A FAZENDA SANTA RITA: DE DOTE A MONUMENTO

Vista panorâmica da terceira e atual sede da Fazenda Santa Rita. O velho casarão construído seguindo o estilo e técnicas antigas de construção, foi erguido em meados da década de 1950 e alberga em seu interior móveis e objetos das famílias Cunha e Santos Neves, além das memórias e tradições da época de nossa colonização, sob a atenção e cuidado de sua herdeira e guardiã, a matriarca Dona Ecila Emiliana Capucho. Foto: Rogério Frigerio Piva, 2011.

Por Izabel Maria da Penha Piva* e Rogério Frigerio Piva**

Casou-se no dia 4 do corrente o nosso distincto amigo Dr. Antonio Neves, com a Ex.ma D. Theodozia Cunha, dilecta filha do nosso amigo major Antonio Rodrigues da Cunha. Aos jovens nubentes, mil venturas.” (Jornal O NORTE DO ESPÍRITO SANTO, Órgão dedicado aos interesses da Comarca de São Matheus, Anno I, N. 9, São Matheus, 11 de Outubro de 1891, Notícias, página 2)

A antiga sede da Fazenda Santa Rita é um monumento arquitetônico de valor histórico e cultural para Nova Venécia. A palavra monumento tem sua etimologia do latim “monumentum”, originário de monere, que traz em si o significado de lembrança. Como ponto de memória que toca pela emoção e faz com que a sociedade recorde as gerações anteriores e os sacrifícios feitos para que chegássemos até aqui.

Como que permanência dos tempos antigos no presente, a Fazenda Santa Rita cumpre esse papel de nos encantar. Ali, entre as paredes de alvenaria e ouvindo a voz mansa e serena de Dona Ecila, sua proprietária, viajamos há algum lugar do passado. E, sem muito esforço, podemos imaginar Theodozinha Rodrigues Cunha, senhorinha e filha do Barão de Aymorés, com seus 21 anos, a andar pelo casarão de seu pai, ansiosa por seu casamento com o primo, o engenheiro Dr. Antônio dos Santos Neves. Como dote de casamento, seu pai subtraiu parte da sua nova Fazenda da Serra dos Aymorés, cuja fundação remonta ao ano de 1870, no qual ela nascera. A sinhazinha então batizou esta nova fazenda com o nome de Santa Rita em homenagem à avó paterna do jovem casal, Dona Rita da Conceição Cunha, que havia falecido quando Theodozinha tinha apenas 09 anos de idade. Era o ano de 1891 e, num domingo, aos 04 dias do mês de outubro, o jovem casal sacramentou sua união no registro civil da distante cidade de São Mateus.

Esta fazenda desde seu desmembramento em 1891, já havia possuído três sedes, incluindo o casarão atual construído no estilo e com técnicas antigas, na década de 1950. A primeira sede ficava em outro local, no lado leste e oposto ao da atual sede, próximo a uma velha gameleira que ainda marca o local, e foi onde a Theodózinha e o Antunico viveram ainda recém-casados no final do século XIX. Já no início do século XX construíram uma nova sede que era térrea e se localizava há alguns metros a norte do atual sobrado. Foi nesta segunda sede que nasceu o Sr. Tito dos Santos Neves, segundo prefeito eleito em Nova Venécia. Até hoje as três sedes que a fazenda possuiu abrigaram descendentes de um ramo da tradicional família Santos Neves do município de São Mateus, os do casal Dr. Antônio dos Santos Neves e de sua esposa Theodozia Cunha Neves. O Dr. Antônio era irmão do Dr. Graciano dos Santos Neves, médico e que em 1896 sucedeu a Muniz Freire na presidência do Estado do Espírito Santo – cargo hoje equivalente ao de Governador do Estado – na recém-instalada República. Além disso, Antônio Santos Neves era formado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro e, desde o ano anterior ocupava o cargo de Diretor do Núcleo Colonial de Santa Leocádia, sendo o responsável por criar batizar no ano seguinte ao seu casamento o novo Núcleo Colonial de Nova Venécia, e por que não dizer, o atual município com este nome.

Na Fazenda Santa Rita, Theodózia (que tinha o mesmo nome da mãe – a segunda esposa do barão) teve 14 filhos. Um deles, a Dona Alice dos Santos Neves, por não ter se casado, viveu toda sua vida na propriedade. Era uma moça instruída, que citava e escrevia em seu caderno de versos, com caligrafia perfeita, poesias de Castro Alves. Aprendeu a ler e escrever com o próprio pai que a apelidou carinhosamente de “Fitinha”, devido ao laço de fita que usava no cabelo. Este caderno ainda se encontra na fazenda, bem como outras relíquias como peças de crochê, livros, utensílios domésticos, loucas da época, algumas extremamente delicadas, vindas da Europa e outros recantos do mundo. Todas conservadas em um armário azul e sob a guarda de Dona Ecila, afilhada de Alice e que recebeu seu nome ao contrário, como prova de afeição da madrinha, uma verdadeira mãe que a acolheu quando ficou órfã com um mês de vida.

