A PRESENÇA DE AFRICANOS NO PÓS-ABOLIÇÃO EM NOVA VENÉCIA

» Não restaram retratos de Frederico, Victorino e Ladislau, mas suas memórias, assim como suas vidas são de resistência. Homenageamos a todos africanos que por aqui deixaram seu suor e sangue com esta simbólica imagem, cuja legenda diz somente “Retrato – Tipos Negros”. Foto: Alberto Henschel, Recife (PE), 1869. Acervo : Instituto Moreira Salles.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

“Quando estávamos prontos a embarcar, fomos acorrentados uns aos outros e amarrados com cordas pelo pescoço e assim arrastados para a beira-mar. O navio estava a alguma distância da praia. Nunca havia visto um navio antes e pensei que fosse algum objeto de adoração do homem branco. (…) Temia por minha segurança e o desalento se apossou inteiramente de mim. (…) Fomos arremessados, nus, porão adentro, os homens apinhados de lado e as mulheres de outro. O porão era tão baixo que não podíamos ficar em pé, éramos obrigados a nos agachar ou a sentar no chão. Noite e dia eram iguais para nós, o sono sendo negado devido ao confinamento de nossos corpos. Ficamos desesperados com o sofrimento e a fadiga.” Mahommah G. Baquaqua, africano que viveu como escravo em Recife (PE), 1854.

O relato acima descreve de maneira dantesca a travessia atlântica feita por milhões de africanos. Mahommah Gardo Baquaqua nasceu em 1824 numa família muçulmana no atual Benin. No início da década de 1840 foi capturado, vendido como escravo e traficado para o Brasil, sendo desembarcado em Pernambuco. Segundo Bruno Rafael V. de Morais e Silva, sua autobiografia é a única da qual se tem conhecimento de um africano escravizado que viveu no Brasil. E foi publicada originalmente em inglês, em Detroit, nos Estados Unidos, em 1854.

A partir de 1840 a economia brasileira, baseada na cafeicultura, viveu seu auge e fortaleceu a prática econômica perversa e cruel do “tráfico de escravos” que no Brasil foi financiada por comerciantes portugueses e norte-americanos.

A base do capitalismo é o lucro. Neste caso ocasionado pela transformação de pessoas em mercadorias que ao serem capturadas eram negociadas ao preço equivalente a US$ 40 dólares na África e aqui vendidos nos mercados negreiros a US$ 400 dólares na média, e em alguns casos devido à idade ou ofício especializado, por até US$ 1.200 dólares. A maioria era jovem, de 16 a 20 e poucos anos, no auge da força física, que tratados da pior maneira possível, morriam de exaustão, em média, depois de 10 anos como escravizados no Brasil.

No Brasil, em 1850, a Lei Eusébio de Queiróz deu fim definitivo ao tráfico atlântico de escravos, porém desembarques clandestinos continuaram a ocorrer por vários anos.

O último navio que traficou escravizados para o Brasil foi abordado próximo à foz do rio São Mateus, costa norte do Espírito Santo, num domingo, 20 de janeiro de 1856. Era uma escuna de nome “Mary E. Smith”, de bandeira norte-americana que foi detida pelo brigue de guerra brasileiro “Olinda” que a escoltou até Salvador. Em seu interior foram encontrados, completamente adoecidos 384 (trezentos e oitenta e quatro) pessoas, amontoadas, em farrapos e famintas. Um jornal da época afirmou que a maioria morreu de doenças e maus-tratos. Haviam sido embarcadas na região do Congo, na África. Durante o período que durou o tráfico humano foram trazidas pessoas de Guiné, Angola, Costa da Mina e Golfo de Bênin, além do Congo. Caio Prado Júnior afirmou que, com essa apreensão, “o tráfico africano deixara para sempre de existir no Brasil”. E essa marca São Mateus trouxe para sua história.

Tratados com desprezo e como mercadorias, essas pessoas, nossos antepassados, foram arrancados de suas famílias, sua terra, seu modo de vida e submetidos a toda a crueldade e subserviência que encontraram do outro lado do Atlântico. Como seus filhos, a África foi sangrada à exaustão. Em 1856, ano da apreensão do Mary E. Smith, a população de escravos da província do Espírito Santo era calculada em torno de 12.269 pessoas, das quais, 2.213 estavam em São Mateus. Na época que o território do sertão de São Mateus chamado “Serra dos Aimorés” (atual Nova Venécia) começava a ser colonizado por volta de 1876, a população escravizada no município de São Mateus girava em torno de 2.500 pessoas.

Africanos em Nova Venécia

A colonização do território de Nova Venécia deu-se a partir da implantação de grandes fazendas no entorno da região da atual APA da Pedra do Elefante com o objetivo de produzir café e isso se deu por meio da mão de obra de africanos e afro-brasileiros que aqui chegaram a partir de 1870. Contudo, essa parcela da população nunca foi devidamente destacada no contexto da história do município tornando-se praticamente “invisível”. Estavam ali, mas não eram vistos, ou lembrados, quase que um apagamento.

