As divisões do distrito de Nova Venécia e a primeira igreja de São Marcos

Vista panorâmica da Vila de Nova Venécia no início da década de 1950. As vésperas de sua emancipação a Vila de Nova Venécia já ostenta ares de cidade com seus sobrados erguidos na atual Rua Eurico Salles, dos quais alguns ainda continuam de pé como os que pertenceram ao Zenor Pedroza Rocha e Antônio Daher . No alto a primeira igreja de São Marcos ainda não havia se tornado matriz e aguardava a vinda dos Missionários Combonianos. Acervo: Orietta Toscano (In Memoriam).

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Durante a Primeira República o município de São Mateus, se subdividia em somente dois distritos, o distrito da sede (cidade de São Mateus) e o denominado segundo distrito (com sede na então vila de Nova Venécia). Desde o início da década de 1920 o segundo distrito deixara de oficialmente se chamar Serra dos Aimorés e assumiu o nome de Nova Venécia. Esse grande território se estendia até a confusa e indefinida fronteira com o estado de Minas Gerais, e com o avanço da colonização a partir da década de 1930, vivenciou o conflito territorial conhecido por Contestado. Como consequência disso, por volta de 1936, com o avanço dos mineiros na região, seguindo uma frente de colonização em direção oposta a dos capixabas, foi criado pelo Estado do Espírito Santo, o distrito de Barra de São Francisco, firmando uma espécie de posto avançado dos capixabas na tumultuada fronteira. Este foi o primeiro desmembramento do território do então distrito de Nova Venécia. Inclusive, anos depois em 1943, dez anos antes da emancipação de Nova Venécia foi instituído o município de Barra de São Francisco, desmembrando-se de São Mateus. Assim territórios que hoje abrangem municípios como Mantenópolis, Água Doce do Norte e Ecoporanga, que originalmente pertenceram a Barra de São Francisco, foram desvinculados do grande distrito de Nova Venécia ainda em fins dos anos 1930.

Também foi designada uma paróquia no local, desmembrando a jurisdição religiosa da paróquia de São Mateus, para onde foi enviado o Padre Lauro Zacarias de Oliveira, que relatava andar armado com sua carabina, devido aos perigos do sertão. Tinha que negociar constantemente com os coronéis e seus jagunços para que, com sua mulinha, cortasse os caminhos que davam acesso aos povoados para ali batizar, casar, benzer e rezar missa aos fiéis, que segundo diziam, eram mais numerosos aqui do que em Barra de São Francisco. Isso o levou a manter provisoriamente a sede de sua paróquia por dez anos em Nova Venécia antes de se transferir definitivamente para Barra de São Francisco.

Foi o Padre Zacarias, que por meio de leilões, quermesses e doações, construiu, junto à população, entre 1941-42, a primeira igreja dedicada a São Marcos, aqui em Nova Venécia. A modesta capela localizava-se a frente do que mais tarde se tornou a atual Matriz.

Na região de Guararema, a colonização por mineiros avançava desde 1927, o que nas décadas seguintes aumentou com a chegada de migrantes do sul e centro do Espírito Santo (inclusive com muitas famílias ítalo e germano-capixabas) além de outras oriundas do próprio município de São Mateus. É o momento em que se intensificam também a exploração dos territórios da região do Córrego Grande (que também abrangia parte do atual distrito de Santo Antonio do Quinze), que passou a receber migrantes descendentes de alemães, pomeranos e poloneses, além de descendentes de italianos vindos da região de Santa Maria de Jetibá, Santa Leopoldina, Santa Teresa e de afro-brasileiros, oriundos de São Mateus ou dos estados de Minas ou Bahia, principalmente a partir da década de 1940. Córrego Grande que se tornou distrito na época da emancipação de Nova Venécia deu origem ao município de Vila Pavão que foi desmembrado do território veneciano por plebiscito em 1990, seguindo um caminho independente a partir de 1993.

