Crônica da velha São Chico: Daniel, o Santos e o Pastor

Por Jader Alves Pereira

Um dos personagens mais interessantes de Barra de São Francisco, foi Daniel Alves de Souza. Ainda adolescente aprendeu a ler partituras e se tornou um dos mais célebres regentes de coral da igreja Batista na região. Dava gosto ouvir o coral que ele regia. Fui seu corista por vários anos. Ele era um dirigente musical exigente, e por isso os corais que se formavam sob sua batuta eram muito apreciados.

Daniel era sobrinho do então Prefeito Joaquim Alves de Souza. Trabalhava para a municipalidade. Isso lhe dava alguma renda complementar, o que contribuía para os inúmeros presentes para a namorada Marlene, filha do locutor das Casas Tigre Souza Barreto.

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Daniel fundou em meados de 1960 o Quarteto Davs, que notabilizou-se pela harmonia musical e fez sucesso em todo o Brasil. Tive a honra de cantar no Quarteto em seu início. Era a grande atração musical Sacra daqueles tempos na região.

O Pastor Batista Horst Treumann tinha com ele uma dor de cabeça. Daniel adorava acompanhar o Santos, O Terror do Norte, em suas apresentações fora da cidade. Onde o time ia, ele queria ir. Mas, e as responsabilidades com o coral? Era um problemão.

O Pastor Treumann retornou a Curitiba e a dor de cabeça passou para o Pastor Ocário Vieira. Aí pelos idos de 1968 o Santos estava na chave norte do Campeonato Estadual e para seguir em frente tinha que pelo menos empatar com a Ferroviária de João Neiva na casa do adversário. Vencer a Ferroviária lá no seu alçapão era praticamente impossível.

Lá se foi o Santos, um time que poderia mudar essa história. O timaço francisquense só tinha craques, como Dilsinho, Pulica, Pretinho, Tatinha, Pergentino, Claudio Moura, Manoel, Didico, Celso, entre outros. E o Daniel arranjou alguns solistas e trios para substituir o Coral naquele domingo.

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O jogo foi uma guerra. Transmitido pelas ondas tropicais da Rádio Espírito Santo. A cidade parou para ouvir o jogo nas ondas de 60 metros da emissora cheias de ruídos estranhos. De estática. Faltando poucos minutos para o final do jogo, que permanecia em 0 x 0, o juiz inventou um pênalti contra a equipe santista.

Não deu outra. Invasão de campo, briga generalizada, e troca de ripadas. (o estádio era cercado por ripas de madeira. Os litigantes locais e visitantes se enfrentaram com ripas de madeira. E Daniel levou suas ripadas também. O resultado do jogo foi mantido, depois de batido o pênalti. O Santos perdeu. Uma injustiça para o timaço de Barra de São Francisco. E Daniel voltou quietinho para a cidade, não depois de uma “entrevista” com seu pastor. E a vida continuou.

Daniel Alves de Souza, um de meus ídolos, foi para Vitória, tornou-se expert em produção de discos e gravação em estúdios. Hoje, oitentão, descansa em sua propriedade, em Monte Carmelo, Pancas.

Jader Alves Pereira
Jornalista MT0344DRT-Ba – Natural de Barra de São Francisco