Durante nossas pesquisas foi possível identificar a presença, no período pós-abolição, de africanos que aqui viviam como Frederico da Costa, Victorino do Nascimento e o velho Ladislau. Logicamente, estes nomes e sobrenomes eles receberam aqui, muito pouco sabemos sobre suas vidas, porém o que temos nos indica o contexto de suas histórias.

Em 11 de Setembro de 1892, um domingo, por volta das 03:00 horas da tarde, na Fazenda da Serra dos Aymorés (atual Serra de Baixo), propriedade do major Antônio Rodrigues da Cunha, era celebrado o casamento civil de Frederico da Costa, “natural da Costa d’Africa” (donde se pode compreender a origem de seu sobrenome) e Delphina, nascida no Espirito Santo. Ele tinha 55 e ela 50 anos de idade. Sendo correta a idade de Frederico ele teria nascido por volta de 1837, na costa atlântica da África, e trazido à força para o Brasil antes dos 20 anos, numa viagem, provavelmente, bem parecida como a descrita acima por Baquaqua. Infelizmente o registro que consta no primeiro livro de casamentos do cartório de Nova Venécia não traz mais informações como a cor, por exemplo, mas é provável que sua esposa Delphina fosse afro-brasileira.

Sobre Victorino do Nascimento, “natural da África”, as únicas informações que temos são de seu registro de óbito. Ele faleceu no lugar São José de “morte natural” numa sexta-feira, 29 de junho de 1922 e foi sepultado no Cemitério Público da Terra Roxa, região próxima ao Rio Preto. Era viúvo de Lourença Maria da Conseição e com ela teve um filho chamado Simplício Victorino do Nascimento. O declarante era, provavelmente, seu neto chamado Pedro Simplicio do Nascimento. O que mais chama a atenção no registro é a idade do Victorino ao falecer: 130 anos! Mesmo que a idade não seja precisa, ele provavelmente nasceu no início do século XIX. Assim como o Frederico, também é possível que seus descendentes ainda estejam por aqui.

Já o “velho africano” Ladislau tem uma história curiosa, conforme nos deixou registrado Antônio Estigarríbia em relatório datado de 1911: “Esse homem quando escravo, fugiu de seus senhores, acolheu-se a uma tribo de índios, acompanhando-a por muito tempo. Dahi lhe vieram as relações e um certo conhecimento da língua, de que se valeu agora para pôr-se em contato com elles e modera-los.” Sabemos que Ladislau viveu na região do Pip-Nuk e deixou descendência. Mas, além dos antigos que o conheceram, ninguém hoje se lembra dele por lá, de sua incrível história de resistência e de interação entre as culturas indígena e afrobrasileira.

Frederico, Victorino, Ladislau e muitos outros que aqui resistiram a escravidão, e sobreviveram para trilhar suas histórias, hoje saudamos e prestamos justa homenagem. Axé!!!

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
Fontes Documentais:

· Livro 01-B Pequeno (Registro de Casamentos) – Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Nova Venécia (ES).
· Livro 02-C (Registro de Óbitos) – Cartório de Registro Civil e Tabelionato de Nova Venécia (ES).
· Jornal O Diário, 31/10/1912, Vitória (ES), Ano VII, Nº 297 – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).
Fontes Bibliográficas:
AGUIAR, Maciel de. Os últimos Zumbis: A saga dos negros do Vale do Cricaré durante a escravidão. Brasil-Cultura: Porto Seguro (BA), 2001.
GRADEN, Dale T. O envolvimento dos Estados Unidos no comércio transatlântico de escravos para o Brasil. In: Afro-Ásia. n. 35, 2007.
LARA, Silvia Hunold. Biografia de Mahommah G. Baquaqua. In: Revista Brasileira de História. Rio de Janeiro: ANPUH/Marco Zero. v.8, n. 16, 1989.
MARASCIULO, Marília. Como os EUA lucraram com o tráfico de africanos escravizados para o Brasil. Portal da BBC News Brasil. 05/07/2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-53242663 acesso em 19/11/2020.
PRADO JUNIOR, Caio. História Econômica do Brasil. Ed. 28º. São Paulo: Brasiliense, 1983.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
RUSSO, Maria do Carmo de O. Escravidão em São Mateus/ES: Economia e Demografia (tese de doutorado – Universidade de São Paulo). – – São Paulo (SP) : [s. n.], 2011.
SILVA, Bruno Rafael Verás de M. e. Resenha: Memórias Diaspóricas de Djougou para as Américas. In: Revista Africa(s), v. 1, n. 1, jan./jun. 2014.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes

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