para lá, sendo essa a origem das duas esculturas existentes no Brasil, sendo uma delas a que ostentamos hoje na fachada de nossa Igreja Matriz de São Marcos, que, aliás, também é padroeiro de Veneza e da Região do Vêneto. Aqui antes de seu destino definitivo a escultura do leão ficou guardado na Capela de Santo Antônio do Córrego da Serra até 1932, quando um cearense, Sabino Lima, e um pernambucano, Guilherme Pereira Lima, iniciaram a construção da primeira capela do centro da vila, em devoção ao Nosso Senhor do Bonfim. Somente em 1942 o leão alado foi para a velha capela de São Marcos e alguns anos depois foi fixado em sua fachada ainda na década de 1940.

As divisões do distrito de Nova Venécia e a primeira igreja de São Marcos

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fontes Documentais:
Entrevista concedida por Tito Santos Neves em sua residência no Bairro Margareth no ano de 1985 sobre diversos aspectos da sua vida política em Nova Venécia aos integrantes do Movimento Cultural de Nova Venécia.
Ata Nº 153 da Sessão Extraordinária realizada no dia 28 de Agosto de 1953 na Câmara Municipal de São Mateus às 19:30 horas sob a Presidência do Sr. Antônio de Carvalho. Arquivo da Câmara de Vereadores de São Mateus (ES).
Lei Estadual Nº 65 de 30 de Dezembro de 1947. Disponível em: http://www3.al.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/LEI651947.html. Acessado em 20/01/2021.
Lei Municipal de São Mateus Nº 329/53 de 28 de Agosto de 1953 – “Cria o Município de Nova Venécia” (Cópia). Arquivo da Câmara de Vereadores de Nova Venécia (ES).
Processo “Assembléia Legislativa – Encaminhando, por cópia, o ofício que lhe foi dirigido pelo Sr. Presidente da Câmara M. de S. Mateus, a propósito da criação do Município de Nova Venécia.” 17/12/1953. Fundo Governadoria, Série Processos, Ano 1953. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).

Fontes Bibliográficas:
Jornal “A Tribuna Livre” – órgão da Câmara Municipal de Nova Venécia. Ano I- Nº 01 – Março a Junho de 1988.
Revista “Memória Legislativa” – órgão oficial da Câmara Municipal de Nova Venécia –ES. Ano I- Nº 01 – Abril de 2000.
FURBETTA, Carlos. História da Paróquia de Nova Venécia. Nova Venécia: Paróquia São Marcos, [1982].
GASPARINI, Waldir (agente de estatística). Nova Venécia – ES. In: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Volume XXII. Rio de Janeiro: IBGE, 1959. p.126-129.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério Frigerio. Da Colonização à Emancipação: uma breve história de Nova Venécia (1870-1953). In: Patrimônio Fotográfico: catálogo de fotografias do município de Nova Venécia. Nova Venécia: AARQES, 2019. p. 12-31. Disponível para Download em: https://drive.google.com/file/d/1qLWTePp-scIwdOmrRdXdcx8J8q7O93v/view

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes

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