A REPUBLICA GASTA MUITO E O POVO PAGA A CONTA

O cara da história não sou eu.

O cara da história não sou eu.

O povo foi convidado pela Republica para a festa da democracia. Feliz da vida o povo comprou roupa nova para o evento, até por que ele quase sempre não recebe convite desta magnitude. Como eram dois os bilhetes de entrada o convidado decidiu levar como companhia a opinião publica.

No esperado dia o povo e sua opinião publica pegaram o ônibus – transporte publico é mais barato e combina melhor como o povo – e desceram um ponto antes do local do conclave. O convidado não queria que os demais o visse andando de ônibus e isto também não seria bom para a opinião publica.

O empurra-empurra era grande e o povo por pouco não desistiu de participar da festa. Conformado pegou uma longa fila e acabou tomando parte do maior festejo promovido pela Republica. No recinto o povo circulou e se encontrou com pessoas importantes. Tirou fotos com senadores e recebeu tapas nas costas de diversos deputados.

Em determinado momento a opinião publica decidiu chamar a atenção do povo.
-Você viu que o garçom te serviu cachaça, e uísque para o senador?
-Não pode ser. Será que eu fui discriminado!
-Preste atenção. Esta vindo ali o deputado. Observe como o tratamento será diferenciado.

O deputado chega e abraça o povo com muito vigor. Disse que lembrava do povo 24 horas por dia e que seus projetos tinham como finalidade atender as suas necessidades. O povo ficou radiante e até esqueceu o negócio do tratamento diferenciado. O garçom se aproxima e enche a taça do nobre deputado com champanhe francesa. Apanha uma garrafa de espumante de maçã e entorna no copo do povo, deixando transbordar o vasilhame ao ponto de derramar e molhar a roupa nova dele.

-Viu como o garçom foi grosso com você e simpático com o deputado? E também como ele serviu bebida importada da França para o político e um espumante de segunda para você?
-Quem é ela?
-É a opinião publica. Não a conhece deputado?
-Claro que conheço. Eu não dou a mínima para ela. Você deve fazer o mesmo meu amigo.
-Não posso deputado. Ela faz parte de mim.
-Foi bom te ver meu povo! Até a próxima.

O povo ficou indignado e chamou a opinião publica para juntos reclamarem com a Republica – a dona da festa. O povo tentou mais não se encontrou com a anfitriã, que precisou ser levada com urgência ao hospital, devido ao ataque dos sanguessugas, de quem ela a tempo não consegue se livrar. O povo e a opinião publica foram para a rua gritar e espernear. Deu certo e eles conseguiram marcar uma audiência com o Governador da Republica.

Depois de ouvir o povo e a opinião publica o Governador pediu mil desculpas em nome da Republica. Além do ato de desagravo, o povo e sua companheira receberam dois convites para o carnaval, outra grande festa. Saíram igual “pinto no lixo”, já que não contavam com tamanha generosidade por parte da Republica.

Lá da arquibancada o povo e sua amada viram o deputado e o senador no camarote. Eles também receberam convites patrocinados pela Republica e se faziam presentes na badalada festa popular. Todos estavam muito felizes e do local de destaque os políticos sinalizavam com as mãos para o povo.

Na quarta-feira de cinzas o povo levantou cedo para trabalhar e ao passar pela banca leu o destaque da primeira pagina do jornal: REPUBLICA GASTA MUITO E POVO É CHAMADO A PAGAR A CONTA.

Texto: Creumir Guerra
Creumir Guerra é Promotor de Justiça no Estado do Espírito Santo

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