Ministério Público diz que empresa lucrou R$ 60 milhões com esquema criminoso no Sul do Espírito Santo

O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) detalhou nesta quinta-feira (9) como agia o grupo suspeito de envolvimento no recebimento de propina vinda de um empresário dos ramos de limpeza pública e transporte coletivo nos municípios de Presidente Kennedy, Marataízes, Jaguaré e Piúma. A empresa era beneficiada em licitações de serviços das prefeituras e teria lucrado R$ 60 milhões em contratos. Em troca, repassava dinheiro para os funcionários públicos.

Segundo as investigações do MPES, o empresário que administra a empresa visitava agentes políticos e servidores municipais mensalmente para pagar propinas que chegavam a R$ 33 mil cada malote. O esquema começou a ser investigado em 2017 e foi desarticulado nesta quarta-feira (8).

“A investigação se iniciou a partir de notícias anônimas em depoimentos testemunhais indicando, de fato, que o companheiro da prefeita de Presidente Kennedy, José Augusto Rodrigues de Paiva, seria o gestor da cidade e a prefeita, Amanda Quinta, omitiria deliberadamente. Eles celebrariam como gestores do município contratos com empresas, em especial transporte coletivo e limpeza urbana, mediante uma contraprestação financeira indevida, que era paga pela população da cidade”, explicou o promotor de Justiça Vitor Anhoque Cavalcanti.

Prefeita de Presidente Kennedy, Amanda Quinta, foi presa nesta quarta-feira (8) — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Prefeita de Presidente Kennedy, Amanda Quinta, foi presa nesta quarta-feira (8) — Foto: Reprodução/TV Gazeta

A prefeita Amanda Quinta, o marido dela José Augusto Rodrigues de Paiva, o empresário dono da empresa e mais dois assessores da prefeitura de Presidente Kennedy foram presos em flagrante na noite desta quarta-feira (8). O grupo estava reunido na casa da prefeita. Com eles, os agentes do MPES encontraram uma mochila com R$ 30 mil em espécie. Duas armas sem registro também foram apreendidas com os suspeitos.

“Escolhemos datas aleatórias para confirmar que poderíamos identificar um padrão e assim fizemos. Nas três vezes comprovamos a mesma dinâmica de chegada do empresário do Rio de Janeiro. Ele fazia esse pagamento pessoalmente. O empresário se dirigia ao banco para fazer o saque dos valores, seguia para a casa da prefeita e ficava lá pouquíssimo tempo, o que nos indica que ali ele permanecia apenas para a entrega do valor em dinheiro”, comentou o promotor.

Empresário do Rio de Janeiro levava dinheiro de propina para a casa de Amanda Quinta — Foto: Reprodução/TV Gazeta
Empresário do Rio de Janeiro levava dinheiro de propina para a casa de Amanda Quinta — Foto: Reprodução/TV Gazeta

Também foram cumpridos cinco mandados de afastamento funcional de agentes públicos, 11 de proibição de acesso às dependências de órgãos públicos e 25 mandados de busca e apreensão pelos agentes em Presidente Kennedy e nas outras três cidades investigadas.

“Presidente Kennedy é um município onde tem os royalties do petróleo e uma movimentação financeira muito grande. Isso levou a atividade do Ministério Público a ter um olhar diferenciado na administração pública daquela cidade”, comentou o subprocurador geral Josemar Moreira.

Prefeita afastada

O MPES pontuou que, mesmo em caso de soltura por meio de audiência de custódia, a prefeita Amanda Quinta está impedida de reassumir o posto no comando na prefeitura da cidade em um prazo de pelo menos 60 dias. O vice-prefeito Dorlei Fontão assume o cargo.

Crimes

Os crimes investigados são: organização criminosa, lavagem de dinheiro, falsidade documental, fraude em licitações e corrupção ativa e passiva.

As pessoas presas foram encaminhadas para o Centro de Detenção Provisória de Cachoeiro de Itapemirim (CDPCI), onde aguardam passar por audiência de custódia.

Próxima etapa

A partir de agora, a equipe responsável vai analisar documentos, computadores e dados colhidos durante a operação. Vai também ouvir, nas próximas semanas, depoimentos de investigados e testemunhas.

Ao todo, cinco membros do Ministério Público (um procurador de Justiça e quatro promotores de Justiça) coordenam os trabalhos, auxiliados por 22 agentes do Gaeco e por policiais militares.

Outro lado

A assessora de imprensa da Prefeitura de Presidente Kennedy ainda não se manifestou sobre as prisões.

A Prefeitura de Piúma disse que reúne documentos firmados com a empresa que prestar serviço de limpeza na cidade para entregar ao MPES.

A Prefeitura de Jaguaré informou que ainda não foi notificada formalmente pelo MPES sobre a operação e os mandados de busca e apreensão.

A Prefeitura de Marataízes declarou que está colaborando com as investigações.