A PICADA DO PAIM E A COLONIZAÇÃO DE NOVA VENÉCIA

» Detalhe de Mapa da Província do Espírito Santo com destaque para região do Rio São Mateus e o seu “Sertão desconhecido” que, anos depois, foi desbravado pela Picada do Paim. Cópia retirada do “Atlas do Império do Brazil organizado em 1868 pelo senador Candido Mendes de Almeida antigo professor de Geographia e História do Lyceo de S. Luiz na Província do Maranhão”. Mapoteca 01 – nº 298 – Fundo Documental Agricultura. Acervo: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Levado por sua própria inspiração e auxiliado por pessoas estabelecidas em S. Matheus, partiu o mineiro Paim dos sertões d’aquelle município, e depois de penetrar espessas mattas que apenas erão habitadas por índios selvagens, chegou finalmente ao arraial do Pessanha, na província de Minas, onde foi geralmente festejado, como quem levava a esperança de uma próxima communicação entre as duas províncias.” Deputado Olintho Gomes dos Santos Paiva, Paço da Assembléia

“Levado por sua própria inspiração e auxiliado por pessoas estabelecidas em S. Matheus, partiu o mineiro Paim dos sertões d’aquelle município, e depois de penetrar espessas mattas que apenas erão habitadas por índios selvagens, chegou finalmente ao arraial do Pessanha, na província de Minas, onde foi geralmente festejado, como quem levava a esperança de uma próxima communicação entre as duas províncias.” Deputado Olintho Gomes dos Santos Paiva, Paço da Assembléia Legislativa da Província do Espírito Santo, 24/11/1871.

A colonização do atual município de Nova Venécia iniciou-se em torno da região hoje conhecida como APA – Área de Proteção Ambiental – da Pedra do Elefante. Localizada próximo a nossa cidade como um guardião, a Pedra do Elefante, apesar de ter perdido sua “tromba”, continua altiva a indicar o caminho para casa, para quem chega pelas estradas de Colatina e Barra de São Francisco.

Essa mesma formação rochosa, que no século XIX ainda não possuía a alcunha de Elefante, já mostrava para o pioneiro colonizador “Barão de Aymorés”, a possibilidade de um futuro “promissor”. Nascido em 1834 no município de “Barra de São Matheus”, hoje Conceição da Barra, o major da Guarda Nacional Antônio Rodrigues da Cunha, de lá partiu deixando a Fazenda de São Domingos e, no braço sul do Cricaré, fundou sua nova Fazenda do Cachoeiro do Cravo, no início da década de 1860, priorizando a produção de cana de açúcar, tudo mantido por mão de obra de seus escravos africanos e afro-brasileiros.

De lá, no entanto, o major, que mais tarde tornou-se barão, olhava a oeste as serras distantes e imaginava a possibilidade de terras férteis para a produção cafeeira, que passava por seu apogeu por volta de 1870. Nessa época incumbiu ao mineiro José Gomes Paim a abertura de uma picada (caminho) que ligaria a cidade de São Mateus, adentrando para o oeste, quase que em linha reta, atravessando a lendária Serra dos Aimorés, chegando em Minas Gerais, no Arraial de Santo Antônio do Peçanha, então município do Serro.

Seu interesse era comercial, pois por essa pretensa estrada poderia trafegar toda a produção agrícola do nordeste mineiro até o porto de São Mateus. Sem dúvida o prestígio da cidade aumentaria e, consequentemente, de seus “donos” também. Era a possibilidade de tornar São Mateus uma das regiões mais importantes da Província do Espírito Santo.

Interessante observar que os mapas do período destacavam nossa região entre São Mateus e o Peçanha como “Sertão desconhecido” ou “Matas pouco conhecidas e habitadas pelos Indígenas”, sem dúvida, uma região que possuía terras férteis e repletas de madeira de lei. A tradição oral afirma que o major mantinha relacionamento amistoso com os indígenas por meio de pequenos agrados, e que falava sua língua, o que contribuiu para que estes permitissem e até guiassem sua entrada pela região da Serra dos Aimorés.

A mesma tradição oral relata que nessa época, o major teria perguntado aos índios como chegar a serra, e eles afirmaram ser necessário uns dez dias. Quando saíram, o major observou que eles começavam a caminhada e quando cansavam, paravam e montavam acampamento. Por isso tanto tempo! O major então teria exigido a continuidade da jornada! Como toda lenda tem um fundo de verdade, observamos aí o conflito entre as culturas indígena e a europeia.

