Justiça concede reintegração de posse de área pública à fazendeiros e causa revolta em Ecoporanga

Os acampados do MST (Movimento dos Sem Terra) no acampamento Derli Casali, no Território do Bagre, em Ecoporanga realizaram uma marcha com mais de 200 pessoas pelas principais ruas da cidade terminando a manifestação na Câmara de Vereadores nesta segunda-feira, 21/05.

Durante a marcha foram distribuídos panfletos explicando sobre os ideais do movimento onde constavam as seguintes informações:

– Ecoporanga é um dos maiores municípios em extensão territorial no Estado, mas apresenta o 2º maior índice de miséria do Espírito Santo.

– Muitas famílias saem de Ecoporanga para plantar e trabalhar em outros municípios por que as maiorias das terras se encontram nas mãos de poucas pessoas, que geralmente preferem investir em pastos ao invés da agricultura.

Na Câmara Municipal os manifestantes pediram que os vereadores retomassem a área do Bagre que pertence ao município e foi tomada por fazendeiros, através da titularização. A área foi invadida por integrantes do MST que querem que a terra seja destinada à reforma agrária, mas a justiça concedeu um limitar de retomada de posse aos fazendeiros e a data do despejo dos assentados está marcada para o dia 31/05.

“Nós do movimento queremos deixar bem claro para toda sociedade, que só queremos  um pedaço de terra para montar nosso acampamento e podermos produzirmos a  alimentação necessária enquanto estivermos esperando que o INCRA (Instituto Nacional  de Colonização e Reforma Agrária) destine alguma área para assentar as famílias  que estão  acampadas”. Disse um dos representantes do MST acampados no local.

O caso repercute em todo o estado, entenda a situação:

No dia 26 de março de 2012, cerca de 20 famílias ligadas ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra), ocuparam uma área de aproximadamente 02 hectares, a fim de reivindicar a criação de um acampamento permanente no referido  município, bem como denunciar que o imóvel é uma área pública do antigo Patrimônio do Bagre que foi incorporada nas terras da fazenda Vista Alegre, que tem  os fazendeiros Silval Faustino Ferreira e Ângela Maria Dal Col Ferreira como supostos proprietários.

No dia seguinte à ocupação, outras 80 famílias se juntaram ao grupo inicial.

Breve histórico da área:

Em 1962, esta terra pública foi doada à Igreja Católica, onde foram construídos uma capela, um pequeno vilarejo e um cemitério (atrás da capela). Atualmente, a capela ainda permanece no local. Porém, o vilarejo e o cemitério foram destruídos, desaparecem para dar lugar à plantação de capim. Os familiares que tiveram seus entes enterrados na localidade convivem, todos os anos, em ocasião do dia de  finados, com a angústia de não poderem visitar os túmulos e fazerem as orações para seus mortos, uma antiga tradição católica. Sem falar no crime de desrespeito para com os corpos ali sepultados e da conivência do Poder Público que permanece em silêncio sobre o fato, ano após ano.

Infelizmente, as 100 famílias que hoje ocupam a área  invadida pelo dito fazendeiro e sua esposa, estão prestes a serem despejadas “de uma área pública”, porque o Estado do Espírito Santo, através do Poder Judiciário, representado aqui pela 1ª Vara do Fórum Ministro Pereira de Sampaio, atráces da decisão do Juiz Erildo Martins Neto, julgou que “a área pública” pertence aos fazendeiros.

O curioso é que o mandado de reintegração de posse aconteceu no mês de abril de 2012. Período em que diversas pessoas fazem memória dos 50 anos do sangrento MASSACRE DE ECOPORANGA, ocasião em que centenas de posseiros foram mortos, torturados e expulsos das suas terras, por pistoleiros que agiram sob ordens de fazendeiros, madeireiros e por uma junta militar.