Dona Iná Rodrigues – A ENFERMEIRA

Histórias de Barra de São Francisco

Por Edivaldo Machado Lima

Tinha 04 anos, quando ouvi falar em VACINA. Fui levado inocente pelo meu pai até próximo da igreja católica onde funcionava um POSTO de SAÚDE numa pequena casa com dois degraus de madeiras.

Os meninos chegavam e saiam, olhando assustados para a direção do POSTO de SAÚDE. Fui levado sem nenhuma preparação, não atinava para o que acontecia dentro da pequena casa.

Uma criança chorando, arrastada pela mãe, sai do pequeno quarto. Um rosto sorridente aparece. Era Dona INÁ, a enfermeira da cidade, vestida de branco, que nos convida para entrar. Meu pai entra na frente segurando a minha mão. Tímido olha na direção de DONA INÁ, que tenta me agradar.

“Não vai doer não, é igual à mordida de uma formiguinha.”

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Ela se volta para a parede e estende as mãos na direção do estojo que estava sobre a mesa. Dentro do estojo, a água fervia; sob o estojo, o álcool em combustão.

Observo aquela movimentação, com estranheza e medo. DONA INÁ tira cuidadosamente do estojo a seringa, o êmbolo e a agulha.

Com habilidade, ela junta a agulha na seringa, introduz o êmbolo e pressiona para tirar o restante da água. Em seguida, apanha um pequeno frasco com um líquido e enche a seringa. Depois é introduzido noutro frasco cuja tampa de látex a agulha perfurou.

Dona INÁ agita o vidro, mistura o líquido e um pó. Em seguida, a agulha entra no vidro e suga aquela mistura leitosa: Agora o Sr segura ele no colo.

Assustado, lembrei-me do dia em que vi uma agulha comprida e fina sendo fincada no braço de minha mãe.

Desesperado, começo a chorar no colo de meu pai. Minhas calças são arreadas, sinto medo e muita vergonha. Passam um algodão com álcool e em seguida aquela agulha fina fura minha pele e injeta o líquido devagar.

Chorei muito, mesmo depois que saímos daquele lugar. Era dor e vergonha ao mesmo tempo. Tive pesadelos com a imagem de DONA INÁ segurando a agulha no ar e caminhando em minha direção.

Dona INÁ era uma pessoa boa, mas fiquei traumatizado, e dela fugi durante muitos anos. Temia a agulha e sentia vergonha das calças arreadas.

Fonte: PERLY CIPRIANO- “Livro VAI QUEM QUER”