Luciano Guimarães: O Meio Ambiente da minha infância

Sem verde, haverá esperança?

Ao longo de minha vida, a memória foi alcançando uma importância ímpar, e me envolvendo de saudade arrebatadora. Assim, a memória foi se preenchendo de muitas lembranças e recordações, trazidas por mim com a mais doce saudade, a ponto, de que na poesia da lembrança, chega parecer-me voltar no tempo podendo reviver os sentimentos de outrora.

Foi na aurora de minha infância querida, o meu primeiro contato com a riqueza da memória, por meio de histórias contadas pelos meus queridos avós e outros idosos.

Morava com minha família, Pai, Mãe e irmão, em Barra de São Francisco, que naquele tempo ainda era uma pacata cidade do interior capixaba. O momento mais esperado, era os finais semana, quando íamos visitar aos meus avós que moravam na zona rural. Na maioria das vezes, o roteiro seguia para Água Doce do Norte, no Vô Jove e Vó Iraci; e ao dia seguinte, retornávamos pelo Distrito de Monte Sinai (Vermelha), pertencente a Barra de São Francisco, aonde o Vô Valdir e Vó Geni, residiam num pequeno sítio.

As visitas aos avós e a vida no sítio, eram de singular alegria e muitas aventuras e descobertas, vividas por mim e os primos e primas. Mas o que tanto me fascinava, era ouvir as histórias contadas pelos mais antigos, relatando como era a região no passado, quando por ali, teriam eles vindo morar.

A cada história contada, eu desenhava imagens e cenários no meu imaginário e vivia inúmeras fantasias e aventuras.

Nos contavam como era a região, as flores e matas, o córregos de águas cristalinas, as viagens à cavalo que chegavam a demorar dias ou semanas, as estradas que era poucas, e na maioria, picadas feitas no meio da mata, e o perigo e risco destas viagens, por contas das onças e demais animais que poderiam encontrar pelo caminho.

Aquelas histórias contadas, eram muito mais que um aventura ao imaginário de uma curiosa criança. Pois transmitiam o conhecimento e registravam na minha memória, a grandes florestas e matas que não pude conhecer, assim como os córregos cristalinos que jamais eu vi; porém, pela recordação dos mais antigos, pude ao menos desenhar por imagens, os contos de suas recordações. Imagina a curiosidade que tive, quando pela primeira vez contaram sobre “antas”, animal que eu nunca tinha visto e que até hoje, nunca vi. Mas que sempre o imaginei, dócil, tímido, e sendo um animal de tamanho grande.

Porém, mesmo sem ter vivido o que meus avós viveram. Tenho a gratidão por ao menos, ter visto alguns resquícios daquele patrimônio ambiental, presente nas histórias que nos contavam.

Nas idas para os sítios, pude tomar banho em alguns córregos, pescar lambari de peneira, conhecer algumas cachoeiras, e mesmo que tão poucas, admirar o verde de algumas pequenas extensões de matas.

Era mágico quando fazíamos o trajeto da cidade para o campo. Assim que a viagem passava do asfalto para a estrada de terra, podíamos naturalmente sentir o cheiro do mato, o frescor do ar puro, todo o clima tomava outra dimensão de sentimentos.

Esta percepção da viagem, é algo praticamente impossível hoje. Devido ao desmatamento das matas, a estrada que já é pavimentada pelo asfalto, além de inúmeros impactos ambientais que vivemos e sofremos.

Outras memórias que tenho, são as cachoeiras, a do Granito em Vila Paulista – Barra de São Francisco, e em Água Doce do Norte, a Praia do Rio Preto e a do Pantaleão.

No hoje, Polo Industrial, após o Trevo das 3 Vendas em Barra de São Francisco, algumas igrejas organizavam tardes de lazer as margens do Rio São Mateus. No Distrito de Monte Sinai, ao final da vila, sentido Rio do Campo, havia uma abertura do rio que por ali passava, era o ponto de encontro da comunidade que proporcionava banho de rio, tardes agradáveis, um ótimo lazer comunitário.

Infelizmente, esta relação com o meio ambiente e aquelas tardes nos rios, cachoeiras, o banho de córrego no sítio, são hoje, apenas lembranças, e quase impossível de acontecer

No tempo de hoje, fico triste em saber que já não existe os rios de minha saudosa infância. Os bem poucos que ainda sobrevivem, são filetes de água poluída, esgotos, lixos, e conteúdos químicos oriundos de venenos, agrotóxicos, resíduos da mineração de rochas etc.

Há sempre aqueles que buscam justificar a ganância humana. Uns dizem que foi o progresso e que foi necessário sacrificar algo. Outros, que foi em prol do avanço e da economia. Eu, penso que nos custou muito caro não ter dado prioridade ao meio ambiente.

