Carolina Cosse: se a Frente Ampla uruguaia sobreviveu à ditadura, sobrevivemos a qualquer coisa


Opera Mundi – No programa 20MINUTOS INTERNACIONAL desta quinta-feira (24/06), o jornalista Breno Altman entrevistou Carolina Cosse, prefeita de Montevidéu desde novembro de 2020 pela coalizão de esquerda Frente Ampla, sobre a nova realidade uruguaia. O país está com um governo de direita pela primeira vez em 15 anos.

“A Frente Ampla foi criada em 1971, mas estava viva antes disso. Foi um processo de união das forças de esquerda que culminou com a criação da coalizão. Nós sobrevivemos à ditadura. Se sobrevivemos à ditadura, podemos sobreviver a qualquer coisa. Mas certamente cometemos erros, talvez devêssemos ter nos comunicado melhor. A política também não é um jogo em que se joga sozinho”, refletiu.

Ela relembrou as conquistas que os governos da Frente Ampla trouxeram ao Uruguai, como leis antitabaco e sistema de saúde integral, e ponderou sobre os motivos pelos quais, apesar de tudo, a população decidiu eleger um governo de direita. Para ela, um possível declínio da coalizão não é um deles.

Cosse reforçou que a frente não foi criada para fins eleitorais e seguirá com o trabalho de base, fortalecendo a união entre os vários partidos que compõem a coalizão. Nesse sentido, o papel de Montevidéu é essencial.

“Que a direita chegue ao governo não significa que tem comando político. A política é mais complexa do que isso e pensar que porque somos oposição não podemos construir política é um erro. O povo segue sendo o povo e temos que seguir dizendo a verdade, sendo propositivos. A Frente Ampla não nasceu com definição eleitoral. Claro que é importante chegar ao governo, mas a política é mais do que isso”, defendeu Cosse.

A capital uruguaia, que abriga quase 60% da população do país, está sob gestão frenteamplista há 30 anos e, de acordo com a prefeita, foi o berço de todas reformas estruturais e políticas nacionais promovidas, sobretudo nos governos (2005-2010 e 2015-2019) de Tabaré Vázquez (1940-2020).

Por isso, ela espera que sua gestão sirva de referência para o resto do país. Cosse citou, por exemplo, o Plano ABC, Plano de Apoio Básico à Cidadania, “que começou como emergencial, mas se transformará em plano de governo porque os efeitos da pandemia não serão passageiros”. O projeto consiste em oferecer recursos à população, como transporte público, segurança alimentar, saneamento, saúde, entre outros.

“Queremos mostrar nossa unidade, integrar cidade e campo, transformar a mobilidade, incorporar inteligência artificial ao governo. Temos que mostrar que, mesmo não estando no governo nacional, seguimos abertos ao diálogo, somos claros, firmes e propositivos. Estamos trabalhando junto à nossa base e à população”, afirmou a prefeita.

Lacalle Pou: ‘conservador e neoliberal’

Sobre o presidente Luis Alberto Lacalle Pou, Cosse afirmou que ele faz um governo “de cerne conservador e neoliberal” e que já está revertendo medidas implementadas pelos ex-presidentes frenteamplistas, como a proibição de uso de tabaco em espaços públicos e ambientes fechados, autorizando o uso de cigarros eletrônicos.

“[Está acabando com] Toda uma conquista de anos que salvou vidas e melhorou a cultura, porque os uruguaios, às vezes, quando vamos a outro lugar onde se fuma, não entendemos o que está acontecendo, está é uma mudança cultural”, disse.

Cosse sublinha tal mudança analisando o início do governo direitista com o primeiro mandato de Vasquez, em 2005. Segundo a prefeita, o mandatário progressista estabeleceu, ao entrar na Presidência, um plano de emergência que previa diminuir a taxa de pobreza no país. 

A partir do plano, foi criado o Ministério do Desenvolvimento Social, um “legado do governo”. No entanto, ela ressalta que, com Lacalle Pou, “há sinais de retrocesso” no país.

Mesmo apontando críticas ao governo atual, Cosse afirma que o mandato de Pou é “legítimo”, “porque foi eleito pela maioria do povo”. “Devemos ter regras de respeito. Discordar, entendendo que somos adversários, mas não inimigos”, afirmou.

‘Vacina não é tudo’

Para a prefeita de Montevidéu, a vacinação contra a covid-19 não é somente a única forma de conter a doença. Ela defende ser necessário controlar a circulação do vírus, já que há um tempo necessário entre a primeira e segunda dose do imunizante.

“Quando você tem um vírus em plena circulação e novas variantes… primeiro a vacina tem um tempo entre uma dose e a outra, e depois da segunda tem um tempo para a imunidade, e você tem esse grau de circulação do vírus, não é suficiente. Tem que se vacinar, mas tem que conter a circulação do vírus”, declarou.

Cosse disse que, no início da pandemia no Uruguai, foi feita uma campanha para que os cidadãos permanecessem em casa, evitando aglomerações. Assim como uma “estratégia de rastreamento de casos”, que, de acordo com ela, “eram poucos”, e, por isso, “se conseguia controlar as infecções”.

No entanto, a prefeita afirmou que a pandemia “não está controlada”, ao mesmo tempo em que o país está em uma “etapa de liberdade responsável”. “Temos um problema sanitário, que, agora, não está dominado. Estamos com uma cifra de 60 a 70 mortes por dia. É um número muito grande. Na verdade, qualquer cifra maior que zero é um disparate”, disse.

A ex-senadora comenta que, para ela, a pandemia, além de ser uma crise sanitária, também é econômica, social e cultural, já que “o que está acontecendo vai na contramão da nossa natureza”.

“Isso provoca uma crise cultural. Há duas gerações de jovens cursando as universidades graças às aulas online, mas que nunca pisaram na instituição. E você sabe o que isso significa”, afirmou.


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