Uma vila de mulheres pescadoras em Colatina

pescaElas enfrentam o trabalho pesado sem perder a vaidade com apetrechos de pesca em punho dentro de pequenos barcos de madeira na aventura diária de capturar peixes, camarões e lagostas nas águas do imponente Rio Doce em Colatina. As mulheres pescadoras do Rio Doce vivem em Maria Ortiz, uma pequena vila de pescadores a 15 km do centro da cidade, mas apesar de não ser a maioria na colônia repartem com os homens o esforço de garantir o sustento da família. São esposas, mães, filhas, noras e até netas que romperam o mito de que pesca é uma atividade masculina.

Ao menos oito mulheres pescadoras profissionais de ‘carteirinha’ e outras cinco em fase de filiação a Colônia de Pescadores Z5 exploram com redes e anzóis ao lado dos homens um trecho de até 40 km ao redor de ilhas e canais no Rio Doce entre Colatina e Linhares. Uma contagem rápida aponta que grupo feminino representa 15% de quem vive da pesca em Maria Ortiz.

Vai longe à imagem da pescadora desalinhada e vestes surradas. Vaidosas não dispensam filtro solar, bijuterias e roupas de cores alegres e confortáveis quando saem na busca dos cobiçados cardumes de robalos, tainhas, curimbas e surubins “Nasci na pesca”, diz a pescadora profissional Edna Mauro Ponche, 45 anos casada com o operador de máquinas José Francisco e mãe de José Lucas, 4 anos que divide os afazeres do lar com a embarcação a motor dia sim dia não na calha do rio.

Quando a pesca fica proibida na época do defeso entre novembro e dezembro de cada ano , Edna como outros pescadores recebe o benefício de um salário mínimo até que a abertura da nova temporada. “O peixe sumiu. Está difícil viver da pesca. A água está suja e poluída pelos esgotos. A areia tomou conta de tudo a ponto atravessar o rio a pé”, desabafa a pescadora Edna. A convivência com o rio fortalece os laços de amizade e na divisão das tarefas entre mães, filhas e amigas pescadoras do Rio Doce.

Kamila, 19 anos, por exemplo -, ajuda a mãe pescadora Rosilene Klipert Ponche, 33 anos a desembaraçar e remendar redes nos horários de folga dos estudos, além de arriscar lances nas praias do Rio Doce. “Depende do dia Kamila me ajuda em casa e na pesca. Temos que dar graças ao rio por tudo que conquistamos”, destacou. Aos 67 anos nem a aposentadoria como pescadora parou a inquieta Edicléia Passos Clarindo Ponche. “Toda minha vida percorri o rio pescando. Só paro quando não puder mais”, destacou.

Tradição passa de pais para filhos em Maria Ortiz

Vende-se Peixe. Rabiscado nas paredes, plaquinhas de madeira ou papelão o aviso está estampado em boa parte das casas do vilarejo de Maria Ortiz. Essa é a prova de que a profissão de pescador além de abastecer a mesa dos colatinenses é uma tradição passada de pai para filhos ou filhas conforme costume da região.

Antônio Ponche, 76 anos e Ilda Waichert Ponche, 67 anos criaram toda uma família de pescadores. Seus quatro filhos Edna, João, Carlos e Roberto seguiram os passos dos pais. A netinha Tália Maria,12 anos também herdou o gosto de fisgar o pescado de anzol à beira d’água.

Além de pescar, limpava e vendia na feira”, contou Ilda até se aposentar e cuidar apenas da casa. A chance de emprego para os homens aumentou com a chegada do terminal ferroviário de cargas de Maria Ortiz e contribuiu para a mulher assumir o comando da pesca na localidade. As casas simples, mas bem mobiliadas revelam que ainda dá para viver da pesca. Desde os 13 anos quando fugiu de casa para morar em uma ilha com seu marido Ilton Ponche, 76 anos, Edicléia Clarindo Ponche, 67 anos não se arrepende de ter deixado o noivo e enxoval para trás.

A comunidade é unida pela fé e a pescaria. Somos uma grande família. Falta incentivo e fiscalização dos governos contra o exagero da pesca clandestina com redes de malha fina” revela Edicléia a mais velha profissional da pesca da localidade. Líder natural das mulheres pescadoras, Edicléia luta para que o Rio Doce seja reconhecido como reserva natural de pesca. O lugarejo também sofre com os problemas de alcoolismo combatido apenas com a fé da religiosidade das mulheres pescadoras.