Uma breve elegia à morcela. Por Jader Pereira

Por Jader Pereira

morcelaPeregrinando aqui pelo sul da Bahia, sofro com a ausência de muitos petiscos que me alimentaram na infância na Vermelha (Monte Sinai) e na sede de Barra de São Francisco. A Taioba, o arroz Bico Roxo, a manga Ouro, o Torresmo crocante, a linguiça de porco secada na fumaça do fogão a lenha e a Morcela.

Uma passagem por Granada, cidade milenar na Espanha, me revela um produto local chamado Morcilla, que nada mais é que um parente de nossa Morcela.  Presente também em Portugal, ali pelos lados de Trás os Montes. E eu que acreditava que o produto era afeito a São Chico, Mantena e arredores. Mas não é. A nossa Morcela é conhecida aqui no Brasil numa vasta região que vai até Carangola. E depois, com variantes, até o Sul do Brasil.

No Sul, a morcela ou morcilha (em todo o Sul do Brasil) é um enchido (ou embutido) sem carne, recheado principalmente com sangue (nem sempre) miúdos suínos e e gordura de porco .

Segundo o filósofo grego Platão (Mithaïcos, 428 a.C.), a morcela foi inventada pelo grego Aftónitas. Existem muitas variedades em toda a Europa e na América Latina. O negócio é antigo.

Em Portugal é um prato típico, sendo possível encontrá-lo em diversas regiões. É temperada com diversas especiarias, contando-se entre elas os cominhos e o cravinho, que emprestam uma grande intensidade ao seu sabor. Pode ser servida assada, cozida ou fria. É frequentemente utilizada como complemento ao cozido à portuguesa, às favas com chouriço e à feijoada. [1]

Podem ainda distinguir-se alguns subtipos de morcelas, tais como a morcela achouriçada (com vísceras de porco e toucinho), a morcela de arroz (com arroz cozido), a morcela doce (temperada com pimentão) e a morcela de farinha (ligada com farinhas diversas).

A bichinha é bem rodada. E  apreciada também. Quando vou a São Chico, a primeira saudade que mato é de um bom pedaço de Morcela com arroz bem fresquinho. Pena que o pessoal que fabrica  o produto para comercialização, não acrescente muito alho e pimenta do reino, que enriquece muito o seu sabor. Isso só acontece  nas produções domésticas.

E não deixam a bichinha uns tempos na lata de banha, o que contribui de forma acentuada para melhorar o seu sabor.

E viva a Morcela .

Jader Alves Pereira
Jornalista e Historiador, nascido em Barra de São Francisco