Capixabas em casa: velhos costumes voltam à tona

A pandemia causada pelo novo Coronavírus fez com que muitas pessoas se recolhessem para o interior de suas casas e voltassem as atenções para os cuidados com a família e com o ambiente doméstico. Uma realidade que se aproxima muito da atuação dos profissionais de economia doméstica.

O Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) conta com uma equipe de economistas domésticos que associa, na medida exata, os ingredientes tão necessários para a obtenção de bons resultados: as técnicas adequadas de boas práticas, os resultados científicos e os conhecimentos tradicionais das famílias rurais do Espírito Santo.

Sem se dar conta, os capixabas buscam os melhores e mais eficientes métodos de administração doméstica e manutenção de aspectos, como saúde, desenvolvimento humano, alimentação e finanças. Tudo para melhorar a gestão e a rotina domiciliar, aproveitar melhor os alimentos disponíveis e promover mais qualidade de vida.

“Toda esta situação nos colocou para dentro, para cuidar das nossas famílias. E isso tem tudo a ver com a Economia Doméstica. A profissão surgiu justamente para cuidar do interno, do ambiente privado. Com a evolução do trabalho feminino, saímos do ambiente privado e fomos a público, mas sempre levando esta dimensão do doméstico. Agora, vem este momento de nos colocarmos novamente no âmbito do privado, cuidando de nós mesmos e de nossas famílias”, considerou Cristiana Barbosa, economista doméstico do Incaper.

Para Angélica Carvalhais, que também é economista doméstico do Incaper, o planejamento é uma ferramenta fundamental para a organização das famílias, especialmente diante da pandemia. “Um planejamento familiar bem feito deve incluir todos os atores daquela família: o idoso se houver; a mulher, o homem, a criança, o adolescente… todas essas pessoas têm uma relação de consumo. Ao fazer um planejamento, a família vai repensar sobre como administrar os recursos disponíveis, sejam eles financeiros, humanos ou alimentares. Repensar a alimentação saudável, o reaproveitamento integral do alimento, consumir alimentos que de fato nos deem imunidade. No planejamento familiar, precisamos considerar a ótica da saúde, incluindo aí a alimentação, a ótica da administração financeira, os gastos… isso traz resultados não apenas sociais, mas inclusive ambientais”, avaliou a extensionista do Incaper.

Carvalhais lembrou que, na hora de ir ao mercado, não dá pra ficar garimpando produtos. A boa e velha lista de compras é uma forma de planejamento doméstico bastante eficaz, que ajuda a controlar as despesas e contribui até mesmo para reduzir o risco de contaminação. “O nosso comportamento doméstico pode nos expor a esta pandemia. Muitas pessoas têm ido ao supermercado sem planejamento prévio. Ficam um tempão diante da prateleira tentando lembrar se precisam de determinado item, se expondo por um tempo maior à pandemia e, quando chegam em casa, descobrem que está faltando uma coisa ou outra. Não ter um planejamento prévio para as compras faz com que as pessoas fiquem um tempo maior no supermercado e se exponham mais ao risco”, disse.

“É também importante as famílias planejarem como será a divisão das tarefas na casa, considerado as habilidades de cada um e também a possibilidade de aprender novas atividades. É uma estratégia para não ter alguém sobrecarregado. Sabemos que, historicamente, as mulheres estão com a responsabilidade de administrar e executar as tarefas domésticas. Mesmo quando elas saem para trabalhar fora, ainda cabe a elas o cuidado com a casa e com os filhos. É importante destacar que as tarefas domésticas são responsabilidade de todos que moram na casa. Se todos colaboram nas atividades, há mais tempo para momentos prazerosos. Esses momentos  fortalecem os laços de convivência familiar e dão sentido a nossa existência”, complementou Barbosa.

Para envolver todos os membros da família nas atividades, a equipe de economia doméstica do Incaper sugere algumas atividades que ajudam tanto na organização da rotina como no resgate de alguns valores e tradições. “Pode definir uma atividade por dia, e cada pessoa ter uma função, ser o responsável para pensar a atividade naquele dia. Pode ser feita uma receita culinária simples de família, envolvendo as crianças na elaboração; fazer massinha caseira com as crianças… Outra atividade bem interessante é montar a árvore genealógica. Neste caso, todos precisam relembrar histórias, buscar fotos, ligar para parentes. E ainda: buscar construir brincadeiras, lembrar cantigas de roda, coisas que fazíamos na infância, momentos para contar histórias… Definir um local na casa para ser o cantinho da calma, com músicas ou vídeos que transmitem mensagens positivas. E para envolver familiares e amigos que estão distantes, as famílias podem criar grupos e fazer vídeo conferência com as crianças, propondo brincadeiras, como ‘Seu mestre mandou’ e outras mais”, sugeriu Cristiana Barbosa.

Ana Paula Pereira de Castro, que também é economista doméstico do Incaper, concorda. “Neste momento em que as pessoas estão ficando mais em casa, elas estão se aproximando mais das próprias tradições. Antigamente, isso era comum. As pessoas eram mais próximas, havia o costume de preparar as receitas em conjunto com a família. Neste momento em que é preciso ficar mais em casa, podemos lançar um olhar mais otimista para este período, que está permitindo que isso volte a acontecer”.

“Fique em casa, siga as orientações de prevenção, higienize as mãos, o ambiente e os alimentos adequadamente. Isso sim é cuidar da saúde de maneira integral, para o bem estar físico, mental e social. Este é o momento de cuidar da casa, da família, com muito carinho, como faziam os nossos avós, espalhando boas energias e muito amor. Em breve, vamos superar esse momento”, ressaltou.

Texto: Juliana Esteves

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