Escrava teve bebê queimado vivo em Nova Venécia

» Imagem ilustra mulher de Angola com filho nas costas

Constância de Angola teve seu filho arrancado dos braços e jogado em uma fornalha, devido a criança chorar muito. A Rede Notícia realiza a reportagem de hoje, para fazer menção ao Dia da Consciência Negra (20), e aos eventos realizados durante esta semana sobre o tema. Neste sábado a edição vai trazer as concorrentes do Concurso Deusa do Ébano Afrozumba


A história do negro e a era da escravidão no Brasil, jamais pode ser esquecida e talvez, não há nem como haver reparos por tantas atrocidades. Entre tantas narrativas, uma delas é a vida de Constância de Angola, uma escrava, negra, que teve seu bebê arrancado de suas mãos e jogado em uma fornalha. O menino foi queimado vivo, e o motivo, era porque chorava muito, fato que incomodou Francelina Cardoso Cunha, esposa de Matheus Gomes da Cunha, irmão do Major Antonio Rodrigues da Cunha, o Barão de Aymorés, é o que revela a historiadora Izabel Maria da Penha Piva. Tudo isso aconteceu por volta de 1880, na Fazenda Boa Esperança, atual região da Serra de Cima, em Nova Venécia.

Izabel ainda narra, que de acordo com relatos e pesquisas também de outros historiadores, a tragédia aconteceu quando em um momento de fúria da Senhora Cunha, ao não suportar mais o choro daquela criança, mandou seu feitor, um nordestino chamado José de Oliveira, conhecido como Zé Diabo, arrancar o bebê dos braços da mãe e jogá-lo no forno de fazer farinha. “Num instante de raiva, sem saber se o bebê estava doente, ou tinha frio ou fome, o feitor arrancou o bebê dos braços da mãe e o jogou no forno”, narra Izabel.

De acordo com a história, Constância gritou, lutou, esperneou, chorou, mas nada comoveu aquela senhora. “Então, já cega de raiva, a escrava jurou que iria matá-la. Foi colocada no tronco, levou muitas chicotadas, mas continuou dizendo que mataria a mulher. E ali passou vários dias e noites acorrentada”, diz.

A documentação existente sobre Constância de Angola, é que há registros no cartório do 1º Ofício de São Mateus, de uma escrava de nome Constância, “crioula de cor parda, solteira” que foi comprada pelo Coronel Matheus Gomes da Cunha, em 1880. De acordo com o historiador Rogério Piva, não há comprovação de que foi Constância que veio de Angola ou algum antepassado seu, porém, o nome é em referência ao continente Africano.


A fuga

Na região do Vale do Cricaré existiam alguns quilombos, um deles de Viriato Cancão de Fogo, entre Nova Venécia e São Mateus. Ao saber do que aconteceu com Constância, Viriato resolveu resgatá-la. No quilombo ela aprendeu capoeira e a lutar com facas. Se tornou uma das guerreiras mais importantes da região. Enfrentava forças do governo e capitães do mato para ajudar seu povo.

Constância morreu pelas mãos do mesmo feitor que anos anteriores matou seu filho, mas a luta, também o matou. Seu corpo foi enterrado no cemitério da fazenda da Cachoeira dos Cravos. A esposa do Coronel Mateus Cunha morreu em Nova Venécia, mas antes disso, precisou passar um tempo em São Mateus, para evitar uma possível revolta dos escravos, por conta do assassinato do bebê. “A história é de uma mãe que se tornou uma guerreira. Transformou a dor da perda de seu filho em força para lutar pela libertação do povo negro escravizado. Era uma mulher, que como tantas hoje, lutam para poder amar, cuidar e sustentar seus filhos. São Constâncias, são mulheres, são guerreiras”, finaliza Izabel.

» Historiadora Izabel Maria da Penha Piva narrou a vida de Constância de Angola também no livro escrito por ela e Rogério Piva: À Sombra do Elefante

Cintia Zache
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