A picada seguia do Cachoeiro do Cravo para cá, margeando o Cricaré e passando pelas localidades que mais tarde foram denominadas de Criméia, Fazenda da Terra Roxa, Fazenda da Gruta, (vizinhas à região do Rio Preto onde hoje existe o Assentamento Zumbi dos Palmares), atravessando por trás da região da APA da Pedra do Elefante, cruzando a Fazenda Santa Rita, Neblina, Serra de Cima, Santa Rosa de Cachoeirinha, São José do Campo Real, Cristalina, Cedrolândia, Guararema, Barra de São Francisco e seguia pela região que hoje é Mantena para chegar ao Peçanha, já em território mineiro, tendo como maior obstáculo a travessia do rio Suaçuí, afluente do rio Doce.

Provavelmente já havia caminhos utilizados pelos indígenas e que foram aproveitados na travessia dessa região, como é possível observar na planta da Fazenda da Boa Esperança (Serra de Cima) onde o agrimensor, em 1880, indica o traçado de uma “Picada de Bugre” tangendo a área da fazenda na margem direita do Córrego da Boa Esperança. A presença de populações indígenas em nossa região é milenar e eles, melhor do que os colonizadores, conheciam todo esse território. Aqui desenvolveram suas culturas que foram interrompidas com a chegada do europeu e sua diferente visão de mundo.

O major, homem estudado e que frequentava a Corte, a capital do Império, pois sabemos que eram corriqueiras suas viagens ao Rio de Janeiro, percebeu a viabilidade de lucro tanto com as terras férteis e a madeira de lei, quanto com a visibilidade que São Mateus teria com o crescimento de seu porto, escoando a produção agrícola da rica região mineira do Serro.

Com esse interesse o major Antônio Cunha ultrapassou o limite da “civilização” que seria, na época, estabelecido no Cachoeiro do Cravo (no atual distrito de Nestor Gomes em São Mateus), e começou a instalar uma fazenda às margens dessa picada, próximo à pedra que teria dado visibilidade a seus sonhos. Ali, no mesmo ano de 1870, fundou a “Fazenda da Serra dos Aimorés” (atual Serra de Baixo), berço da colonização de Nova Venécia onde se iniciaria miscigenação de indígenas, afro-brasileiros, luso-brasileiros (nordestinos, mineiros e capixabas) e europeus (principalmente itálicos e germânicos), característica singular de nosso município e que define o povo brasileiro.

Quanto a Picada do Paim, o governo da província logo enviou um engenheiro chamado Martineau para estudá-la. Depois, em 1873, veio o próprio Inspetor de Obras e Empreendimentos Gerais fazer levantamentos e estudos e constatou que o trecho que se mantinha trafegável era o que ligava a Fazenda do Cachoeiro do Cravo a nova e promissora fazenda do major Cunha na Serra dos Aimorés (na região da atual Fazenda Santa Rita que então integrava a pioneira fazenda com a região da Serra de Baixo). E não foi além. O queijo do Serro e a farinha de São Mateus nunca puderam se encontrar e a comunicação com Minas só seria consolidada a partir das décadas de 1930 e 1940 quando o Espírito Santo manteve com Minas Gerais uma demanda por limites que ficou conhecida como “Contestado”. Mas isso é outra história.

*Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.
** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Referências:
Fontes Documentais:

· Jornal O Espírito-Santense, 06/12/1871, Vitória (ES), Ano II, Nº 88 – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).
· Relatório lido no Paço d’Assembléa Legislativa da Província do Espírito-Santo pelo presidente O Exmo Snr Doutor Francisco Ferreira Corrêa na Sessão Ordinária do anno de 1871. Vitória: Typographia do Correio da Victoria, 1872. – Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.
· Relatório apresentado a S. Exª o Sr. Coronel Manoel Ribeiro Coitinho Mascarenhas pelo Exmº Sr. Dr. Luiz Eugenio Horta Barbosa por occasião de deixar a administração da Província do Espírito-Santo. Vitória: Typographia do Espírito-Santense, 1874. – Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.
Fonte Bibliográfica:
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.

Fonte: Jhon Martins / redenoticiaes

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