Brasil registra número elevado de mortes de Profissionais da Saúde por Coronavírus

Mais de 12 mil profissionais, técnicos e auxiliares de enfermagem estão infectados ou têm suspeita de infecção por covid-19 no Brasil

Enfermeiros recebem oração em frente ao Hospital Dr. Alceu Melgaço Filho, em Barra de São Francisco

Cerca de 12 mil profissionais, técnicos e auxiliares de enfermagem estão infectados ou têm suspeita de infecção por covid-19 no Brasil; 94 vieram a óbito – Miguel Schincariol/AFP
Nesta terça-feira (12), comemora-se o Dia Internacional da Enfermagem. Durante o período da pandemia que assola todo o globo, a importância do trabalho desses profissionais não poderia estar mais nítida: são eles que recebem os infectados, os acolhem e checam diariamente suas condições físicas, emocionais e psicológicas. São eles também, muitas vezes, as últimas pessoas que têm contato com aqueles que não resistem à doença.

A coragem e a honradez da profissão têm sido motivo de homenagens por todo o mundo, porém, na realidade, a situação desses profissionais enquanto classe, tem poucos motivos para comemoração.

Durante esse período de pandemia, os riscos para os profissionais aumentaram. Até agora, no Brasil, há mais de 160 mil infectados confirmados. Segundo o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), há cerca de 12 mil enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem entre infectados e suspeitos de terem contraído a doença. Todos foram afastados com suspeita ou confirmação de estarem com o novo coronavírus. Infelizmente, 94 já perderam a vida.

O Brasil hoje é o primeiro país do mundo em mortes de profissionais de enfermagem, superando Estados Unidos, Espanha e Itália juntas. O número de profissionais mortos no país em decorrência do novo coronavírus representa cerca de 38% do número de mortes em todo o mundo, contabilizado em 260 casos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Brasil tem mais de 8 mil profissionais da saúde afastados em meio à pandemia de Covid-19

De acordo com o Folhapress, ao menos 8.265 profissionais de saúde em todo o país estão afastados de suas funções em meio à pandemia do novo coronavírus. Esses funcionários precisaram deixar o trabalho por terem apresentado sintomas da doença ou por fazerem parte de algum grupo de risco.

O levantamento foi feito pela reportagem com consultas a secretarias estaduais e municipais de Saúde (no caso das capitais), conselhos de medicina e enfermagem e fundações hospitalares. Os dados foram tabulados até a tarde dessa quinta-feira (16).

O Brasil tem 490.859 médicos em atividade, segundo o Conselho Federal de Medicina; não existem dados, no entanto, sobre o total de profissionais da área da saúde, contando enfermeiros, técnicos, maqueiros e outros, no país.

O número de profissionais afastados é ainda maior, já que não foi possível obter registros de alguns Estados, como São Paulo, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Goiás. Já o Ministério da Saúde respondeu que esses dados ainda não foram contabilizados nas unidades federais.

Profissionais da saúde apontam, desde o início da disseminação do vírus no país, que a insuficiência de mão de obra será um dos principais problemas no atendimento aos doentes. A dificuldade se agrava na medida em que os próprios médicos e enfermeiros acabam infectados e são obrigados a deixar seus postos de trabalho.

Como não há Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em número suficiente, funcionários estão mais expostos ao risco de contaminação. O problema já foi levado à Justiça por sindicatos e defensorias, que tentam obter os insumos junto aos Estados, municípios e União.

Na capital paulista, segundo a Secretaria Municipal da Saúde, a rede municipal de saúde soma 80.880 funcionários. Até esta quarta-feira (15), 3.865, ou 4,8% do total, estavam afastados, sendo 532 com diagnóstico de Covid-19 e 3.333 com síndrome respiratória aguda grave; 11 profissionais morreram.

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo não informou o total de profissionais da área que estão afastados.

Na rede municipal do Rio, 768 profissionais estão afastados com sintomas respiratórios ou por fazerem parte de grupo de risco. Eles representam 6,3% de toda a força de trabalho na rede, que soma 12.154 funcionários.

Na rede estadual, 493 deixaram o trabalho, com sintomas e/ou confirmação da infecção pelo coronavírus. O número corresponde a 2,5% dos profissionais que atuam nas emergências e UPAs estaduais.

O Ministério da Saúde não informou à reportagem a quantidade de profissionais afastados nos hospitais federais do Rio.

Uma enfermeira do Hospital Federal Cardoso Fontes, Chris Gerardo, afirma que mais de 20 funcionários da emergência, contando com ela, tiveram teste positivo para o vírus. Com sintomas como febre, coriza e tosse, Chris recebeu o resultado positivo na última segunda-feira (13). Ela estava afastada desde o dia 7.

A enfermeira afirma que, no início da disseminação da doença, a Comissão de Infecção Hospitalar da unidade desestimulou o uso permanente das máscaras cirúrgicas. “Disseram que a gente estava causando pânico, desperdiçando material”.

Ela lembra que a limitação de espaço físico na emergência dificulta a manutenção da distância necessária para reduzir o risco de infecção. “Não tem condição de cumprir medida de segurança de espaço. Uma maca de 70 cm fica parada em um corredor de 2 m. Já passo encostando na maca”, diz.

Em nota, a direção do hospital afirma que adotou todos os protocolos do Ministério da Saúde e da OMS para o atendimento dos casos de coronavírus na unidade. Segundo a direção, os funcionários trabalham com todos os equipamentos de proteção necessários.

No Distrito Federal, cerca de 700 profissionais estão afastados por terem tido contato com infectados ou por apresentar sintomas de gripe. A Secretaria de Saúde informou que ainda fará a testagem para o coronavírus nesses funcionários.

Depois de São Paulo, Rio e Distrito Federal, os Estados que reúnem o maior número de profissionais afastados são Mato Grosso, Acre, Minas Gerais, Pernambuco, Ceará, Santa Catarina e Bahia.

Em Mato Grosso, a Secretaria de Estado de Saúde contabilizou 600 afastamentos, incluindo profissionais com sintomas do vírus e aqueles que fazem parte de grupos de risco. Até a última semana, 13 tiveram testes positivos para o coronavírus.

No Acre, 423 funcionários deixaram o trabalho por orientação da Secretaria de Estado de Saúde. Vinte tiveram testes positivos, e o restante foi afastado por apresentar comorbidades. O número representa 7,3% do total de profissionais da saúde no Estado, o que levou o governo a recorrer a 63 contratações emergenciais.

O número de profissionais da saúde contaminados em Pernambuco chama a atenção. São 425 os funcionários que tiveram testes positivos, da rede pública e privada, o que corresponde a 33% de todos os casos no Estado.

O governo afirma que o número é maior do que nos outros Estados porque Pernambuco foi a primeira unidade da Federação a obrigar a testagem de todos os profissionais de saúde que apresentem sintomas da doença. Em outras regiões, médicos e enfermeiros alertam que têm encontrado dificuldades para serem testados para o vírus.

Já em Belo Horizonte, em Minas Gerais, 164 funcionários estão afastados enquanto aguardam o resultado do teste. Outros 21 foram comprovadamente contaminados.

Na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais, 122 funcionários deixaram suas posições. Destes, 16 tiveram teste positivo.

No Ceará, 137 profissionais deixaram suas funções temporariamente. Do total, 28 tiveram teste positivo para o vírus. Nas redes estadual e municipal de Santa Catarina, 137 também foram afastados com sintomas e/ou confirmação da doença.

Já na Bahia, nas redes estadual, municipal e privada, 77 funcionários foram infectados. Em Ipiaú, cidade de 45 mil habitantes do Sul do Estado, foram registrados 12 casos do novo coronavírus. Destes, 11 são de funcionários do Hospital Geral gerido pelo governo da Bahia. Foram contaminados médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem e maqueiros.

O primeiro caso foi identificado no dia 27 de março. Desde então, outros funcionários passaram a ter sintomas como tosse, febre e perda de olfato e paladar. Dos 11 profissionais que registraram o vírus, 10 tiveram sintomas leves e cumprem quarentena em casa. Apenas um registrou o quadro mais grave e precisou ser internado.

Após uma investigação epidemiológica, o hospital descobriu que o vírus foi transmitido por uma paciente assintomática que chegou à unidade de saúde com suspeita de infarto. Profissionais que tiveram contato com essa paciente acabaram sendo infectados.

O diretor do hospital Alexandro Miranda afirma que o afastamento dos funcionários acabou alterando a rotina da unidade, que teve que adotar um plano de contingência: “O impacto foi considerável. Todo profissional do nosso quadro é importante”, afirma.

O hospital adotou medidas como a sanitização das áreas interna e externa em dias alternados. Funcionários que estão em serviço têm a temperatura medida todos dias. Também são realizados hemogramas para identificar indícios de infecções.

Mesmo com a quarentena e medidas preventivas, funcionários do hospital afirmaram à reportagem que têm sido estigmatizados e até criticados por parte da população por causa da concentração de casos entre profissionais da saúde.

O número de casos de coronavírus em Ipiaú, contudo, pode ser maior, já que profissionais de saúde e pacientes com sintomas graves têm prioridade nos testes.

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