Hoje, passados quase 30 anos de minha infância, tenho quase 37 anos de vida. Os queridos avós já descansaram desta existência. E sou eu, que agora busco contar aos mais novos, as histórias que meus avós me contavam. Transmitindo a herança da memória, preservando-a. E, conto de minhas recordações, de meus córregos e aventuras no sítio, as poucas matas que ainda vi. Senão pude passar pelas picadas na mata, conto com magia, sobre como era sentir o ar puro pelas estradas de terra.

No tempo presente, até o que pude viver do meio ambiente, não existe. A não ser pelo imaginário da memória. E de fato, o presente futuro não nos concede muita esperança para a vida e o meio ambiente.

Eu tenho imensa angústia ao pensar assim, pois temo que as futuras gerações, meus futuros filhos e netos, nem mesmo, terão alguma memória para transmitir sobre os pouquíssimos rios que ainda sobrevivem hoje.

É assombroso estar vivendo anunciados impactos ambientais e inúmeras alterações de nosso ambiente, que por décadas foram previstos sem que nada sensibilidade a ganância material.

Em especial, o território dos municípios de Barra de São Francisco, Água Doce do Norte, Vila Pavão, Nova Venécia, São Gabriel da Palha, São Domingos do Norte, Águia Branca, Pancas, Alto Rio Novo e outros tantos, tem vivenciado contínuo aumento do período de seca, crises hídricas, e já a algum tempo, inseridos no semiárido brasileiro, considerados zonas de desertificação.

Espanta-me que a maior parte das ações ditas preventivas, sejam de pouco eficácia, apenas para curto prazo, e com finalidade econômica, sem se preocupar com o meio ambiente.

Faz poucos anos, quando foi veiculada uma matéria no Fantástico (Rede Globo) sobre um agricultor do município de Vila Valério, que se dedicou a reflorestar ao seu sítio, mesmo tendo sido aconselhado por outras pessoas vende-lo.

Contudo, 10 anos depois de reflorestar o terreno, a terra voltou a ser fértil e com boa qualidade para o manejo da agricultura. Mais do que o cultivo agrícola, com a maior parte dos municípios sofrendo com a crise hídrica e o racionamento de água, ao que me lembro sobre a matéria, a Prefeitura local passou a necessitar captar água justamente na propriedade deste dedicado agricultor.

Ou seja, imaginem que cada um dos fazendeiros e agricultores locais de nossas cidades, pudessem de forma integrada e coletiva, reflorestar as suas terras, formando extensos corredores verdes desde Águia Branca até Ecoporanga, e em outros municípios da região. Quais resultados poderão ser alcançados?

Não seria esta proposta com maior sustentabilidade e com melhor resultado do que a construção de barragens? Entre estas duas ações, reflorestar ou as barragens, qual teria melhor custo benefício? O que seria mais eficaz, um projeto com estratégia para médio e longo prazo? Ou um projeto com altos custos públicos, beneficiando empreiteiras e construtoras, com resultado a curto prazo e sem garantias futuras?

Penso que o que se tem feito, é muito pouco e visa solucionar uma parte apenas. Como se diz um verbo popular: “Enxugando água com gelo”. As barragens alteram o curso do rio, e por outro lado, importante saber que não havendo árvores, meio ambiente saudável, pode não haver chuvas e muito menos, rios… Então o que será das barragens e crateras?

– Senão houver um meio ambiente saudável que gere a um solo fértil, se continuarem exterminando os nossos rios, como também praticando o compulsivo uso desenfreado de nossos recursos naturais. O que será do amanhã? De nós? Da vida? Das próximas gerações?

Pensando assim, transborda em mim, angústia e muito medo. O olhar se preenche de lágrimas que inundam a face.

Certa vez, durante as filmagens do filme “Os Caminhos do Rio São José”, eu ouvi de uma professora que residia as margens do rio:

“Precisamos agora, hoje, urgente, preservar ao meio ambiente. Porque senão, daqui alguns anos nos nossos rios, ao invés de água, correrá por eles, lágrimas de sangue”.

Envolto das memórias que tenho, das recordações e o amor pelo meio ambiente. Preocupado com o amanhã, pergunto:

“Sem verde, haverá esperança?”

Escrevo ao final deste texto, com sincero carinho através de uma mensagem para os nossos adolescentes e jovens de hoje:

– “Jovens, mais do que nosso futuro vindouro, vocês são o nosso presente. Não se calem! Aceitem ser no agora, o momento de reafirmação da vida! Não sejam tímidos! Questionem! Ocupem aos diversos espaços e defendam ao direito de terem um futuro com condições saudáveis de vida humana e do planeta terra”.

– “Não se intimidem com as nossas falhas e com a ganância de nossa geração. Sejam o futuro no presente de agora, façam a diferença! Liderem os nossos passos rumo ao amanhã”!

Contem comigo! Eu acredito em vocês!

Por Luciano Guimarães de Freitas
Poeta, Produtor Cultural, Cineclubista e Realizador Audiovisual.
Coordenador do Cineclube Eco social.