Capitão Djama Borges: A história do todo poderoso do Contestado (Parte I)

SENHOR TODO PODEROSO DO CONTESTADO

A situação social e policial da região próxima à Barra de São Francisco era preocupante nos anos de 1939. Só que praticamente ninguém, ninguém mesmo queria tomar as rédeas daquele balaio de gato.

Naquele ano o governo do Estado resolveu transformar o então capitão Djalma Borges, no homem que iria tomar conta de suas fronteiras na zona contestada, com poderes de gerir todos os negócios  quando a região era coberta de uma só floresta.

Os habitantes que haviam nela, eram os gateiros, matadores de onça, de anta e outros animais; peles davam bom preço no mercado. Não havia agricultura nessa faixa do Espírito Santo, que era formada por Barra de São Francisco, Mantena, Mantenópolis, Ecoporanga, Mucurici, Montanha, Nova Venécia e São Gabriel da Palha.

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O próprio Capitão contou sua odisseia:

– Com os meus soldados iniciei uma caminhada por dentro da floresta. O último povoado acima de Colatina chamava-se São Domingos, dali em diante era mata pura. Encontrei 14 barracos, cobertos de tabuinha, em Barra de São Francisco. O outro povoado era Gabriel Emílio, 10 barracos, lugar que hoje é Mantena, Minas Gerais. Instalei meu QG (Quartel General) em Barra de São Francisco. Minha preocupação era ocupar todos os espaços, a fim de consolidar as fronteiras com o Estado de Minas Gerais. Provar que aquelas terras devolutas pertenciam ao meu Estado. Fundei logo Mantena, nos terrenos de Gregório Afonso. Mais tarde, vi que estava mal localizada, no alto de um morro, transferi para a baixada, onde hoje é Mantenópolis, nome encontrado por Floriano Rubim. Com isso, Minas aproveitou o nome de Mantena no antigo povoado de Benedito Quintino.

– Continuei. Fundei Vargem Grande, que hoje tem o nome de Ametista, que mais tarde no acordo do Dr. Chiquinho acabou ficando com Minas Gerais. Depois fundei 15 de Novembro, hoje conhecido por Ecoporanga. Nesse dia prendi a população que tinha lá. Eram apenas 6 criminosos, entre eles o temível João Criminoso. Desci e fundei Santa Angélica, perto de Nova Venécia. Tudo isso eu encontrava oposição ferrenha na Polícia Militar de Minas Gerais, sempre no meu calcanhar. Durante 3 anos perambulei pela mata firmando a linha da divisa com Minas e fundando povoados capixabas. Quando um contingente da polícia mineira intalava-se dentro do nosso território, eu colocava outro nas suas costas.

Segundo o coronel Djalma Borges, grande parte da polícia mineira era composta de bandidos, foragidos da Justiça, ingressando em Governador Valadares, local estratégico da ação de Minas Gerais na zona contestada. Inclusive, de uma só vez, prendeu 5 polícias que tinham antes pertencidos à PM do Espírito Santo, e haviam sido expulsos por crimes. A maior dificuldade para Djalma Borges era conter uma penetração mineira para apossar de Nova Venécia, dizendo que estava na Serra dos Aymores e pertencia portanto a Minas Gerais. Desejavam alcançar os terrenos da fazenda de Loló Cunha, local que identificavam a serra. Para fixar melhor a presença capixaba nesse território, o militar resolveu fazer uma estrada entre São Domingos e Mantena, pois acreditava na estrada como fator de penetração de colonos. Já contava com muitos proprietários ao longo dessa faixa da estrada, a maioria apareceu após a sua ida para o contestado. Mas o trecho era muito grande. Conta:

