Ao completar 120 anos, Fiocruz constrói Centro Hospitalar para tratar casos graves de Covid-19

Fiocruz completa 120 anos em meio ao maior desafio do século 21

Castelo Mourisco, maior símbolo da Fundação Oswaldo Cruz.
– Foto:
André Az (CCS/Fiocruz)

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) completou 120 anos nessa segunda-feira (25). A data chega no momento em que o Brasil e o mundo enfrentam o maior desafio sanitário, econômico, social, humanitário e político do século 21, a pandemia da Covid-19. Com o nome de Instituto Soroterápico Federal, a instituição foi criada com o objetivo de combater epidemias como a da peste bubônica, da febre amarela e da varíola, que ameaçavam a então capital da República, o Rio de Janeiro.

Mais de um século depois, agora na pandemia do novo coronavírus, a atual Fundação Oswaldo Cruz, maior instituição de pesquisa biomédica da América Latina, continua na linha de frente do enfrentamento das doenças.

A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, afirma que “a Fundação, presente em todas as regiões brasileiras, vem se dedicando diuturnamente a apresentar propostas e soluções, a elaborar pesquisas que respondam a perguntas ainda sem resposta, a formular e implantar ações estratégicas de atenção e promoção da saúde, como a construção do Centro Hospitalar para a Pandemia Covid-19, uma ação de referência com o Ministério da Saúde, entre muitas outras iniciativas”. Ela acrescenta que “ao completar 120 anos, a Fiocruz reafirma o seu compromisso com o Sistema Único de Saúde (SUS), a grande fortaleza que o Brasil tem neste momento, e que precisa ser fortalecido, e com ações que se voltem para a defesa da vida e da população”.

Nísia recorda que “desde o início do século 20 e da grande obra de Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e tantos outros cientistas, que enfrentaram as epidemias da época e as então chamadas Doenças do Sertão, que eram as enfermidades do Brasil profundo, como a doença de Chagas, nossa instituição é um patrimônio do País porque revela o valor da ciência dedicada a resolver as grandes questões da vida dos brasileiros. E hoje não só dos brasileiros, uma vez que nossas contribuições, incluindo aquelas relacionadas à pandemia do novo coronavírus, têm uma abrangência internacional”.

Ela ressalta que a doença não será a mesma em todos os lugares. “No Brasil, o maior desafio consiste na desigualdade social expressa nos mais diferentes indicadores: alta taxa de desemprego e trabalho informal e condições precárias de moradia, com habitações sem acesso ao saneamento. Acrescente-se a alta prevalência de doenças crônicas entre os maiores de 18 anos, o que implica a presença de fatores de risco para um terço da população e o consequente rejuvenescimento da Covid-19. Não menos importantes são as desigualdades regionais, especialmente no que se refere ao acesso a leitos de UTI”. 

Fiocruz contra o novo coronavírus

Entre as ações da Fundação no enfrentamento ao novo coronavírus está o já citado Centro Hospitalar para a Pandemia Covid-19, integrado ao Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), que terá 195 leitos hospitalares, sendo 120 de unidade de terapia intensiva (UTI) e 75 de semi-intensivo, para atendimento de pacientes graves acometidos pela Covid-19 no Rio de Janeiro.

Outra ação importante é o ensaio clínico mundial Solidariedade, da OMS, coordenado pela Fiocruz no Brasil com apoio do Ministério da Saúde. O estudo prevê uma redução em 80% do tempo para geração de evidências sobre os tratamentos e será realizado em 18 hospitais de 12 estados.

O objetivo do estudo é dar uma resposta rápida sobre quais medicamentos são eficazes no tratamento da Covid-19 e quais são ineficazes e não devem ser utilizados.

Além dessas, outras iniciativas importantes diante da pandemia são projetos na área de vacinas, já que o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos/Fiocruz) vem fazendo a prospecção de potenciais parcerias, tendo como base as competências tecnológicas destes candidatos a parceiros (hoje existem 106 estudos em curso). Há também outra frente, na qual pesquisadores da Fiocruz Minas integram uma rede do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas para o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus. O estudo terá como base uma técnica elaborada na Fiocruz Minas que utiliza o vírus da influenza para gerar resposta uma imunológica.

