Confissões de quem amadureceu com Nova Venécia

» Ainda consertando panelas, seu Eleosippo Biral é da época em que a Maria Fumaça passava aqui

Para homenagear a cidade, eles foram mais do que generosos, não pouparam elogios, nem carinho pelas terras venecianas, contando aqui seus antigos planos, carreiras, e mostrando como é envelhecer junto com quem lhes deu morada

Nova Venécia completa 66 anos de emancipação política neste domingo (26). Até 1954, o local pertencia a São Mateus. O lugar que já foi conhecido como Barracão, antes de virar cidade, traz consigo moradores que viram o município crescer, gente que amadureceu com a cidade foi convidada para contar como é envelhecer junto com Nova Venécia. Primeiro a dar seu depoimento é o comerciante Eleosippo Biral, 86 anos.

Não foi difícil arrancar histórias sobre a cidade. A Avenida Vitória, ele viu crescer. “Cheguei aqui e tinha pouca coisa, hoje essa cidade é igual a uma capital para mim, linda e bonitona”. Seu Elesioppo chegou por aqui por volta dos oito anos de idade, junto com o pai, que já era viúvo e os irmãos. Do interior, a família veio do Pip-Nuck, no início da década de 1940. “Foi aqui que pude estudar um pouco, que tive minha profissão, casei e de onde sempre tirei meu sustento. Nova Venécia me deu tudo que tenho, gosto de viver aqui”, fala.

Ainda ativo na profissão, seu Eleosippo é conhecido pelo raro ofício. É de suas mãos que panelas quebradas viram peças perfeitas novamente na cozinha dos venecianos e de gente de vários estados, que aproveitam a visita à familiares, para trazer o que tem quebrado em casa, para o senhor do Pip-Nuck, renovar. “Ninguém conserta panela como eu, aprendi sozinho. Os instrumentos de conserto também foram fabricados por mim, tudo obra minha”, explica.

Comerciante há mais de 55 anos, seu Biral teve que se reinventar várias vezes. Já trabalhou na extinta alfaiataria do Claudionor Rocha, já teve uma mercearia chamada Casa Princesa e hoje, é na Casa do Alumínio onde passa a maior parte do dia, ainda trabalhando. “Eu vi a Maria Fumaça funcionando aqui, o carregamento de madeira era ali perto da escadaria (Jamille Daher). Os bailes de Carnaval, vi muito pelo centro, na Praça Jones Santos Neves. Nossa cidade mudou muito, tenho orgulho de ter feito família nesse lugar. Minha esposa (dona Zélia) e eu criamos nossos quatro filhos através do comércio, um trabalho honesto. Tenho respeito e amor por nossa cidade”, relata.


Farmácia de referência

Ignez Lorenzon Piassaroli, 91, nasceu em Matilde, Alfredo Chaves. Mas, foi já casada com Angelo Piassaroli, mais conhecido como seu Angelim (in memória), que ela veio de Cachoeiro de Itapemirim. “Chegamos em um caminhão, em 12 pessoas, já tínhamos cinco filhos. Foram 33 horas de viagem, quando descemos do carro era de noite”, diz.

Sete de maio de 1959, foi a data de chegada da família, que começou a fincar raízes em terras venecianas, quando o local já havia completado cinco anos de emancipação. “Não tinha muita coisa quando chegamos, foi um impacto para mim. Eu lavava a roupa no Rio Cricaré, era ali que eu pegava baldes de água às 4h da manhã, que serviam para lavar as louças e limpar a casa. Comprei um filtro e a água para beber, era buscada em latas, na cacimba da dona Bibiu, onde é hoje o bairro Margareth. A ponte era de madeira ainda, tudo era muito difícil”, fala.

A família Piassaroli resolveu mudar para Nova Venécia, porque um médico que também veio trabalhar na cidade, recomendou ao seu Angelim, que abrisse uma farmácia no local, e foi o que ele fez. “Ele já mexia nesse ramo lá onde morávamos, era um posto farmacêutico. Foi de Nova Venécia que tiramos nosso sustento, a nossa farmácia era referência, aqui tinham poucos médicos e meu marido cuidou da saúde de muita gente”, relata.

Farmácia Santa Inês é o nome do estabelecimento que pertenceu à família Piassaroli até a década de 1990, e mesmo com novos proprietários, a placa do imóvel continua com o mesmo nome ainda hoje, mesmo depois de tantos anos. “Quando chegamos aqui, era só mato, depois da ponte era um matagal, só tinha casas na Avenida Vitória, do outro lado, não. A energia funcionava até as 21h, não tinha calçamento e a boiada passava no centro, esgoto era a céu aberto na rua. Os automóveis eram poucos, andávamos a pé, essa cidade cresceu muito”, explica.

As lembranças da dona Ignez são de uma senhora lúcida, que lembra de que, foi no centro da cidade veneciana que passou toda sua vida, e ali, criou seus sete filhos, estabeleceu comércio e fez a vida. “Tenho o prazer de ainda morar em Nova Venécia, não me arrependo de ter mudado para esse local. Meus filhos foram criados nessa terra, hoje estão adultos e formados”, diz.

» Dona Ignez Lorenzon Piassaroli lembra da época em que lavava a roupa no Rio Cricaré

Primeira vereadora

Ignez Bonomo Boldrini,79, foi a primeira vereadora da Câmara Municipal de Nova Venécia, inclusive a única presidente do legislativo veneciano do sexo feminino até a atualidade. Com 49 anos, dona Ignez assumiu cadeira na Câmara durante a 9ª Legislatura, em 1989.

Eleita com quase 500 votos, a primeira mulher vereadora do município foi presidente da Casa de Leis, alcançado votos por unanimidade dos vereadores, que eram 17 na época.

Nascida na Fazenda Concórdia, no interior do município, a filha de seu Braulino Bonomo e Maria Riguette Bonomo, mudou-se para a cidade aos 18 anos, quando o irmão abriu um bar, onde hoje é a Padaria Gasparini, na rua Colatina. “Ali não tinha muita coisa, a rua era de terra, poucos comércios, assim como em todo centro”, fala.

Casada com Wandir Boldrini, sete filhos, dona Ignez afirma que uma das grandes conquistas que fez para Nova Venécia enquanto exerceu o cargo político, foi a Lei Orgânica. “Escrevemos a Lei que ainda é regida até hoje em nosso município, claro que com algumas alterações. Tenho orgulho disso, tenho satisfação também de ter sido a primeira vereadora mulher de nossa cidade, fazendo história até hoje e para sempre”, finaliza.

» Ignez Bonomo Boldrini,79, foi a primeira vereadora e presidente da Câmara Municipal de Nova Venécia

Cintia Zache
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