Como é bom viver na Suécia, digo, Brasil

Por Guy Franco

Suécia, Brasil.

Como nos países escandinavos, gastamos muito do nosso tempo com discussões pequenas, que é o que nos resta. Ontem mesmo, durante o dia inteiro, discutia-se o nome de esmaltes Risqué.

7299e300-d24d-11e4-b730-2b9bab578bc2_estocolmo_giuseppemilo_guy_630O bom de viver em país de primeiro mundo é poder ler o jornal e ficar horrorizado não com homicídios e escândalos de corrupção, mas com campanhas publicitárias de esmaltes e cervejas.

Fazem parte do mesmo fenômeno os fiscais de sexualidade alheia.

Enquanto as massas partem para cima de campanhas publicitárias, o governo faz o que quer. Parlamentares extorquem estatais para o seu plano de poder. O governo “estelionata” os Correios, destrói a Petrobras. E a discussão gira em torno do beijo entre duas senhoras na novela. Bom para o governo.

A última: Fernanda Montenegro ficou surpresa com a dimensão do escândalo em torno da novela Babilônia, de Gilberto Braga, em que interpreta uma senhora homossexual.

Escândalo que resultou até em pedido de boicote por parlamentares. O senador Magno Malta emitiu uma nota de repúdio à novela “anticristã”. Em resposta, o deputado Jean Wyllys escreveu uma nota de repúdio ao senador. Enquanto isso, o país desmorona. Segundo Wall Street Journal, podemos estar no meio da maior recessão desde 1929.

No Brasil, resolvemos tudo assim, metendo os tentáculos do governo na Fernanda Montenegro e em quem mais aparecer na frente.

Pedem intervenção estatal como solução para todos os problemas do país. O resultado está aí: o Estado acredita que tem direito sobre a sua sexualidade também. Não há nenhuma surpresa quando parlamentares discutem o beijo gay.

Acabo de ver o nosso deputado Marco Feliciano se jogando no chão, qual um menino mimado numa loja de brinquedos, pedindo boicote à Natura porque a empresa patrocina a novela Babilônia: “Conclamo aos que defendem valores morais a boicotar esta empresa.” E para boicotar o deputado e outros líderes ridículos, como proceder?

Belo país onde uma novela, em vez de levar o povo a se distrair, serve para justificar leis discriminatórias, como aquela do Estatuto da Família.

Você fala da recessão, da violência, da inflação e dos maiores escândalos de corrupção de que se tem notícia. Nada. E quem quer falar disso?

A vantagem de morar na Escandinávia é poder se escandalizar com peças publicitárias e temas apresentados na novela.