Santa Maria: acusados de sequestro estão soltos

Carla Nascimento
cnascimento@redegazeta.com.br

downloadPouco mais de um ano depois de sofrer um sequestro e ser mantida em cativeiro por seis dias, a filha de um dos maiores empresários do ramo da avicultura do país, C.K., 27 anos, vive presa no próprio medo. Moradora de Santa Maria de Jetibá, região Centro-Serrana do Estado, ela teme encontrar pelas ruas algum dos envolvidos no crime. Todos aguardam o julgamento em liberdade.

Veja matéria sobre o sequestro

Atualizado: Wancley é preso em Barra de São Francisco

C., que não terá o nome divulgado por segurança, soube que eles estão em liberdade pelo advogado de sua família, há alguns dias. Eles permaneceram em prisão preventiva até o último dia 31.

Douglas Fernando Marques Santos, Wancley Haese Falk, Fernando Santos e Efrainho Naitcel Loose foram acusados de extorção mediante sequestro e formação de quadrilha. Dois deles ainda respondem por porte ilegal de armas e um por falsidade ideológica. A expectativa é de que o julgamento aconteça até o próximo mês.

Eles renderam C. enquanto ela dirigia a caminho da empresa do pai – onde trabalhava como administradora – no dia 10 de dezembro de 2009, a 5 km de Santa Maria de Jetibá. Eles a levaram para uma casa em Vila Velha e pediram um resgate de R$ 2 milhões. O local do cativeiro era vigiado por dois cães da raça pit-bull e tinha as janelas vedadas com madeira.

Douglas era cabeleireiro num salão de beleza perto da casa do pai da jovem. Wancley trabalhava numa loja, também próxima à casa da vítima. A polícia suspeita que eles eram os mentores intelectuais e executores do crime. A moça foi encontrada na madrugada do dia 17. Todos foram presos em flagrante. Na entrevista abaixo, C. fala sobre a sensação de impunidade em relação ao crime.

Medo

Não haveria motivo para eles serem soltos agora. Sinto insegurança, impunidade. Isso muda minha vida. Tenho receio de encontrá-los na rua. Ouvi dizer que estão na cidade (em Santa Maria de Jetibá). Todo mundo (os familiares) ficou muito triste. Ninguém entendeu o porquê de eles estarem soltos.

Impotência

Infelizmente, não posso fazer nada. Cabe à Justiça fazer alguma coisa. Pretendo continuar morando na cidade. Me sinto insegura, mas não vou embora.

Revolta

As poucas pessoas com quem conversei se sentiram revoltadas. A população se sente insegura também e fica desacreditada na Justiça.

Investigação

O trabalho da polícia foi excelente. O processo está perfeito e tinha tudo para gerar um desfecho legal, mas pode acabar em impunidade. Isso dá uma tristeza enorme. Acho que atitudes como essa chegam a aumentar o índice de criminalidade. Quem comete um crime desse gabarito, fica pouco tempo na cadeia e sai.

Hábitos

Depois do crime, minha vida mudou. Quando a gente passa por uma situação dessa, fica muito neurótica. Comecei a me preocupar com todos, ficar com receito de sair de casa em qualquer situação. Consegui me recuperar em parte. Fui retomando a rotina e isso ajuda bastante.

Preocupação

O que mais me assusta é a questão de segurança pública, mesmo. Hoje acontece tanta coisa que a gente mal tem liberdade para sair de casa. Tenho preocupação com a violência nas ruas.

Defesa: “A sociedade já os aceitou”

“Acredito que eles não voltarão para a prisão”. Essa é a afirmação do advogado de defesa dos acusados de participarem do sequestro de C.K., Matheus Rodrigues Fraga. Ele argumenta que todos são reús primários, já estão empregados e têm residência fixa. O profissional ainda afirma que todos teriam se convertido a uma religião evangélica.

De acordo com o advogado, nenhum dos suspeitos está morando em Santa Maria de Jetibá, embora tenham parentes no município. Eles se mudaram para conseguir emprego. “Em função das oportunidades de trabalho que receberam, todos estão morando em cidades vizinhas. A sociedade já os aceitou novamente, estão ressocializados. A legislação deixa claro que a prisão preventiva não pode se tornar uma condenação antecipada”, enfatiza.

Douglas Fernando Marques Santos, Wancley Haese Falk, Fernando Santos e Efrainho Naitcel Loose estariam ainda frequentando uma igreja evangélica. “Dentro da prisão, o único livro permitido é a Bíblia. Eles liam muito e todos se converteram. No dia em que foram libertos, foram a uma igreja agradecer a Deus. Mesmo antes, no dia da audiência, um deles se aproximou da família e disse que lamenta qualquer coisa que possa ter feito ou o sofrimento que possa ter causado. A esse arrependimento, temos que dar parabéns”, opina.

Juíza só fala sobre o assunto na próxima semana

A sentença que vai determinar se Douglas Fernando, Wancley, Fernando e Efrainho serão presos deve ser definida até março. Antes, o Ministério Público Estadual e o advogado de defesa farão as alegações finais. “Acredito que teremos a sentença no final de fevereiro ou início de março. Mas se houver condenação, só surtirá efeito depois de transitar em julgado”, diz Matheus Rodrigues Fraga. A juíza responsável estava em audiência e disse que só falaria sobre o assunto na próxima semana.

Entenda o caso

Conheça detalhes do crime e como C.K. foi resgatada

Abordagem
C.K. foi rendida no dia 10 de dezembro de 2009 a 5 km de Santa Maria de Jetibá, quando seguia de carro para a empresa do pai, onde trabalhava. Para rendê-la, os criminosos usaram um carro para fechar o Honda Civic da vítima.

Cativeiro
A vítima foi obrigada a dirigir rumo a Domingos Martins. A 3 km de Campinho, em Domingos Martins, ela foi levada para outro veículo e seguiu para o cativeiro. O carro de C. foi deixado numa estrada de chão. Ela foi mantida numa casa, em Nova Ponta da Fruta, Vila Velha. O local era vigiado por dois cães da raça pit-bull. A vítima ficava num quarto, no térreo da casa de dois pavimentos. As janelas foram vedadas com madeira. Lá ainda uma cama, uma televisão e um ponto de TV a cabo clandestino

Extorsão
Eles exigiram que a família não avisasse a polícia, senão matariam a jovem, e pediram um resgate de R$ 2 milhões

Resgate
O local foi invadido durante a madrugada do dia 17 de dezembro de 2009 por policiais da Delegacia Antissequestro (DAS). Quatro suspeitos do crime – Douglas Fernando Marques Santos, Wancley Haese Falk, Fernando Santos e Efrainho Naitcel Loose – foram presos

Vizinhos
Douglas Fernando Marques Santos e Wancley Haese Falk foram presos em Santa Maria de Jetibá. O primeiro era cabeleireiro num salão de beleza perto da casa do pai da jovem. Wancley trabalhava numa loja também próxima à casa da jovem. A polícia suspeita que eles eram os mentores e executores do crime

Acusação
Todos foram acusados de extorção mediante sequestro e formação de quadrilha. Wancley e Douglas Fernando ainda foram enquadrados em porte ilegal de arma. Douglas responde ainda por falsidade ideológica

Processo
Os acusados tiveram a prisão preventiva decretada e ficaram presos até o último dia 31. Agora, aguardam a sentença que deve ser emitida até março