1 em cada 3 paulistanos conhece vítima de violência doméstica, diz pesquisa

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Foto: Reprodução/Internet
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VICTORIA DAMASCENO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Um em cada três moradores de São Paulo com 16 anos ou mais presenciou ou soube de casos de violência doméstica contra mulheres entre 2020 e 2021 na capital paulista.

O dado é da pesquisa “Viver em São Paulo: mulheres”, realizada pela Rede Nossa São Paulo em parceria com o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria). O estudo, feito na capital, ouviu 800 moradores de 16 anos ou mais, por meio de entrevistas online e domiciliares.

Segundo a pesquisa, 34% dos paulistanos afirmaram ter tido contato com casos em que amigas ou conhecidas foram as vítimas. Quando o questionamento foi se souberam ou presenciaram ocorrências com parentes próximos ou que convivem, o número caiu para 18%. A pergunta foi feita em agosto de 2021 e questionava sobre os últimos 12 meses.

Entre os entrevistados, 45% eram homens e 55% mulheres. Moradores de todas as regiões da cidade foram contemplados, assim como das classes AB, C e DE. A margem de erro é de três pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. À exceção das perguntas sobre violência, a pesquisa foi feita entre 4 e 28 de dezembro de 2021.

Os dados sobre violência doméstica e familiar contra mulheres avaliam a percepção e a ciência de moradores da cidade sobre as ocorrências. Aqueles que acreditam que a violência doméstica aumentou são 85%, enquanto os que dizem que diminuiu representam 1%.

Quando o assunto é a ciência dos paulistanos sobre as ocorrências, os locais próximos às suas casas são os que mais se destacam: 35% disseram que presenciaram ou souberam de casos próximos de onde moram. O percentual atinge 20% em relação aos arredores do trabalho e a 12% em referência ao próprio domicílio.

O perfil dos entrevistados mostra que aqueles que percebem o aumento da violência doméstica próxima dos locais onde moram são principalmente pessoas de 25 a 34 anos, evangélicos, com o ensino médio completo, e os que residem na região sul da cidade.

Em todos os cenários, a população negra possui números mais representativos que os moradores brancos. Seja próximo do local onde mora, próximo de onde trabalha, se foi com alguma amiga ou conhecida, com parente próximo ou que convive, e no próprio domicílio, o número de entrevistados negros que disseram que tiveram contato direto ou indireto com casos de violência é superior em relação aqueles que se declaram brancos.

Igor Pantoja, assessor de mobilização da Rede Nossa São Paulo, aponta que uma das respostas para a violência contra a mulher no município é o fortalecimento do vínculo das vítimas com as políticas de enfrentamento, seja na criação de novas propostas direcionadas às mulheres e seus filhos ou no aperfeiçoamento de espaços de acolhimento, o que considera que ainda é deixado em segundo plano.

“Esse tema da violência de gênero ainda aparece muito distante do centro mesmo da política [pública]”, diz Pantoja.

“A gente acredita muito que falta um olhar mais voltado para essas desigualdades estruturantes no âmbito das políticas municipais. As políticas de saúde, educação, ou mesmo de assistência social devem levar mais em consideração as demandas das mulheres.”

Pelo quarto ano consecutivo, o transporte público é o lugar onde as mulheres se sentem mais vulneráveis a serem vítimas de assédio. Mais da metade das entrevistadas (52%) acredita que ônibus, trens e metrôs, por exemplo, são os locais onde correm maior risco de sofrerem algum tipo de assédio.

A rua ficou em segundo lugar, com 17%, e os bares e casas noturnas aparecem em terceiro, com 9%.

Reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrou que no estado de São Paulo o número de atendimentos de casos de violência contra a mulher pelo Cravi (Centro de Referência e Apoio à Vítima) quase triplicou. Em 2019, foram 2.476 ocorrências e, no ano passado, 7.185. O aumento no número de casos coincide com o período de pandemia, que levou mais pessoas a ficar em casa para conter a disseminação do coronavírus.

Como solução para a violência doméstica, 53% dos paulistanos, sobretudo as mulheres, indicam a ampliação de penas contra os agressores como a melhor forma de enfrentamento. É o terceiro ano consecutivo que esta é apontada como a melhor saída para o problema.

Ampliar os serviços de proteção às mulheres em situação de violência em toda a cidade fica em segundo lugar, com 36%, seguido de agilizar o andamento das investigações das denúncias, apontado como a melhor solução por 34%. Criar novas leis de proteção à mulher ficou em quarto lugar, com 32%.

A resposta punitiva, porém, não é a melhor solução uma vez que alimenta o ciclo de violência, afirma Isabela Del Monte, advogada e sócia da Gema Consultoria em Equidade. Ela explica que o endurecimento das penas não significa maior segurança, uma vez que o país possui uma das maiores populações carcerárias do mundo.

“[Precisamos] garantir às mulheres igualdade efetiva de direitos, igualdade de renda, igualdade de participação política. Garantir que as escolas tenham educação e respeito pela igualdade entre todas as pessoas”, diz ela.

Embora exista uma percepção de que aumentou a violência doméstica no município, Del Monte também acredita que não houve melhora na disseminação de informação sobre como as mulheres devem proceder após serem vítimas.

“Quando estamos falando de políticas públicas de educação e informação sobre os direitos, seja na escala municipal, estadual e federal, ainda temos baixo grau de difusão dessas informações. Muitas mulheres não sabem como proceder além da ideia de ir para delegacia”, conta.

A advogada lembra que São Paulo possui serviços direcionados que não se esgotam no atendimento policial, mas contemplam outras áreas como acolhimento para as mulheres e seus filhos, acompanhamento com assistente social, atendimento psicossocial e abrigo, como a Casa da Mulher Brasileira, projeto do governo federal que oferece serviços multidisciplinares para as vítimas.

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