Victorio Fernandes e Pedro Castilho são os cidadãos mais antigos de Barra de São Francisco

Por Weber Andrade

Eles nasceram em Barra de São Francisco com apenas dois anos e meio de diferença um do outro e são considerados os dois francisquenses vivos mais antigos da cidade. O primeiro, Pedro Castilho, vai completar 90 anos no dia 2 de fevereiro do ano que vem. Filho de Pedro Castilho Sobrinho e dona Raimunda, Pedro Castilho trabalhou como comerciário por alguns anos, até tornar-se empresário, atividade que ele pratica até hoje, com a Castilho Comércio e Representações. (Ainda esta semana publicaremos a história de Pedro Castilho e família)

Pedro Castilho, ao lado do deputado Enivaldo dos Anjos e do empresário Samuel Cardoso, além do prefeito de Ecoporanga, Elias Dal’Col (Foto: Arquivo/ocontestado.com)

O segundo, Victório Fernandes, veio “encomendado”, da região de Baunilha, em Colatina, já na barriga da mãe, dona Petronília, esposa de Alberto Fernandes, um dos quatro filhos do pioneiro Francisco Fernandes de Jesus, o Chichi e dona Vitória. Nasceu em julho de 1932 e foi criado na Rua Mineira que, na época era uma gleba de terra, doada ao senhor Chichi e não tinha casas.

Victorio, em pé à direira de quem olha, de terno na mão, foi um dos alfaiates mais requisitados de Barra de São Francisco durante décadas (Foto: arquivo familiar/ocontestado.com)

Victório virou alfaiate – profissão que aprendeu junto com o primo Jair Fernandes, o Jair Carabina – e com a qual criou a família. Sua primeira alfaiataria ficava logo após a ponte que dava acesso da Rua Mineira para o centro, perto da Igreja Metodista, que existe até hoje.

Mas ele também era apaixonado por música e chegou a montar uma banda junto com outro músico, já falecido e muito conhecido, Wilson Borém de Almeida. Hoje ele está aposentado, lúcido e com saúde, assim como o colega Pedro Castilho, embora ambos tenham alguma dificuldade auditiva.

Victório toca clarineta na Lira Francisquense, no início da década de 2000 (Foto: arquivo familiar/ocontestado.com)

“Nós (ele e o Wilsom Borém) chegamos a tocar juntos, na Banda Lira Francisquense, mas tínhamos uma bandinha nossa, que tocava até forró”, conta Victório, que foi vizinho de Borém na Rua Mineira. De acordo com o filho mais velho de Wilsom Borém, o Júnior Borém, a banda em questão tinha outros elementos que ajudavam, como o Durval da Pedreira, o Manoelzinho e até o Jorge Kabana, músico aposentado.

Ela afirma que toca clarineta até hoje, embora não participe mais de eventos, mas diz que aprendeu a tocar de ouvido e também a ler partituras. Chegou a tocar também na Lira Mantenense. “Lembro que havia aqui um maestro, Edson Guedes que montou a Lira, junto com o senhor Adão Simões, que conseguiu doações de várias sacas de café e comprou os instrumentos”.

O alfaiate fala pouco sobre si mesmo, mas, com a ajuda do sobrinho neto Sérgio Fernandes, vai soltando algumas histórias sobre si e muitas sobre o avô, que para ele foi o principal responsável pelo povoamento de Barra de São Francisco. “Quando chegamos, só tinha aqui umas três casinhas, logo para cima da ponte da Rua Mineira, no que hoje é a avenida Jones dos Santos Neves”, relata.

Depois de aprender a profissão de alfaiate, com o senhor Anélio, e de exercer o mister na cidade por alguns anos, Victório quis largar a profissão. “Fui para Coronel Fabriciano em 1962, trabalhar de empregado. Na época estavam construindo a Usiminas e eu entrei na Tenenge, uma empresa de engenharia, mas não gostei muito daquilo não. Muita bagunça, gente demais”, conta ele, que logo retornou para sua terra natal.

Casamento do alfaiate com a prima dona Filhinha feito pelo padre Daniel (Foto: arquivo familiar/ocontestado.com)

Provocado pelo sobrinho Sérgio, que sugeriu que ela tinha voltado porque estava apaixonado pela prima de primeiro grau, dona Edina Maria de Jesus, a Filhinha, ele não nega, mas dá uma versão um pouco diferente: “Na verdade, eu estava noivo mesmo, mas vim embora por causa de uma hepatite. Mas aí decidi ficar e pouco tempo depois acabei casando com a Filhinha e estamos juntos há 52 anos”, comemora.

 

Dona Filhinha, relembra sorrindo que o casamento demorou um pouco a sair, mas valeu a pena. Hoje o casal conta com cinco netos – Letícia, Márcio, Thamires, Thaila e Thales, das filhas Jane Claudia, Monica Valéria e Thais Caroline. Duas delas, uma solteira e uma casada moram no mesmo prédio dos pais, na Rua Mineira, enquanto outra reside em Mantena (MG).