– Eu tinha acabado a minha missão no recuo de 18 destacamentos mineiros que estavam dentro do nosso território. Usando sempre a estratégia de colocar um nosso nas costas do dele. Nesse tempo eu viajava metade do mês, sempre à cavalo, pois não haviam estradas, dirigindo a ação de 25 soldados, escolhidos por mim a dedo, gente de primeiríssima qualidade. Procurei todos os proprietários que moravam nessa região. Mostrei que eles estavam ali à vontade, não pagando qualquer imposto e que eu queria fazer uma estrada em proveito deles mesmo. Fiz a proposta de cada um fazer com a sua família um trecho. Eles dariam para mim o sábado, no domingo eu mandaria botar soldado nas vendas, eles comprariam suas coisas sossegados. Naquele tempo eles iam no sábado à venda, já que no Domingo era dia de muita confusão. Convenci todos.

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COM A ESTRADA O POVOAMENTO…  

– Em 27 sábados – diz Djalma – nós fizemos uma ótima estrada. De 95 quilômetros, ligando São Domingos a Mantena, praticamente criando condições regulares para terem ocupados os terrenos do norte do Estado. A estrada era tão importante que o interventor do Estado, capitão João Punaro Bley, foi inaugurá-la. Levou até um ministro de Getúlio Vargas. A “Vida Doméstica”, do Rio de Janeiro, revista principal do país, cobriu a inauguração. Nesse dia o Bley fez um discurso bonito, me botou lá no alto. Eu olhando para ele e dizendo com os botões da minha farda. O governo não deu um tostão.

Logo em seguida o coronel Djalma conseguiu levar para a região o serviço da malária para combater a febre amarela, que seria para ele o único risco contra os colonizadores. O bispo D. Luiz Scortega que foi convidado a ir a São Francisco. Então ele regularizou a situação de todo mundo. Em uma semana realizou centenas de batizados, de casamentos e quase 10 mil crismas. Djalma Borges fundou a igreja de Barra de São Francisco, arrecadando dinheiro nessa festa e em toda a região, entregando toda a importância ao padre pioneiro da região, Zacarias de Oliveira.

Logo depois, era o coronel avisado de uma epidemia de febre amarela, no córrego da Paola. Foi para lá anoitecendo, para chegar na hora do baile. Antes recolheu todos os mortos pelo surto, eram 14 e deixou num só lugar. Foi em direção ao baile e ficou nas imediações. À medida que iam saindo as pessoas, ele levava de dois em dois a um cadáver e mandava carregar, o defunto para o cemitério. Lá os soldados já tinham providenciados as covas. E o pessoal do baile fazia o enterro. Com esse expediente, Djalma Borges enterrou silenciosamente todas as vítimas da epidemia de febre amarela, já que tinha exigido silêncio de todos. Foi embora ainda de madrugada com os seus soldados.

FAZENDO UMA CIDADE…

O coronel gostou da idéia da estrada São Domingos-Mantena, apreciou o resultado, aplicando a mesma tática em Barra de São Francisco, onde resolveu fazer a avenida principal. Convidou 394 homens que moravam na cidade para fazer a avenida. Eles entenderam que estavam recebendo uma ordem. Num dia fizeram duas pontes e a rua toda. Como não tinha caminhão, nem carro-de-boi, a areia e a pedra eram carregadas em couro de anta. A cidade amanheceu outra, com uma bela rua.

A região então começou a ficar infestada de criminosos. Para lá iam pessoas muito boas, mas seguiam também um razoável contingente de pessoas muito ruins, segundo o relato de Djalma Borges. Com os seus soldados ia perseguindo o pessoal e mandando de volta para as comarcas de origem para continuar a responder os seus processos. Grande parte dele acumulava-se em um garimpo que existia entre Gabriel Emílio (Mantena) e Barra de São Francisco. Virou um foco de desordem. Eram mais de 300 pessoas disputando águas marinhas. Fechou a lavra e dispensou todo o seu pessoal. Deixou lá uma enorme pedra que todo mundo queria quebrar.

Fim da Primeira parte

Veja aqui a parte final da história

Jader Alves Pereira
Teólogo, Jornalista, Radialista e Historiador, nascido em Barra de São Francisco

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