A amarga agonia do Rio Doce: Capítulo 1 – O Rio Doce navegável

Pesquisa de Jader Alves Pereira, Jornalista ( MT 0344-DRT-Ba), natural de Barra de São Francisco.

Capítulo 1.  O Rio Doce navegável

SiteBarra+Barra+de+Sao+Francisco+colatina vapor milagre 19160Vi o Rio Doce pela primeira vez aos  seis anos de idade. Morava na Vermelha, hoje Monte Sinai e  ia com minha mãe a Belo Horizonte, quando no  velho ônibus F600 da Viação Águia Branca, (lá se vão 49 anos!!) passamos pela Ponte de Colatina. Lembro-me do rio caudaloso, imenso, uma imensidão  que dava medo.     Parte dele ainda era navegável.

Quando não existia ainda a estrada de ferro e estrada entre Colatina e Vitória, o acesso do leste de Minas, de Baixo Guandu e Colatina  à capital capixaba era de navio até Linhares pelo Rio Doce e depois tomava-se um navio maior para Vitória. O rio, caudaloso, com poucos bancos de areia, era de navegação segura. Foi navegável até meados de 1940. A partir daí, começa  ou acelera o desmatamento de suas margens e sua agonia.

Leia a trilogia de Jader Pereira:

A amarga agonia do Rio Doce: Capítulo 1 – O Rio Doce navegável

A amarga agonia do Rio Doce: Capitulo 2 – A tragédia

A amarga agonia do Rio Doce: Capitulo 3 – Surge o redentor do rio

SiteBarra+Barra+de+Sao+Francisco+vista aérea de Colatina0

A bacia hidrográfica do Rio Doce possui uma área de drenagem de cerca de 83.431 km2, sendo  cerca de 86% do seu território localizados na região centro-leste do estado de Minas Gerais e cerca de 14% na região centro-norte do Espírito Santo. Para se ter uma idéia, a área da bacia do rio Doce é quase duas vezes o tamanho da área do estado do Espírito Santo.

O Rio Doce nasce no município de Ressaquinha (MG), onde recebe o nome de rio Piranga, e deságua no oceano Atlântico, no povoado de Regência, no município de Linhares (ES). São 853 km da nascente até a foz, passando por 230 municípios (202 dos quais no estado de Minas Gerais).

SiteBarra+Barra+de+Sao+Francisco+rio-doce10Apesar do grande número de municípios da bacia, a maioria é de pequeno porte. Metade dos cerca de três milhões de habitantes vive em 11 municípios mineiros (Caratinga, Coronel  Fabriciano, Governador Valadares, Ipatinga, Itabira, João Monlevade, Manhuaçu, Ouro Preto, Timóteo, Ponte Nova e Viçosa) e dois municípios espírito-santenses (Colatina e Linhares), todos  juntos   somando uma população superior a 500.000 habitantes.

A ocupação da bacia só se iniciou em finais do século XVII, com a descoberta de ouro no ribeirão do Carmo. Arraial do Carmo e Vila Rica, hoje Mariana e Ouro Preto, foram a porta de entrada para a ocupação da bacia. Mas, com o intuito de evitar os “descaminhos do ouro”, a Coroa portuguesa proibiu a navegação no rio Doce. Além da proibição, a mata fechada, a malária e os índios Botocudos, conhecidos por sua hostilidade, fizeram da região uma das últimas a serem  ocupadas em Minas Gerais. Iniciava-se aí o longo histórico de ocupação na bacia, intensificada de maneira significativa já no século XX, após a construção da estrada de ferro que liga Vitória a Minas Gerais.

Hoje, a ampla variedade de ações econômicas desde a produção rural até o aumento da industrialização e conseqüente urbanização, associada ao mau planejamento de décadas passadas, ameaça a enorme biodiversidade encontrada na bacia.  Os remanescentes florestais (menos de 7% da cobertura original) sofrem com a descontinuidade,  que dificulta e até impossibilita as trocas genéticas entre as espécies existentes em cada  fragmento. Ainda assim, a bacia possui uma diversidade biológica altíssima. A maior parte dos cerca de 83 mil km2  do seu território pertence originalmente ao bioma Mata Atlântica, mas a bacia possui trechos de cerrado, campos rupestres e ecossistemas costeiros.

A região abriga, no mínimo, 148 espécies de mamíferos (50% da riqueza encontrada na Mata Atlântica) e um  quarto da avifauna brasileira. Mas, pelo menos 17 destas espécies encontram-se gravemente ameaçadas de extinção.  Destacam-se na bacia duas importantes FORMAÇÕES LACUSTRES, uma localizada na sua  porção média, com 114 lagos, outra próxima à foz. Ambos os complexos são de grande importância biológica, mas seriamente ameaçados pela proximidade das áreas urbanas, desmatamento  e introdução de espécies exóticas.