Por Bruna Littig e Cleiton Augusto Soares, G1 ES

Em meados de 2018, o embalador Valdisney Alves, de 28 anos, descobriu que tem o vírus HIV. Ele está no grupo que representa o principal perfil de pessoas diagnosticadas com AIDS no país, neste ano, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde. Ele é homem, negro e homosexual.

Neste sábado (1), Dia Mundial de Luta Contra a Aids, o Val, como é conhecido pelos amigos, compartilhou própria história de vida e quer chamar atenção para a busca pelo diagnóstico da Aids. No Espírito Santo, pelo menos 1.500 pessoas têm a doença e não sabem, estima a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).

O Val descobriu o vírus depois de sentir alguns sintomas. “Tinha vontade de ir ao banheiro toda hora e resolvi ir ao médico. Não é um diagnóstico fácil de receber. Depois que saí de lá, fui à praia e fiquei olhando o mar por horas”, contou.

Quando foi conversar com a reportagem, apesar de topar se identificar pelo nome, o Val preferiu não mostrar o rosto. Ele ainda não conseguiu falar para a mãe. Da família, apenas duas primas sabem. Elas e os amigos mais próximos confortaram o Val, que já começou o tratamento.

Nos últimos 10 anos, a taxa de detecção de Aids em homens triplicou, no Espírito Santo. Em 2006, havia 13 homens para cada mulher e, em 2016, subiu para 33 homens para cada mulher, conforme levantamento da Sesa.

Falta de prevenção

Para a coordenadora Estadual de DST e Aids, Sandra Fagundes, o problema está na falta de prevenção. “As pessoas não estão se preocupando e se cuidando, especialmente os homens. A falta de prevenção nas relações homossexuais é um exemplo, deve-se usar o preservativo em todas as relações sexuais”, alerta.

O não uso da camisinha fez com que o Isaque de Oliveira, de 22 anos, se tornasse soropositivo logo no início da vida sexual. Segundo ele, que faz tratamento há mais de dois anos, a falta de informação também foi um agravante.

“Eu tinha 19 anos e fui infectado na minha primeira relação. Percebi uma ferida no órgão genital mas não imaginei que fosse isso. Fiz o teste rápido no mesmo ano e fiquei desesperado. Achava que já estava com Aids e que ia morrer, mas como eu descobri no início, fiquei indetectável no primeiro mês de tratamento. Procurei me informar mais e agora ajudo outras pessoas”, explica.

Descobrir antes é fundamental para iniciar logo o tratamento. O HIV é um vírus causador da AIDS. Ele ataca o sistema imunológico, responsável por defender o organismo de doenças e pode se manifestar de 5 a 10 anos após a transmissão.

Ou seja, assim como a prevenção, ela ressalta que a rapidez nodiagnóstico impede que o vírus se desenvolva. É possível fazer o teste rápido em toda unidade básica de saúde e o resultado sai em minutos. A própria pessoa pode chegar e pedir para fazer o teste, não é necessária solicitação de um médico.

Queda

Segundo o Ministério da Saúde, houve queda no número de novos casos e óbitos por Aids no país. O novo Boletim Epidemiológico mostra a redução de 16% nos casos de óbitos de Aids.

De 2007 até junho de 2018, de acordo com o Boletim, a região Sudeste registrou 47,4% dos 117.415 casos de infecção pelo HIV.

Só em 2018, a quantidade de casos foi de 17.248, no país. A região Sudeste registrou 6.521 casos.

Gestantes

De acordo com o Boletim, o número de gestantes infectadas por HIV tem apresentado uma pequena tendência de aumento no país.

Com base nos testes rápidos distribuídos pela Rede Cegonha tem sido possível constatar essa realidade.

Teste rápido de HIV  — Foto: Caroline Aleixo/G1

Teste rápido de HIV — Foto: Caroline Aleixo/G1

Desde 2012, foram distribuídos 17.062.770 de testes rápidos, até outubro de 2018, segundo o Ministério da Saúde. Esses testes rápidos distribuídos no país somam 36,4%.

A taxa de detecção de HIV em gestantes teve um aumento de 21,7% em dez anos.

O número de casos foi de 2,3 mil/casos nascidos vivos em 2007. Em 2017 aumentou para 2,8 mil/casos nascidos vivos.

O pré-natal e a prevenção da transmissão vertical do HIV são as razões para o aumento no número de casos.

Apoio

O apoio de ONGs, redes, amigos e familiares durante o diagnóstico e o tratamento foi importante para a Roselly, de 51 anos. Ela mora em Linhares, Norte do Estado, e é voluntária na Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV e Aids (RNAJVHA).

