Larva brilhante e raríssima é descoberta por cientistas brasileiros

Por Isabella Lima, G1 Santos

O primeiro organismo terrestre com bioluminescência azul da América Latina foi descoberto por pesquisadores de Iporanga, no interior de São Paulo. A ‘larva iluminada’ foi encontrada por biólogos do Instituto de Pesquisas da Biodiversidade–IPBio, na Reserva Betary, coração da Mata Atlântica no Vale do Ribeira.

Conforme explicam os pesquisadores, essas larvas (Neoceroplatus betaryiensis) têm menos de 2 centímetros de comprimento e três órgãos que emitem luz, dois deles na cabeça e um na cauda. Isso faz com que elas fiquem iluminadas de azul durante a noite, fenômeno biológico denominado bioluminescência.

A bióloga Ana Gláucia da Silva Martins, de 36 anos, uma das 13 pesquisadoras que assinam o artigo, explica que o organismo foi descoberto em 2017. “Depois dessa etapa vários outros pesquisadores foram envolvidos, tanto da USP, quanto da UFSCAR e UEPG”, relata. Ela acrescenta que nos dois anos seguintes, eles continuaram realizando estudos para confirmar que se tratava de algo inédito para o continente americano.

Larvas ficam iluminadas de azul durante a noite, fenômeno que na Biologia é chamado de bioluminescência.  — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

Larvas ficam iluminadas de azul durante a noite, fenômeno que na Biologia é chamado de bioluminescência. — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

“Para nós de Iporanga isso é muito importante, primeiro porque precisamos conhecer e preservar tudo aquilo que temos, ou seja, essa é mais uma chance de conseguirmos algum resultado em termos de conservação da biodiversidade. E ainda pode representar avanços para cidade”, acrescenta Ana.

Pesquisadores

A área da Mata Atlântica que compõe a cidade de Iporanga tem a maior concentração do planeta de espécies de cogumelos que emitem luz. Durante a noite, é possível enxergar a luz desses fungos.

O professor da USP Cassius Stevani, que também compõe o projeto de pesquisa, explica que as substâncias contidas em algumas espécies bioluminescentes são utilizadas nas áreas ambientais, clínica e de biologia nuclear para estudos das células e do câncer, além de ser importante no conhecimento básico da ciência.

Grant Jonhson, Isaías Santos e Henrique Domingos (com seu filho Caetano) são alguns dos pesquisadores da descoberta  — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

Grant Jonhson, Isaías Santos e Henrique Domingos (com seu filho Caetano) são alguns dos pesquisadores da descoberta — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

“A bioluminescência de vaga-lumes, por exemplo, é usada para detectar vida em Marte. Também há uso para marcação de células e para entender o funcionamento do corpo humano e processos biológicos”, relata.

E foi durante estudos sobre os cogumelos que os pesquisadores encontraram a ‘larva iluminada’, que também emite luz, da cor azul, durante a noite. A descoberta virou artigo científico e ganhou repercussão na imprensa internacional.

As larvas possuem três órgãos que emitem luz, dois deles na cabeça e um na cauda — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

As larvas possuem três órgãos que emitem luz, dois deles na cabeça e um na cauda — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

“Além de mim, Henrique e Isaías também são naturais daqui do Vale do Ribeira. É importante dizer que todos os pesquisadores envolvidos foram essenciais para o estudo. Descobrir algo assim é muito gratificante para nós e é um estímulo pra seguir em frente nesse trabalho de pesquisa que nem sempre é um caminho fácil no nosso país”, finaliza Ana.

Larva

Por ser uma espécie nova, até então desconhecida pela ciência, os autores homenagearam o IPBio a nomeando de Neoceroplatus betaryiensis, em referência a larva ter sido encontrada pela primeira vez na Reserva Betary, uma unidade do instituto situada no Sul do Estado de São Paulo.

A Reserva Betary é um Centro de Estudos do Instituto de Pesquisas da Biodiversidade-IPBio, entidade privada sem fins lucrativos destinada à pesquisa e divulgação da biodiversidade dos biomas brasileiros.

Este centro situa-se em Iporanga-SP, em meio a diversas unidades de conservação da Mata Atlântica. A região tem alta ocorrência de espécies bioluminescentes, como cogumelos, vagalumes e, conforme a nova descoberta, mosquitos emissores de luz.

Nome científico da espécie é Neoceroplatus betaryiensis, por ter sido encontrada pela primeira vez na Reserva Betary — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil

Nome científico da espécie é Neoceroplatus betaryiensis, por ter sido encontrada pela primeira vez na Reserva Betary — Foto: Henrique Domingos/IPBio Brasil