Por Afonso Ferreira, Vera Souto e Vinícius Leal, G1 DF e TV Globo

Sueli Gomes da Silva Rochedo, de 56 anos, tinha 18 anos quando viu pela última vez o filho. O bebê, recém-nascido foi levado da porta da maternidade, no Distrito Federal, em 1981.

Essa semana, depois de 38 anos de buscas, a brasiliense reencontrou o filho na casa onde ele mora, na Paraíba. A criança, que Sueli chamou de Luiz Miguel ao dar à luz, foi localizada pela Polícia Civil do DF no ano passado, após 6 anos de investigações.

Ele foi registrado como Ricardo Santos Araújo. Um exame de DNA, que ficou pronto no dia 24 de abril, comprovou que o corretor de imóveis que vive no Nordeste é, de fato, o recém-nascido sequestrado no Distrito Federal.

O reencontro entre mãe e filho foi na terça-feira (30).

O nascimento de Luiz Miguel

Sueli Gomes da Silva Rochedo, de 56 anos, tinha 16 quando teve seu bebê raptado no Hospital do Gama em 1981 — Foto: Divulgação

Sueli Gomes da Silva Rochedo, de 56 anos, tinha 16 quando teve seu bebê raptado no Hospital do Gama em 1981 — Foto: Divulgação

Sueli Gomes da Silva Rochedo perdeu a mãe quando tinha 7 anos. Era a mais velha de cinco irmãos.

Ela conta que o pai, alcoólatra, batia nos filhos. Foi o avô quem decidiu levar as cinco crianças para o orfanato que havia na região do Guará, no Distrito Federal, em 1970.

Ainda morando no orfanato, Sueli ficou grávida. O bebê, que ela chamou de Luiz Miguel, nasceu no dia 9 de fevereiro de 1989, no Hospital do Gama.

Sueli lembra que foi para o hospital acompanhada por funcionários do orfanato. Ao receber alta, disse que foi convencida a deixar o filho com o casal da instituição onde morava enquanto faria uma ligação telefônica para a gestora do abrigo.

Ela diz que caminhou cerca de 20 metros até um orelhão, de onde falou com a mulher. Ao voltar, não encontrou mais o recém-nascido.

Durante o telefonema, a gestora do abrigo teria afirmado que não queria o bebê na instituição. Sueli explica que foi obrigada a “permanecer calada e a não tocar mais no assunto”.

Ainda adolescente, ela aponta que foi levada a farmácias para tomar remédios que fizessem o leite secar. Anos mais tarde, a mulher do abrigo contou que o bebê havia morrido.

“Era um mix de sentimentos. Uma pessoa em que eu acreditava dizia que ele morreu, mas pensava: ele tinha morrido de quê?”.

A investigação

Em 2013, Sueli Gomes da Silva Rochedo decidiu levar o caso à polícia. Segundo o delegado Murilo de Oliveira, da 14ª DP, na época, a polícia tinha, pelo menos, 15 linhas de investigação.

Uma delas levou os agentes ao porteiro do médico que fez o parto da jovem, no hospital do Gama. Em depoimento, o porteiro disse que registrou a criança com o nome de Ricardo Santos Araújo em 11 de fevereiro, dois dias após o nascimento. Mas não informou à polícia como recebeu o bebê.

Na época, o registro indevido de criança não era considerado crime. O caso foi arquivado e o porteiro não vai responder criminalmente. A principal suspeita do crime, a gestora do orfanato, morreu em 2012, antes que Sueli registrasse ocorrência.

Segundo o delegado Oliveira, a polícia não encontrou registros do nascimento da criança no hospital do Gama. Mas durante as investigações, Sueli lembrou de um detalhe que foi foi fundamental para a investigação: o bebê havia nascido com os dedos grudados.

“Quando localizamos o rapaz, ele disse que tinha feito uma cirurgia para separar os dedos. Era demais para ser coincidência.”

Depois do encontro entre Sueli e Ricardo, mais uma coincidência: as duas mães dele fazem aniversário no mesmo dia. Sueli diz que não guarda mágoas.

“Pela luz do céu, não sinto ressentimento. A gente só dá o que tem. Mesmo jovem, não permiti que o que eu tinha passado me transformasse em uma pessoa ruim.”