Bernie Sanders: EUA devem parar de ser apologistas do governo de Netanyahu


247 – O senador progressista e ex-candidato à presidência Bernie Sanders se manifestou sobre a violência de Israel contra a Palestina e defendeu, em artigo no The News York Times, que os Estados Unidos, agora com Joe Biden na presidência, “deveriam exigir um cessar-fogo imediato”, uma vez que o premiê israelense, Benjamin Netanyahu, tem trabalhado “para marginalizar e demonizar os cidadãos palestinos de Israel”.

“Esta abordagem deve reconhecer que Israel tem o direito absoluto de viver em paz e segurança, mas os palestinos também. Acredito firmemente que os Estados Unidos têm um papel importante a desempenhar, ajudando israelenses e palestinos a construir esse futuro”, diz o parlamentar, que coloca a questão: “por que parecemos notar a violência em Israel e na Palestina apenas quando foguetes estão caindo sobre Israel?”. 

Leia a íntegra do artigo:

EUA devem parar de ser apologistas do governo de Netanyahu

Tradução: Jean Goldenbaum

“Israel tem o direito de se defender”

Estas são as palavras que ouvimos dos governos democrata e republicano sempre que o governo de Israel, com seu enorme poder militar, responde a ataques de foguetes de Gaza.

Vamos ser claros. Ninguém está argumentando que Israel, ou qualquer governo, não tem o direito de autodefesa ou de proteger seu povo. Então, por que essas palavras são repetidas ano após ano, guerra após guerra? E por que a pergunta quase nunca é feita: “Quais são os direitos do povo palestino?”

E por que parecemos notar a violência em Israel e na Palestina apenas quando foguetes estão caindo sobre Israel?

Neste momento de crise, os Estados Unidos deveriam exigir um cessar-fogo imediato. Devemos também compreender que, embora o Hamas atirar foguetes contra as comunidades israelenses seja algo absolutamente inaceitável, o conflito de hoje não começou com esses foguetes.

Famílias palestinas no bairro de Sheikh Jarrah em Jerusalém têm vivido sob a ameaça de despejo há muitos anos, navegando em um sistema legal projetado para facilitar seu deslocamento forçado. E nas últimas semanas, colonos extremistas intensificaram seus esforços para despejá-los.

E, tragicamente, esses despejos são apenas uma parte de um sistema mais amplo de opressão política e econômica. Por anos, temos visto um aprofundamento da ocupação israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental e um bloqueio contínuo a Gaza que tornam a vida cada vez mais insuportável para os palestinos. Em Gaza, que tem cerca de dois milhões de habitantes, 70% dos jovens estão desempregados e têm pouca esperança no futuro.

Além disso, vimos o governo de Benjamin Netanyahu trabalhar para marginalizar e demonizar os cidadãos palestinos de Israel, buscando políticas de assentamento destinadas a excluir a possibilidade de uma solução de dois estados e aprovando leis que consolidam a desigualdade sistêmica entre os cidadãos judeus e palestinos de Israel.

Nada disso desculpa os ataques do Hamas, que foram uma tentativa de explorar a agitação em Jerusalém, ou os fracassos da corrupta e ineficaz Autoridade Palestina, que recentemente adiou eleições há muito esperadas. Mas o fato é que Israel continua sendo a única autoridade soberana na terra de Israel e da Palestina e, em vez de se preparar para a paz e a justiça, tem fortalecido seu controle desigual e anti-democrático.

Ao longo de mais de uma década de seu governo direitista em Israel, Netanyahu cultivou um tipo cada vez mais intolerante e autoritário de nacionalismo racista. Em seu esforço frenético para permanecer no poder e evitar processos por corrupção, Netanyahu legitimou essas forças, incluindo Itamar Ben Gvir e seu partido extremista Otzma Yehudit (“Poder Judaico”), trazendo-as para o governo. É chocante e triste que turbas racistas que atacam palestinos nas ruas de Jerusalém agora tenham representação em seu Knesset (parlamento israelense).

Essas tendências perigosas não são exclusivas de Israel. Em todo o mundo, na Europa, na Ásia, na América do Sul e aqui nos Estados Unidos, vimos o surgimento de movimentos nacionalistas autoritários semelhantes. Esses movimentos exploram os ódios étnicos e raciais a fim de construir poder para uma minoria corrupta, em vez de prosperidade, justiça e paz para a maioria das pessoas. Nos últimos quatro anos, esses movimentos tiveram um amigo na Casa Branca.

Ao mesmo tempo, estamos vendo o surgimento de uma nova geração de ativistas que desejam construir sociedades com base nas necessidades humanas e na igualdade política. Vimos esses ativistas nas ruas estadunidenses no verão passado, após o assassinato de George Floyd. Nós os vemos em Israel. Nós os vemos nos territórios palestinos.

Com um novo presidente, os Estados Unidos agora têm a oportunidade de desenvolver uma nova abordagem do mundo – baseada na justiça e na democracia. Seja ajudando os países pobres a obter as vacinas de que precisam, liderando o mundo no combate à mudança climática ou lutando pela democracia e pelos direitos humanos em todo o mundo, os Estados Unidos devem liderar promovendo a cooperação em vez de conflitos.

No Oriente Médio, onde fornecemos quase quatro bilhões de dólares por ano em ajuda a Israel, não podemos mais ser apologistas do governo direitista de Netanyahu e seu comportamento antidemocrático e racista. Devemos mudar o curso e adotar uma abordagem imparcial, que defenda e fortaleça o direito internacional em relação à proteção de civis, bem como a legislação existente nos EUA que sustenta que o fornecimento de ajuda militar dos EUA não pode permitir abusos dos direitos humanos.

Esta abordagem deve reconhecer que Israel tem o direito absoluto de viver em paz e segurança, mas os palestinos também. Acredito firmemente que os Estados Unidos têm um papel importante a desempenhar, ajudando israelenses e palestinos a construir esse futuro. Mas se os Estados Unidos querem ser uma voz confiável sobre os direitos humanos no cenário global, devemos defender os padrões internacionais de direitos humanos de forma consistente, mesmo quando for politicamente difícil. Devemos reconhecer que os direitos palestinos importam. Vidas palestinas importam.

Joe Biden e Bernie Sanders

Joe Biden e Bernie Sanders (Foto: REUTERS/Brendan Mcdermid)

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