Câmara de Vitória elege primeira vereadora negra

Com 5.625 votos, Camila Valadão foi a segunda vereadora mais votada de Vitória. Junto com Karla Coser (PT), que se autodeclara parda, ela vai compor a ala de mulheres da Casa de Leis da capital.

Por Maíra Mendonça, G1 ES

No dia 1ºde janeiro de 2021, a recém-eleita Camila Valadão (PSOL) cruzará as portas da Câmara Municipal de Vitória como a primeira mulher negra a exercer o papel de vereadora da capital do Espírito Santo.

Seu desafio, como ela mesma pontua, é conseguir fazer com que a voz das mulheres – e, principalmente, das mulheres negras – ecoe por um plenário tradicionalmente regido por homens.

“É absurdo que só elegemos uma mulher negra na capital depois de 32 anos de a Constituição de 1988 ter restabelecido a democracia no país. Negros e negras são a maioria nesse país, mas são sub-representados politicamente. Minha eleição é o resultado de uma ampla mobilização de negros e negras para ter uma representação”, ressalta ela.

Com 5.625 votos, Camila Valadão foi a segunda vereadora mais bem votada de Vitória. Junto com Karla Coser (PT) – que se autodeclara parda – ela vai compor a ala de mulheres do novo plenário, formado por outros 13 homens.

Camila afirma ter elencado 50 propostas para dar o pontapé inicial em seu mandato. Entre elas, estão a de desenvolver um laboratório para a criação de projetos de lei e a criação de um conselho político para sua gestão, reunindo membros de diferentes setores da sociedade.

As pautas serão centradas nas mulheres, nos negros, no público LGBT e em outras minorias. “Pretendemos usar todos os argumentos políticos para fazer o convencimento e convocar a sociedade para se fazer presente”, disse.

Para Patrícia Rufino, que é doutora em Educação e especialista em relações étnico raciais, a vitória da candidata é um ganho do ponto de vista da representatividade, não só por Camila ser uma mulher negra, mas também por trazer no bojo de suas propostas a luta contra o racismo.

“Camila tem feito um excelente trabalho de militância nos morros de Vitória, onde atua. [A eleição dela como vereadora] mostra a força política que nós mulheres temos construído no Espírito Santo. Mostra a importância de nós mulheres negras nos vermos representadas e mostra o crescimento de uma bandeira política trazido pelo PSOL, que é a luta antirracista”, analisa a professora da Ufes.

Outras duas vereadoras também já passaram pela Câmara de Vitória: Neuzinnha, única vereadora mulher da atual legislatura, que se candidatou à prefeitura, e se identifica como parda.

Já Luzia Toledo, vereadora por dois mandatos na capital (1988 e 1996), se autodeclarou parda no último pleito ao qual concorreu, em 2018, para o cargo de deputada estadual.

Mas o número de mulheres, especialmente o de pretas e pardas, ainda está muito distante do total de homens eleitos para representar a população nas casas legislativas.

Contabilizando-se somente os municípios de Vitória, Cariacica, Serra e Vila Velha, dos 68 vereadores eleitos neste domingo (15), 6 são mulheres, ou seja, menos de 10% do total.

Destas seis, duas se declararam pretas (Camila, em Vitória, e a reeleita Patrícia Crizanto, do PSB, em Vila Velha); três se declaram brancas (Tita, do PSD, em Vila Velha; Elcimara Loureiro, do PP, na Serra, e Raphaela Moraes, da Rede, também na Serra), e uma se declara parda (Karla Coser, em Vitória).

Para Patrícia Rufino, os números são o sinal de que as Câmaras, eleitas pela população, não são tão representativas quanto precisam ser.

“Há uma histórica condição de defasagem. Desde que foi dada a permissão para as mulheres votarem, há uma dificuldade de se aceitar que os espaços políticos sejam ocupados por mulheres, especialmente as negras. O Brasil, os partidos, precisam investir na formação política de mulheres para que elas sejam qualificadas para o debate e para a ação política. Essas mulheres que estão entrando, estão entrando em uma luta extremamente tensa de enfrentamento do machismo, do sexismo e do racismo”, aponta Rufino.

Camila Valadão (PSOL) foi a 2ª mais votada em Vitória — Foto: Divulgação/ PSOL

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