Grupo de Aécio Neves e Ricardo Ferraço vira piada na internet

aroeiraO fracasso diplomático da missão à Venezuela, com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) à frente, transformou-se, nos últimos dias, em motivo de piada na internet. A tentativa de afrontar o governo do presidente Nicolas Maduro terminou algumas horas depois de pousar no Aeroporto de Caracas e enfrentar um engarrafamento. No caminho, um pequeno grupo de manifestantes assustou os parlamentares brasileiros que, rapidamente, retornaram ao avião da Força Aérea Brasileira que usaram para a viagem até o país vizinho. Internautas classificaram a retirada dos senadores como ‘a fuga das galinhas’.

A viagem já havia começado mal, com uma mentira estampada na manchete do diário conservador carioca O Globo, na véspera. Segundo o jornal das Organizações Globo, o governo Maduro havia “vetado” a presença dos senadores. A notícia foi desmentida algumas horas depois. Na volta da missão fracassada, Neves tentou ainda desestabilizar as relações entre o Brasil e a Venezuela, mas experimentou um novo insucesso, pois o Senado aprovou, em seguida, o requerimento para a criação de uma comissão externa com a finalidade de verificar a situação “política, social e econômica” da Venezuela. Desta vez, o texto é assinado pelos senadores Vanessa Graziotin (PCdoB-AM), Roberto Requião (PMDB-PR), Randolfe Rodrigues (PSOL-AC), Lídice da Mata (PSB-BA) e Lindbergh Farias (PT-RJ).

O governo venezuelano reafirmou, neste sábado, que receberá a comitiva parlamentar brasileira, sem nenhum constrangimento. Segundo os senadores que assinam o requerimento, o pedido é motivado pela “escalada da tensão política” na Venezuela. “É dever do Brasil – logo, da diplomacia parlamentar – identificar e promover as condições de diálogo interno, pacificação e redução da agressividade que tem marcado o processo democrático venezuelano”, dizem os senadores no requerimento.

O novo requerimento destaca que “o objetivo dessa comissão é ouvir os lados em disputa e no conflito que já necessita da preocupação de todos nós”. Os senadores também alegam que a comitiva de Aécio Neves, que embarcou para a Venezuela “não atende às exigências de isenção e imparcialidade” que a “gravidade” do momento requerem o que, na opinião dos parlamentares, justifica a criação de outra comissão.

Sem moral

Cássio Cunha Lima, Agripino Maia e Caiado, assustados com a manifestação de cerca de 30 apoiadores do governo de Maduro

Os senadores brasileiros que embarcaram em ‘missão’ para ‘salvar’ a Venezuela são réus em processos que tratam de crimes de corrupção. Um dos integrantes da comitiva, Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), já chegou a ter o mandato cassado pela Justiça quando foi governador. Presidente do PSDB, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) tratou sua ida à Venezuela como uma missão política e diplomática, para fazer “aquilo que o governo brasileiro deveria ter feito há muito tempo”. Esta foi a mensagem divulgada por ele em um vídeo publicado em sua página no Facebook pouco antes de embarcar.

Neves foi acompanhado dos senadores Aloysio Nunes (PSDB-SP), Cassio Cunha Lima (PSDB-PB), José Agripino (DEM-RN), Ronaldo Caiado (DEM-GO), Ricardo Ferraço (PMDB-ES), José Medeiros (PPS-MT) e Sérgio Petecão (PSD-AC).

José Agripino Maia (DEM-RN) é atualmente investigado pela Operação Sinal Fechado. Ao comentar a viagem, o parlamentar escreveu que o Brasil tem a “obrigação” de se posicionar contra a violação dos direitos humanos e a ausência de liberdade de expressão no país vizinho. A família de Agripino Maia é dona da TV Tropical e de várias emissoras de rádio no Rio Grande do Norte.

O ruralista Ronaldo Caiado (DEM-GO) é acusado de ser financiado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira.

O próprio Aécio Neves, que se mostrou indignado com o cerceamento à liberdade de expressão no país governado por Nicolás Maduro, no período em que governou Minas Gerais, teve a sua gestão marcada por denúncias de aparelhamento da imprensa (Aécio é dono da rádio Arco íris-Jovem Pan) e perseguição a jornalistas independentes no estado. Foi preciso que a imprensa internacional, através de um documentário, denunciasse o estado de censura que Minas atravessou sob a gestão Aécio.

Paiol de pólvora

O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, repudiou a “tentativa” de senadores da oposição, liderados por Aécio Neves (PSDB-MG), de transformar a frustrada visita a líderes políticos presos na Venezuela num “embate político-ideológico”.

Garcia comparou a situação da Venezuela a um “paiol de pólvora” e afirmou que, diante da crise, é necessário mediação, e não “proselitismo”. “Se você está num paiol de pólvora, não entra fumando e, menos ainda, acende um fósforo”, disse ele.

– Em primeiro lugar, o governo brasileiro criou as condições materiais para que a delegação pudesse ir lá. Fiquei preocupado porque era interferência num assunto interno de outro país. Além disso, a agenda dos senadores era parcial. Não estava programado, por exemplo, nenhum contato com Capriles (Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda, principal líder de oposição, mais moderada, ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro) – disse.

Ainda segundo Garcia, houve certa agressividade por parte de cerca de 30 manifestantes, mas ninguém saiu ferido. Apenas assustaram os parlamentares brasileiros que estavam na van.

– O veículo em que os senadores estavam foi alugado pela embaixada. O problema adicional foi o megaengarrafamento de Caracas. Houve personalidades muito mais relevantes que estiveram lá, como o ex-primeiro ministro da Espanha, Felipe González, e não sofreram nenhum tipo de constrangimento – acrescentou.

O governo brasileiro, de acordo com Garcia, opõe-se que esse episódio se transforme num incidente diplomático.

– Os que querem fazer isso cometem um equívoco. Estamos preocupados com a situação da Venezuela, que é complexa, mas não queremos fazer disso um embate político-ideológico. Se você está num paiol de pólvora, não entra fumando e, menos ainda, acende um fósforo. Quem conhece a vida política da Venezuela sabe que lá as coisas não são fáceis. Os santos estão nas igrejas… Não se chega a uma solução pacífica apoiando um dos lados, mas, sim, negociando com as duas partes – concluiu.