​Repúdio a ‘inspeção’ em hospital cresce, enquanto Assumção ameaça secretário

Assumção e Enivaldo dos Anjos trocaram farpas na Assembleia: “frouxo” e “comigo o buraco é mais embaixo” 

ROBERTO JUNQUILHO / SD

“Vagabundo, cubano, irresponsável” foram alguns dos termos proferidos pelo deputado Capitão Assumção (Patri) endereçados ao secretário de Saúde, Nésio Fernandes, na tumultuada sessão da Assembleia Legislativa desta segunda-feira (15). O parlamentar respondia à nota de repúdio divulgada pelo governo para condenar a inspeção” realizada na última sexta-feira (12) por um grupo de seis deputados ao Hospital Dório Silva, no município da Serra.

Horas antes, a Arquidiocese de Vitória e o Fórum Evangelho e Justiça divulgaram mensagens de repúdio à atitude do grupo de deputados, adotada um dia depois de o presidente Jair Bolsonaro sugerir a seus seguidores que entrassem em hospitais para registar se há leitos vazios e outros problemas relacionadas ao avanço do coronavírus, dentro da guerra ideológica por ele deflagrada, que contraria as recomendações médico-sanitárias.

A declaração do presidente da República provocou invasões de unidades hospitalares em algumas cidades do País, sendo necessária a intervenção policial em alguns casos, e levou o Ministério Público Federal (MPF) a ordenar a abertura de investigação em estados para apurar as responsabilidades.

Participaram da ação os deputados Lorenzo Pazolini (Republicanos), Vandinho Leite (PSDB), Torino Marques (PSL), Capitão Assumção (Patriota), Danilo Bahiense (PSL) e Carlos Von (Avante), sob a justificativa de que foram ao hospital para conferir o atendimento a pacientes contaminados pela Covid-19.

Visivelmente descontrolado, Assumção disse que o secretário Nésio Fernandes é “agente infiltrado”, “irresponsável que está matando os capixabas” e que “já passou da hora de voltar pra sua terra”, entre outras ofensas. Afirmou que tem a obrigação de fiscalizar, prosseguindo em ameaças que tumultuaram a sessão, com vários parlamentares tentando interromper o discurso para acalmar os ânimos e, também, em defesa do secretário.

O mais contundente foi o deputado Enivaldo dos Anjos (PSD), que considerou injustas as acusações a Nésio Fernandes e aconselhou-o a se proteger: “Se eu fosse o secretário, pedia segurança de vida”, sendo interrompido por Assumção, que o chamou de “frouxo”, obtendo como resposta que “comigo o buraco é mais embaixo”. A discussão prosseguiu, inclusive com outros deputados abrindo o áudio, na tentativa de acalmar o tumulto.

A deputada Iirny Lopes (PT) defendeu o secretário e pediu mais respeito, acusando Assumção por quebra de decoro. “Vossa Excelência está raivoso, espumando, um deputado evangélico, respeite as pessoas”, disse. Para Iriny, os países têm que ser respeitados, uma referência a Cuba, atacada por Assumção, destacando a solidariedade prestada a várias nações do mundo pelos médicos cubanos.

Dos que participaram da ação no hospital Dório Silva, além de Assumção, apresentaram justificativas na sessão os deputados Vandinho Leite, Torino Marques e Danilo Bahiense, todos negando a invasão e lembrando as prorrogativas constitucionais que lhes dão o direito de fiscalizar.

Repúdio

Assinada pelo vigário episcopal Kelder José Brandão Figueira, da Ação Social, Política e Ecumênica da Arquidiocese de Vitória, a nota afirma que a ação os deputados é de “caráter puramente populista, que não traz qualquer benefício ao enfrentamento à pandemia do novo coronavírus”.

“O ato é um desrespeito aos protocolos de segurança que os especialistas recomendam no momento, mantendo mesmo os familiares afastados de seus entes queridos”, diz a nota, e acrescenta: Os números de leitos ocupados para pacientes com Covid-19 no Estado são públicos e de fácil acesso, não é necessário adentrar um hospital e pôr em risco vidas para sabê-los. Pedimos que atitudes semelhantes não se repitam, por quem quer que seja”.

O documento diz ainda: “O enfrentamento a uma pandemia, a pior dos últimos cem anos, exige temperança, solidariedade, empatia e responsabilidade. É preciso, neste momento, que as forças políticas, embora antagônicas, se somem acima de rixas partidárias ou interesses eleitoreiros para um esforço conjunto na direção única de salvar vidas”.

Já o Fórum Evangelho e Justiça, em vídeo gravado por seu coordenador Kenner Terra, afirma: “Em solidariedade aos pacientes e familiares da saúde, repudiamos a atitude insensível de deputados, supostamente para averiguar o trabalho que ali é realizado. Esse uso político e perverso da pandemia é inaceitável. Nós, do Fórum Evangelho e Justiça, não nos sentimentos representado por nenhum tipo de apoio a esta atitude”. Em outro trecho, Kenner Terra ressalta: “Lamentamos esse desrespeito aos profissionais que militam corajosamente contra essa pandemia”.

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