Foi através de um ato solidário dela para ajudar uma amiga que a descoberta do vírus veio à tona. Na época, em 1995, essa amiga estava muito magra e as pessoas próximas desconfiavam da doença.

“Com muito jeitinho, convencemos ela a fazer o teste. E uma das suas exigências era que eu e um grupo de amigos fossemos juntos. Fomos em 13 pessoas e em nenhum momento eu podia imaginar o meu resultado positivo. Nunca suspeitei, pois eu não fazia parte do grupo de risco. Fui a única premiada”, relata.

Foi por causa da amiga que ela iniciou o tratamento cedo, controlou a carga viral e aprendeu a ver o mundo de outra forma.

Ela conta que encontrou força nos seus quatros filhos, pois queria estar bem para acompanhar o crescimento deles. O mais velho é biológico e tinha um ano quando ela descobriu. Aí, mais uma vez, outra coincidência aconteceu em sua vida.

“Após saber, meu maior medo era que o meu filho tivesse herdado de mim, mas como eu tive uma secreção na mama, não consegui amamentar. E olha que eu tinha muita vontade de amamentar, mas essa infecção livrou meu filho de ser marcado para sempre, graças a Deus”, diz.

Há 22 em tratamento, ela desenvolveu algumas complicações, como a glaucoma que praticamente a impede de enxergar. “Perdi a versão esquerda e tenho baixa visão no outro olho. Ando com bastante insegurança, tenho muito medo de cair. Por isso, estou estudando braile, porque eu ainda leio com forma ampliada, mas estou aprendendo para me prevenir, porque o glaucoma é uma doença progressiva”, conta.

Desde 2006, ela faz parte de uma rede de apoios a pessoas com HIV e Aids e conversa com mulheres grávidas soropositivo. “Para ajudar outras pessoas, eu acabo contando a minha história, me exponha para ganhar confiança e me torno um ponto de apoio para muitas pessoas. É muito importante essa fala para as mães soropositivos, porque elas não podem de forma alguma amamentar o seu bebê”, conclui.

SAIBA mais sobre diagnóstico da Aids

QUEM PODE?

Segundo a coordenadora do Programa DST/Aids da Sesa, Sandra Fagundes, todas as pessoas acima de 16 anos podem fazer o exame de HIV. Ele não é indicado para crianças e jovens até 15 anos.

COMO FAZER?

Existem três tipos de exames sorológicos para saber se a pessoa é HIV positivo.

O primeiro pode ser feito nos laboratórios e é conhecido como Exame Elisa Anti-HIV. O tempo de entrega do resultado depende do laboratório.

O segundo é o teste rápido do HIV no sangue. Ele é feito por punção do dedo e com uma gota de sangue é possível realizá-lo. O resultado sai em 15 minutos. O exame está disponível em todos os serviços de saúde e deve ser feito por profissionais treinados.

A terceira opção é o teste rápido do HIV no fluído oral. Ele é feito com material da boca do paciente. O resultado sai em 20 minutos. O exame está disponível gratuitamente nas testagens feitas pelas organizações não governamentais parceiras e deve ser feito por profissionais treinados.

QUANDO FAZER?

Vida sexual ativa

As pessoas com vida sexual ativa devem procurar regularmente as unidades de saúde mais próxima de casa para fazer o exame de HIV e Sífilis.

Exposição material biológico

Em casos de situação de exposição a material biológico de risco (sexualmente ou por exposição a agulhas e material contaminado). Neste caso, a pessoa tem que procurar um pronto atendimento ou serviço de Aids para fazer o teste e iniciar o uso de antirretroviral como profilaxia pós-exposição (PEP)

IMPORTÂNCIA DO EXAME

Campanha “Faça seu teste”

Quando a pessoa descobre que é infectada pelo HIV e ainda não tem nenhum sintoma da doença (diagnóstico precoce), ela inicia o tratamento antirretroviral o mais rápido possível (tratamento precoce) e isso é muito importante para que a pessoa não desenvolva a doença.

ONDE FAZER?

Todas as unidades básicas de saúde. Nos últimos quatros anos, a A Secretaria de Estado da Saúde, por meio da Coordenação Estadual de DST Aids, distribuiu mensalmente testes rápidos de HIV e de Sífilis para todos os 78 municípios do estado. No ano passado, 980 mil testes rápidos foram enviados para todos os municípios. O Espírito Santo tem 26 serviços de atendimento especializado DST/Aids e Hepatites Virais (SAE) distribuídos em todo o estado. 44 municípios possuem Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA).