Brasil: corretor é morto com tiro de fuzil da PM após entregar cesta básica

Por Márcia Brasil, Elis Silvestri e Edivaldo Dondossola

Um corretor de imóveis foi assassinado com um tiro de fuzil no dia 28 de abril, em Cordovil, na Zona Norte do Rio. A família diz que o crime aconteceu depois que Leandro Rodrigues da Matta foi entregar uma cesta básica a um amigo que está passando por dificuldades por causa da pandemia.

A Polícia Civil investiga o crime. Na delegacia, o policial militar Bruno Bahia do Espírito Santo disse que atirou porque Leandro seria bandido. Mas o depoimento tem contradições.

Leandro, de 40 anos, era casado, pai de dois filhos pequenos, e morava em Mesquita, na Baixada Fluminense.

Há pouco mais de uma semana, Ana Paula, mulher de Leandro, viu a sua vida mudar.

“A minha filhinha de 2 anos de idade pergunta cadê o pai dela. Meu filho não dorme de noite. A minha semana não estou conseguindo dormir, estou dormindo com remédio e o meu filho pergunta por que o pai dele de bem, um homem de bem, foi morto dessa forma?”, diz Ana Paula.

Leandro, flamenguista de coração, era corretor de imóveis e trabalhava para uma empresa e coordenava outras 250 pessoas.

Com a queda nas vendas, o chefe contou que Leandro estava preocupado com os colegas.

“Os corretores só ganham quando produzem. E o Leandro, com a grande preocupação dele, comprou várias cestas básicas, identificou os corretores que estava precisando e ele ia pessoalmente entregar as cesta básicas na casa dos corretores”, diz Delmo Simões Filho, CEO da empresa.

O corretor Leandro Rodrigues da Matta, morto por tiro de fuzil em Cordovil — Foto: Reprodução/TV Globo

O corretor Leandro Rodrigues da Matta, morto por tiro de fuzil em Cordovil — Foto: Reprodução/TV Globo

Na terça-feira da semana passada (28), Leandro foi fazer uma dessas entregas.

O rastreador do carro mostra que ele saiu de casa, em Mesquita, às 19h08.

Às 19h36, o corretor deixou a cesta básica na casa do amigo, em Cordovil, na Zona Norte do Rio. Seis minutos depois, Leandro foi baleado e morto.

Uma morte ainda cheia de dúvidas e mistério.

“Tem muitas informações desencontradas. Uns falam que foi troca de tiros com a polícia. Mas que troca de tiros da polícia foi essa que só o meu marido foi alvejado?”, questiona a mulher de Leandro.

No mesmo dia em que tudo aconteceu, os policiais militares registraram o caso na delegacia de Brás de Pina, na Zona Norte.

Quem contou a versão dos policiais foi o PM Bruno Bahia do Espírito Santo. Ele disse que por volta das 19h45 os policiais se depararam com um veículo na contramão.

Contou que os policiais deram a ordem de parada, quando um dos ocupantes desceu do carona fazendo disparos contra a viatura. E que os PMs revidaram a agressão e que, neste momento, o motorista do carro tentou fugir dando a ré e bateu contra um muro.

Depois que a morte de Leandro foi confirmada, o caso passou para Delegacia de Homicídios (DH).

Contradição nos depoimentos

E lá, o mesmo PM Bruno prestou um novo depoimento. Repetiu que por volta das 19h40 estava em patrulhamento de rotina pela Rua Barão de Melgaço, em Cordovil, quando os policiais se depararam com um veículo vindo na contramão. E que o veículo desobedeceu a ordem policial e não parou.

Mas nessa hora, o PM Bruno entra em contradição em relação ao outro depoimento. Disse que um dos bandidos, de dentro do carro, passou a dar tiros contra os policiais, enquanto o motorista tentava fugir.

Na primeira versão, na delegacia de Brás de Pina, o PM Bruno tinha dito que o bandido desceu do carro atirando. O policial termina o depoimento dizendo que, pra se defender, fez um único disparo com seu fuzil.

Os policiais disseram que depois do suposto tiroteio, levaram Leandro ainda com vida para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Mas ele morreu depois de dar entrada na emergência.

Eles também disseram que voltaram ao local do crime, mas que teriam ouvido dos moradores que os bandidos que estavam no carro já tinham fugido.

Direitos Humanos da OAB

A Comissão de Direitos Humanos da OAB está acompanhando o caso. O procurador da comissão disse que os depoimentos apresentam muitas lacunas.

