Por Jader Alves Pereira

Historicamente se sabe que a  primeira localização do cemitério de Barra de São Francisco obedeceu a uma tradição de sempre sepultar as pessoas atrás ou bem próximo das capelas, as pequenas igrejas do interior. E ali próximo onde se situa o Clube das Perobas, foi colocado o primeiro cruzeiro e rezadas as primeiras missas. Então, por ali começou o primeiro cemitério. Em uma cidade quente, de clima bem tórrido, a melhor localização em relação ao vento pertencia aos mortos.

Como próximo dele ninguém se aventurava a morar, as primeiras casas da área foram barracos de boêmios, de prostitutas, que fundaram uma área de bordéis imensa, que começava atrás do cemitério e  ia até o outro lado da colina, em cima do Bambé, onde morava um dentista que era pai do João Batista e o Milton ( que ouvia Nico Fidenco o dia todo) e o Vovozinho, respeitado macumbeiro.

O cemitério freava a muitos moços e homens  “ de bem” que queriam visitar a área de libertinas, pois eram tempos de muitas histórias de “ aparições” na área. Aliás, o único que se aventurou a morar por ali foi o Capitão Tatagiba, que fez uma bela casa próximo ao clube, e aceitava tranquilamente a vizinhança. Nas festas do Clube das Perobas isso foi um freio para que muitos jovens não saíssem para fora, para  namorar.

Um dia o prefeito (foi o Joaquim Alves?) resolveu mudar o cemitério. Avisou às famílias que tomassem providencias em relação aos seus mortos para que os despojos ganhassem um novo endereço após a Rua Mineira. Foi um trabalho difícil para muitos, ter que  desalojar entes queridos sepultados ali há décadas.

Grande parte da cidade, que  cresceu com medo de olhar para cima (principalmente os das ruas Elizeu Divino e Rio de Janeiro), assim como a comunidade do Campo Novo, agradeceu. E os morros mudaram de lar. Na parte mais central do cemitério fizeram uma profunda escavação, com desalojamento de centenas de ossadas de sepultados sem identificação e construíram o Hospital Dra. Rita de Cássia.

O velho cemitério, local de derramamento de muitas lágrimas, de muitas cenas de angústia e desespero  não existia mais. Será que as novas gerações  conhecem essa história? Ou dos casos  de mulheres que olhavam para cima e descobriam lá no alto seus maridos dando escapadelas e partiam nessa direção aos gritos de “ volta prá casa, safado?” .

Como dizia um velho filme encenado por Vivien Leigh e Clark Gable, “ E o Vento levou” .

Jader Alves Pereira

Teólogo, Jornalista, Radialista e Historiador, nascido em Barra de São Francisco

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