Jader Pereira: QUEM TEM MEDO DE BIM BIM?

Já ouviu falar em Secundino Cypriano da Silva? Não? E no nome Bimbim?

O nome lhe diz alguma coisa?  Se você estiver com mais de 50 anos de idade, possivelmente. Com menos, talvez não, a não ser que sua família seja natural aqui do Espírito Santo ou do oeste mineiro.

Nesse caso, então deve ter ouvido, em alguma oportunidade, um parente mais velho falar dele, já que o coronel Bimbim foi, na região do Rio Doce, no seu tempo de domínio, senhor absoluto da vida e da morte do seus habitantes.

Se ainda hoje alguém se der ao trabalho de levantar o número de mortes desses quadros de violência em que ele esteve presente, certamente vai chegar próximo ao número previsto lá na frente, de oito mil mortes.

Isto porque a semente dele espalhou-se principalmente pelo Espírito Santo, onde agiam, na mesma linha, o tenente José Scárdua, o major Orlando Cavalcante e os fazendeiros Reginaldo Paiva, Antônio Pinto, Alfredo Fagundes e o Beatriz, só para ficar com os mais importantes.

“O Bimbim tinha o braço comprido demais”, disse, de certa feita, Carlos Lindenberg, na sua época de governador, para dar ideia exata da presença dele na violência do Espírito Santo.

Não há muita diferença do que ele representou na sua região para o que significou para o Nordeste a figura de Lampião. Pode não ser exatamente igual. Mas há muita semelhança, principalmente no código de justiçamento do matador. E, ainda como Lampião, ele foi venerado pela população pobre, mas, como o outro, também odiado pelas famílias de suas vítimas.

No caso específico do coronel Bimbim, apesar de a região ter reunido, no seu período, os maiores matadores de sua história, tendo tido entre eles figuras legendárias como o tenente José Scárdua, nenhum deles, no entanto, deixou de prestar-lhe reverência e obediência. Era saudado como o principal ¨Chefe¨ ou Cappo di Cappo, como falavam os antigos da Mafia. Ele dominou com poder de vida e de morte uma extensão territorial em que cabiam meio Espírito Santo e uma parte de Minas Gerais.

Seus poderes, sobre a vida dos que habitavam essa região, foram de tal ordem que um de seus sobrinhos-netos, Raul Cipriano, chegou à ousadia de afirmar agora que “não caía uma folha de uma árvore em seu território de mando que não obedecesse a um desejo seu”. Imagem que não está de todo dissociada do que ainda hoje dizem antigos moradores das cidades de Baixo Guandu (ES) e Aymorés (MG), com alcance ainda mais longe, chegando a influência até aos territórios de Mantena, Barra de São Francisco, Mantenópolis e Ecoporanga. Asseguram os mais velhos que  “ninguém partiu de lá para outro mundo, de morte matada, que não fosse por uma decisão dele”.

De 1920 a meados da década de 60, o coronel Bimbim foi realmente senhor absoluto do Vale do Rio Doce.

Os mais famosos matadores da região dependiam de seu beneplácito para executar suas vítimas. Nesse tempo, inclusive, em que Bimbim imperou por lá, a região viveu o período mais violento de sua história, ajudado, em parte, pela disputa de sua posse pelo Espírito Santo e por Minas Gerais.

Para seus biógrafos, essa região contestada está na raiz da sua violência, como bem assinalou Hélio dos Santos Pessoa em seu livro ¨Negociador de vida na saga do rio Doce¨:

” A zona do vale do rio Doce, desde o começo da colonização, é palco de embates renhidos. Assim que os primeiros colonos chegaram para a região, inóspita e selvagem, tiveram que colocar à prova a força e a disposição de lutar. As disputas foram travadas em todos os sentidos. Homens, feras e selvagens se engalfinhavam em uma guerra de titãs. A questão do litígio entre o Espírito Santo e Minas Gerais influiu, de maneira desfavorável, no desenvolvimento do território. Ambos os estados reivindicavam o direito sobre a área. Mas nenhum dos dois investiu no progresso efetivo dos pequenos núcleos de povoação que iam surgindo. Não havia autoridade constituída. Os colonizadores seguiam a ordem natural das coisas, e predominou a lei do mais forte.

E foi realmente essa lei que deu origem a figuras como Bimbim, que fazia justiça com as próprias mãos.

No seu caso, ainda aos 22 anos, ele começa atirando num desafeto no Alto do Capim (MG, distante 268 quilômetros de Vitória), onde tinha sua fazenda. Daí em diante não parou de matar. Foi matando até morrer, no ano de 1964. Contudo, acabou, de certa forma – se é que se pode registrar assim de forma tão insólita – premiado, simplesmente por Ter morrido de morte natural para frustração de uma legião de inimigos e regozijo de amigos e seguidores. Quem acabou abatendo-o mesmo foi o seu frágil coração, aos 69 anos de idade.

 

Cálculos mais exagerados dão conta de que Bimbim, nos seus 40 anos de domínio sobre o Vale do Rio Doce, foi responsável por cerca de oito mil mortes. Seus parentes não reagem contra esses números, mas observam que, desses oito mil, além dos que ele próprio executou e dos que mandou executar, devem constar também as mortes pela quais não moveu uma única palha para evitá-las.

 

Mas matar mesmo, puxando o gatilho do seu revólver ou acionando o disparador de sua carabina, foi só no início. Grande parte dessas mortes foi de responsabilidade de seus jagunços. Apesar de todo esse rosário de mortes, seus admiradores continuam venerando-o como a um perfeito justiceiro. Embora já passados 30 anos de sua época, uma legião deles, espalhados pelo Espírito Santo e Minas, de cabelos já totalmente embranquecidos, ainda permanece o tempo todo cultuando-o como a um verdadeiro ídolo.

 

Criatura, afilhado de Bimbim, falecido recentemente e muito conhecido em Barra de São Francisco contava, com frequência, um feito, a seu ver, de justiça do padrinho: havia numa região de Afonso Cláudio, que faz fronteira com Aymorés, um homem que andava estuprando as moças da região. Com medo de que o reconhecessem, pois tratava-se de um homem muito forte, suas vítimas comumente atribuíam os ataques à figura de uma certa Mula Doida. Mas veio o dia em que ele atacou uma pessoa de idade, que não fez como as demais moças e foi direto à casa de Bimbim contar quem era o estuprador.

 

O coronel mandou imediatamente seus jagunços buscarem o sujeito. Mas, quando ele chegou à sua casa, o coronel constatou que se tratava de um moço muito trabalhador e resolveu mudar a forma de puni-lo. Em vez de matá-lo, optou por decepar-lhe uma de suas orelhas, marcando-o para o resto da vida como a Mula Doida da localidade.

 

Episódios de justiçamento à moda Bimbim existem muitos. A verdade é que, embora residisse em Minas Gerais, ele foi responsável por inúmeros casos de ¨justiçamento¨ no Espírito Santo. Político do lado de Minas, tendo chegado inclusive ao cargo de prefeito de Aymorés, ele mantinha sua presença política no Espírito Santo, chegando a eleger um sobrinho deputado estadual, que atendia pelo nome de Totó (Sebastião Cypriano do Nascimento) .

Seus familiares de Barra de São Francisco, que vieram à cidade liderados pelo Dorico tem muitas histórias que ainda serão contadas. Vamos aguardar.

Jader Alves Pereira

Jornalista, Historiador – Filho de Barra de São Francisco