Dona Ecila e parte de sua família atualmente moram na velha fazenda. É hoje a guardiã da propriedade e de suas histórias. Com muito gosto, preserva o casarão que levou cinco anos para ser erguido por Dona Alice e suas irmãs na década de 1950, tendo como um de seus principais construtores o neto de italianos Sr. Henrique De Angelo. Recentemente reformado, conservando as cores azul e branca na parte externa, ainda preserva diversos utensílios da família Cunha Santos Neves, o jardim com seu oratório em estilo moderno, dedicado a Santa Rita, além de frondosa Mata Atlântica com toda a diversidade de fauna e flora de remanescentes da Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante da qual faz parte, e principalmente as histórias e lendas das origens de Nova Venécia, quando esta ainda nem existia.

São histórias como a do “Senhor do Sol” que Dona Ecila conta, salientando a necessidade da família do barão em dominar os índios, que resistiam a ocupação dos territórios dos quais antes eram senhores. O barão, sabendo do dia do próximo eclipse solar, teria falado com os indígenas que, caso não o respeitassem, apagaria o sol. No dia do eclipse, os índios, ao presenciar o evento, e acreditando nos poderes do novo senhor destas terras, aceitaram em obedecê-lo. Esta história deixa claro quem agora comandava a região.

Também é visível a presença dos africanos outrora escravizados, seja por meio de antigas histórias, mas também de vestígios materiais, entre eles, uma panelinha de ferro, reconhecida por toda a família como pertencente a uma ex-escrava que teria vivido na fazenda.

Como estas, muitas outras histórias, vestígios e sentimentos que, subindo as escadas de madeira, perpassam o piso de tábua corrida e sobem as paredes de alvenaria, se entrelaçando por entre salas, quartos e varandas. E nos remetem ao tempo do barão e da abertura das primeiras fazendas de café na região do sertão de São Mateus, hoje Nova Venécia.

A propriedade guarda ainda, por estar na região da APA da Pedra do Elefante, uma ampla diversidade da fauna e da flora local. São árvores gigantescas que reinam nas matas da fazenda e abrigam muitos animais de pequeno e médio porte, ali resguardados do progresso urbano.

A fazenda nas décadas de 1940 e 1950 foi palco de intenso garimpo de pedras semipreciosas como a ametista e a água marinha. Garimpo este que permaneceu até a criação da APA quando então não foi mais permitido, naqueles anos era fácil encontrar vários buracos, chamados pelos garimpeiros de “catas”. Hoje o tesouro que ali se encontra, guardado por Dona Ecila, seu esposo o senhor José Capucho e seus descendentes, é o passado, com suas histórias, e a saga de todos que ali viviam, sejam indígenas, afro-brasileiros, italianos que ali chegaram pela primeira vez nesta região, o a aristocracia da época. São memórias de sua madrinha, Dona Alice, mas também de toda a família e que nos mostram que a História nos diz muito, principalmente sobre quem somos enquanto sociedade.

Desde 2005 a fazenda está aberta à visitação agendada, seja de escolas, estudantes do meio ambiente, ou visitantes de diferentes regiões do Brasil e até do exterior, que passaram pela propriedade em busca dessas histórias. Entre eles o Príncipe de Camarões Dom Bernard Ndouga, que em 2011 esteve ali e foi recebido por Dona Ecila.

É incrível pensar que a casa da família dos descendentes do Barão de Aymorés e, principalmente sua história, está guardada e preservada pelos cuidados dessa senhorinha. Seu carinho por sua madrinha demonstra a gratidão e a nobreza de seus sentimentos, que se revelam nos cuidados com a fazenda e seu casarão, preservados com tanto zelo, e se desdobram nas histórias da família e dos tempos antigos contados por Dona Ecila à sombra das mangueiras do amplo jardim que circunda o casarão localizado no alto de um dos morros da fazenda.

Se acaso em um fim de tarde, ao caminhar pelos campos da fazenda, ouvindo o som produzido por galos e bois, sentindo a brisa fresca que adentra o jardim no entorno da casa, você tiver a impressão de que por algum encantamento, voltou ao passado, não se preocupe. É muito comum esta sensação quando vamos à Fazenda Santa Rita.

* Izabel Maria da Penha Piva é mestra em História pela UFES e professora de História na rede estadual em Nova Venécia.

** Rogério Frigerio Piva é graduado em História pela UFES, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (IHGES) e professor de História na rede municipal em Nova Venécia.

Fontes Documentais:
· O Norte do Espírito Santo (Órgão dedicado aos interesses da comarca de São Matheus)
. São Matheus. Ano I, Nº 9, 11/10/1891, p. 2. – Hemeroteca Digital Brasileira – Biblioteca Nacional (RJ).
· Relatos orais obtidos com Dona Ecila e Seu José Capucho pelos autores deste texto.

Fontes Bibliográficas:
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução Luciano Vieira Machado. 4ª ed. São Paulo: UNESP, 2006.
PIVA, Izabel M. da P. e PIVA, Rogério F. À Sombra do Elefante: a Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante com guardiã da História e Cultura de Nova Venécia (ES). Nova Venécia: Edição dos Autores, 2014.
PIVA, Rogério Frigerio. Da Colonização à Emancipação: uma breve história de Nova Venécia (1870-1953). In: Patrimônio Fotográfico: catálogo de fotografias do município de Nova Venécia. Nova Venécia: AARQES, 2019. p. 12-31. Disponível para Download em: https://drive.google.com/file/d/1qLWTePp-vscIwdOmrRdXdcx8J8q7O93v/view