Foram criados ainda o Observatório Covid-19, que desenvolve análises integradas (cenários epidemiológicos; impactos sociais da pandemia; medidas de controle e serviços de saúde; qualidade do cuidado e segurança); a Rede Covida – Ciência, Informação e Solidariedade para o monitoramento e produção de sínteses de evidências científicas; o Infogripe, que acompanha os níveis de alerta para os casos reportados de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG); e o MonitoraCovid-19, um painel com estimativa da situação do Brasil e unidades federativas baseada no número de casos e óbitos notificados – e em cenários de outros países.

Legado

Nísia comentou que o Instituto Soroterápico Federal, fundado em 1900, e transformado em 1908 em Instituto Oswaldo Cruz, foi criado como resposta a uma grande emergência sanitária: a necessidade de produzir soro contra a peste bubônica que havia chegado a Santos e ameaçava a então capital federal, o Rio de Janeiro. Oswaldo Cruz, como diretor do Instituto Oswaldo Cruz e diretor-geral de Saúde Pública, ampliou a agenda de pesquisa institucional e induziu produção de conhecimento em áreas diversas, como a microbiologia e a medicina tropical, tornando a instituição capaz de atuar também no controle à epidemia de febre amarela que assolava o Rio de Janeiro no início do século 20.

Ela contou que o Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), que agora incorpora o Centro Hospitalar para a Pandemia Covid-19, faz lembrar que a instituição esteve à frente do combate à gripe espanhola, com Carlos Chagas liderando o esforço. Como na pandemia de hoje, a gripe espanhola também tinha na quarentena e no isolamento a sua principal forma de combate. E foi durante a epidemia que ocorreu a fundação do hospital que se tornou o INI.

“Mais de um século depois, a Fiocruz continua empenhada e capacitada a dar respostas à sociedade brasileira, na forma de conhecimento científico, insumos e atenção primária à saúde e nas situações de emergência sanitária, como vimos há poucos anos no caso gravíssimo da tríplice epidemia de dengue, zika e chicungunya e na reemergência da febre amarela.

A Fundação atualmente o está instalada em dez estados e conta com um escritório em Maputo, capital de Moçambique, na África. Além dos institutos sediados no Rio de Janeiro, a Fiocruz tem unidades nas regiões Nordeste (Pernambuco e Bahia), Norte (Amazonas), Sudeste (Minas Gerais), Centro-Oeste (Distrito Federal) e Sul (Paraná). Mantém escritórios no Ceará, Mato Grosso do Sul, Piauí e Rondônia. Ao todo, são 16 unidades técnico-científicas, voltadas para ensino, pesquisa, inovação, assistência e desenvolvimento tecnológico. Há ainda uma unidade descentralizada, em Brasília, e quatro unidades técnico-administrativas dedicadas ao gerenciamento físico da Fundação, às suas operações comerciais e à gestão econômico-financeira e de recursos humanos. Mas a Fiocruz está em todo o território brasileiro, por meio do suporte ao SUS, na formulação de estratégias de saúde pública, nas atividades de seus pesquisadores, nas expedições científicas e no alcance de seus serviços e produtos.

Fiocruz em números:

– é hoje a instituição pública brasileira com o maior número de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) e conta com 50 laboratórios de referência e departamentos articulados em redes internacionais para a solução de problemas de saúde pública. É também a maior produtora mundial da vacina contra a febre amarela, mantém parcerias com instituições de pesquisa de 50 países e coordena a maior rede mundial de bancos de leite humano, que reúne também outros países. A fundação é ainda a maior instituição não-universitária de capacitação e formação de recursos humanos para o SUS

– produziu, em 2019, 129 milhões de doses de vacinas e 116 milhões de unidades farmacêuticas. Forneceu 243 milhões de unidades farmacêuticas, nove milhões de frascos e seringas de biofármacos e seis milhões de reativos para diagnóstico. Fez também cinco mil análises de qualidade de produtos de saúde, 82 mil pacientes tratados, 312 mil testes de referência laboratoriais

– tem 43 programas de mestrado e doutorado (stricto sensu) e 46 cursos presenciais de especialização (lato sensu), mais de sete mil egressos de pós-graduação (stricto sensu e lato sensu) e mais de 3,5 mil egressos de educação profissional. São 29 linhas de pesquisa, mais de dois mil artigos científicos publicados e mais de 2,5 mil projetos de pesquisa e desenvolvimento

Com informações da Fundação Oswaldo Cruz

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