“Houve uma mudança de versão, primeiro diz que a pessoa que tirou estava dentro do carro, depois diz que ela saiu do carro. E tem que ser respondido também quem são esses ‘populares’ que disseram que tinham comparsas, supostos comparsas do Leandro, que teriam fugido do carro”, diz Rodrigo Mondego, procurador da comissão.

A Delegacia de Homicídios disse foi lá fazer a perícia e que bandidos armados atacaram os policiais no local do crime. Houve confronto e investigadores ficaram feridos durante o ataque.

A Delegacia de Homicídios disse foi lá fazer a perícia e que bandidos armados atacaram os policiais no local do crime. Houve confronto e investigadores ficaram feridos durante o ataque.

A Polícia Civil diz que a região é controlada pelo traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como “Peixão da Cidade Alta”, que está foragido.

Mais de uma semana depois do crime, a viúva de Leandro exige respostas.

“Eu preciso de justiça, eu preciso de resposta pra dar pros meus filhos de um homem que passava pros meus filhos que vale a pena fazer o bem. (…) Como é que eu falo hoje pra uma criança de 9 anos de idade que o pai saiu pra fazer o bem e não voltou e morreu dessa forma?”.

Viúva é ouvida pela primeira vez nesta quarta-feira

Somente nesta quarta-feira (6), nove dias depois do crime, a viúva está sendo ouvida na DH pela primeira vez.

A DH informou que, por causa da pandemia, os procedimentos estão demorando mais do que o normal. Além de Ana Paula, os investigadores vão ouvir, também nesta quarta, o irmão de Leandro e o amigo que recebeu a cesta básica.

Apreensão e perícia no fuzil

Os investigadores falaram que o fuzil do policial foi apreendido e já foi encaminhado para perícia.

Depois dos questionamentos da equipe de reportagem do RJ1, a Polícia Civil voltou à Rua Barão de Melgaço, nesta manhã, para fazer novas diligências e tentar encontrar câmeras de segurança que tenham registrado o crime. Em um muro em frente ao local do crime, é possível ver uma marca de tiro.

A DH também está fazendo uma perícia complementar no carro de Leandro. O laudo cadavérico do IML que apontou que Leandro morreu com dois fragmentos de bala no pescoço, contrariando mais uma vez a versão do PM Bruno, que disse fez um único disparo.

Alguns questionamentos foram feitos à PM pela equipe do RJ1:

  • Por que o PM Bruno, lotado no batalhão de Copacabana, na Zona Sul, estava fazendo patrulhamento em Cordovil, na Zona Norte da cidade?
  • Ele está afastado das ruas durante as investigações ou continua fazendo trabalho externo?
  • O PM já tinha sido ouvido ou investigado por algum outro motivo?

PM instaura inquérito para apurar os fatos

A PM, no entanto, não respondeu às perguntas. Encaminhou apenas uma nota repetindo a versão de Bruno, mas de forma genérica, sem dar detalhes. Disse ainda que o caso está sendo investigado na DH e que o comando do batalhão da PM também instaurou um Inquérito Policial Militar para apurar os fatos.

Em entrevista ao RJ1, o coronel Mauro Fliess, porta-voz da PM, disse que a corporação está sempre disposta a esclarecer os fatos.

“Esse fato está sendo apurado em um Inquérito Policial Militar , onde de um lado temos a versão do policial militar e de outro a versão prestada pela família. Nesse momento, qualquer ilação seria um pré-julgamento. Não é o momento de pré-julgamento. A Delegacia de Homicídios também está investigando, perícias estão sendo realizadas e ao término poderemos identificar o autor do disparo e também as circunstâncias que levara a esse procedimento”, disse o porta-voz.

Sobre o PM ser lotado em Copacabana e estar atuando em Cordovil, Fliess disse que essa prática faz parte do “regime adicional de serviço”.

“É o serviço extra, em que o policial militar é…. é voluntariado e pode ser a serviço na unidade a sua escolha, em geral, perto da sua residência”.

O policial Bruno, segundo Fliess, não foi afastado de suas funções.

“Até esse exato momento, não existe nenhum indicativo da necessidade de afastamento desse policial militar. Caso ao longo das investigações se apresente algo relevante que indique a culpa dele, serão adotadas as providências administrativas cabíveis. Mas até esse momento não existe esse indicativo”, concluiu Fliess.

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