“Nós namoramos por sete anos”, recorda Victório, dizendo que namorou muitas meninas da sua época, antes de se render definitivamente aos encantos da prima dona Filhinha. “Namorei muitas, mas prima foi só a Filhinha”, se apressa em dizer.

Victório com a patroa dona Filhinha e duas filhas (Foto: arquivo familiar/ocontestado.com)

Francisco Fernandes, o homem que começou a saga do Irmãos Fernandes

Infelizmente, até o momento da publicação dessa reportagem não havíamos conseguido ainda uma foto do senhor Francisco Fernandes de Jesus, o Chichi, que é apontado por seu neto, Victório Fernandes e pelo empresário Pedro Castilho como um dos homens mais importantes da história da colonização de Barra de São Francisco. Hoje, encontrar um membro da família Fernandes é tarefa fácil. Principalmente na região do bairro que leva o nome da família.

Todo o espaço antes da ponte da Rua Mineira até as proximidades da entrada do Parque Sombra da Tarde pertencia ao senhor Chici (Foto: Barra de São Francisco antiga/facebook)

Mas o nome do bairro irmãos Fernandes, que surgiu depois da Rua Mineira e hoje encampa a tradicional feira livre de Barra de São Francisco não vem, diretamente, do pioneiro Francisco Fernandes e sim dos quatro filhos dele – Alberto, Benjamin, Ponciano e Herculano -, que acabaram herdando do pai as terras que iam desde onde está hoje o Posto Sombra da Tarde, perto da entrada da avenida Carlos Valli, até o pequeno morro após a ponte da Rua Mineira. “Eu me lembro de quando ainda não havia nem ponte para atravessar o rio, tinha apenas uma pinguela, uma tora grossa e lavrada que a gente passava por cima”, descreve.

“Meu avô trouxe a mudança, da região de Baunilha, em Colatina, em lombo de burros, veio passando ainda por Águas Claras, que era o único caminho que existia”, relembra Victório.

Chichi teve tal importância para a colonização da cidade que, poderia facilmente ter se tornado um dos homens mais ricos da região, não fosse sua vocação para a caridade e o serviço social, como salienta o neto Victório e o bisneto, Sérgio Fernandes.

“Ele era advogado, juiz de Paz, médico (tratador), um homem que fazia o bem a todo mundo e não gostava de cobrar pelos serviços que prestava”, conta Victório, salientando que, em certa ocasião, um homem da família dos “Perigoso”, que era um pessoal muito bravo, quis matar um morador da cidade, por nome de Manoel Aguiar.

“Meu avô ficou sabendo que oito homens tinham saído armados em direção ao que hoje é bairro Bambé, para matar o Manoel, mas o meu avô, desarmado e amparado apenas em um bengala, foi logo encontra-los e ali onde hoje está a Igreja Assembleia de Deus, na entrada para o Campo Novo, encontrou a turma e perguntou onde é que eles estavam indo, ao que responderam que estavam indo matar o Manoel Aguiar. Meu avô foi logo dizendo: Vocês não fazer isso não, podem voltar daqui e deixa o Manoel comigo. E não é que os homens obedeceram e deixaram o Manoel em paz?” Relata Victório, informando ainda que depois seu avô foi até o tal Manoel Aguiar e pediu que ele saísse da cidade por uns tempos, até as coisas se acalmarem, no que também foi logo obedecido.

Além de curar e tratar de muita gente dentro de sua casa, o senhor Chichi Fernandes também dava pousada a tudo que era vivente que por ali passava e pedia o seu abrigo. “A família nunca passava uma noite sozinha, sempre tinha alguma pessoa que passava e pedia pousada, sem contar os pacientes”, conclui Victório. (W. A.)

Policiais da época do Contestado posam para fotografia de uniforme de gala (Foto: Lucilene Guimarães/facebook)

Do conflito do Contestado, poucas histórias

O conflito do Contestado, que marcou uma briga por posse de terras entre Minas e o Espírito Santo até o início da década de 60, está na memória de Pedro Castilho e de Victório Fernandes como uma época difícil, mas sem tiroteios. “No começo havia os destacamentos de policiais de Minas e do Espírito Santo em Barra de São Francisco, mas não havia tiroteio, aqui na cidade não”, conta Pedro Castilho, salientando que os policiais mineiros ficavam alojados perto de onde hoje é a loja Megalar, no centro.

“Os mineiros queriam um caminho para o mar, mas os nossos policiais e autoridades estavam acampados aqui para defender o território. Todos eles andavam carregando enormes fuzis, a única arma que tinham na época”, relata.

“Um desses soldados, o militar reformado Jorge Angélico Nolasco, chegou aqui bem novinho. Veio andando de Águia Branca até aqui, carregando o fuzil a tiracolo”, recorda ele.

Victório também recorda desses tempos e faz coro com Pedro Castilho. “Conflito, tiro mesmo, nunca vi. Mas o povo começou a ficar com medo e muita gente ia pedir abrigo ao meu avô, Francisco e dona Victória e ele sempre recebia todo mundo bem”. (W.A)