Outro fator importante para o desenvolvimento da região foi a conclusão da rodovia que liga Colatina a Nova Venécia em 1947, que havia sido projetada, sobretudo na época como ramal da Estrada de Ferro Vitória a Minas, mas que ainda em 1929 teve seu projeto alterado para estrada de rodagem. A Rodovia do Café abriu para o ainda distrito de Nova Venécia uma nova fronteira e enfraqueceu o domínio que os comerciantes mateenses mantinham sobre a economia local, desligando-a em parte, de São Mateus, pois os produtos agropecuários poderiam ser comercializados agora, também, em Colatina. Sem dúvida fator decisivo no processo de emancipação.

Quanto à região de Boa Esperança, esta teve sua ocupação a partir da exploração do Rio do Norte ou Cotaxé. Ainda no início do século, Cezar Vieira da Cunha, filho do barão se ocupou de terrenos que hoje estão na região do Patrimônio do Bis com o objetivo que montar um Engenho de Açúcar. Foi através do Patrimônio do Bis que as terras de Boa Esperança foram exploradas a partir dos empreendimentos da família Santos Neves que montou serraria para extrair a rica madeira da região, para qual contou com a mão-de-obra de nordestinos que também foram para lá. Um dos vestígios da ligação de Boa Esperança com Nova Venécia é a Estrada Velha que passando pelo Refrigério e Córrego Santa Joana leva ao Bis e, nos primórdios era a via original de ligação com aquela região. Com o desenvolvimento de Boa Esperança, em 1949 surgiu o distrito, instituído juntamente com o de Guararema e o de Nestor Gomes, reduzindo ainda mais o território do antigo distrito de Nova Venécia, que somente em 1953 alcançar sua independência.

1953 e o Processo de Emancipação Política de Nova Venécia

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fontes Documentais:
Entrevista concedida por Tito Santos Neves em sua residência no Bairro Margareth no ano de 1985 sobre diversos aspectos da sua vida política em Nova Venécia aos integrantes do Movimento Cultural de Nova Venécia.
Ata Nº 153 da Sessão Extraordinária realizada no dia 28 de Agosto de 1953 na Câmara Municipal de São Mateus às 19:30 horas sob a Presidência do Sr. Antônio de Carvalho. Arquivo da Câmara de Vereadores de São Mateus (ES).
Lei Estadual Nº 65 de 30 de Dezembro de 1947. Disponível em: http://www3.al.es.gov.br/Arquivo/Documents/legislacao/html/LEI651947.html. Acessado em 20/01/2021.
Lei Municipal de São Mateus Nº 329/53 de 28 de Agosto de 1953 – “Cria o Município de Nova Venécia” (Cópia). Arquivo da Câmara de Vereadores de Nova Venécia (ES).
Processo “Assembléia Legislativa – Encaminhando, por cópia, o ofício que lhe foi dirigido pelo Sr. Presidente da Câmara M. de S. Mateus, a propósito da criação do Município de Nova Venécia.” 17/12/1953. Fundo Governadoria, Série Processos, Ano 1953. Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES).

Fontes Bibliográficas:
Jornal “A Tribuna Livre” – órgão da Câmara Municipal de Nova Venécia. Ano I- Nº 01 – Março a Junho de 1988.
Revista “Memória Legislativa” – órgão oficial da Câmara Municipal de Nova Venécia –ES. Ano I- Nº 01 – Abril de 2000.
FURBETTA, Carlos. História da Paróquia de Nova Venécia. Nova Venécia: Paróquia São Marcos, [1982].
GASPARINI, Waldir (agente de estatística). Nova Venécia – ES. In: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Volume XXII. Rio de Janeiro: IBGE, 1959. p.126-129.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério Frigerio. Da Colonização à Emancipação: uma breve história de Nova Venécia (1870-1953). In: Patrimônio Fotográfico: catálogo de fotografias do município de Nova Venécia. Nova Venécia: AARQES, 2019. p. 12-31. Disponível para Download em: https://drive.google.com/file/d/1qLWTePp-scIwdOmrRdXdcx8J8q7O93v/view

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes


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