Edivaldo Machado Lima

“ASSOMBRAÇÃO NA ZONA LITIGIOSA”

Velório em Barra de São Francisco / ES

Velório na roça sempre é uma festa. Geralmente acontece de tudo. A Viúva nunca sai de perto do caixão. O choro convulsivo parece esquecer os maus tratos a que era submetida e que estão visivelmente estampados, no rosto envelhecido pelo tempo. As vizinhas fofoqueiras, que tanto infernizavam o falecido, sempre a seu lado a consolá-la:

– Era um grande homem!

Uma roda de amigos sempre se forma, do lado de fora da casa ou da igreja, onde normalmente são realizados os velórios.

Entre uma e outra rodada de café com pão com salame ou uma dose de cachaça, relembram passagens interessantes do finado. E é uma risadeira geral. As amantes, contritas, chegam cobertas por véus pretos, sem poder manifestar sua dor para não chamar a atenção. Os parentes distantes começam a chegar de todas as partes e alguns até nem se conhecem mais:

– Será que estou enganado ou você é o primo Anísio?

– Sou eu mesmo.

– Como você está gordo! E titio, como vai?

– Papai faleceu há 10 anos!

– Ah! Meus pêsames, primo!

Conta-se que, certa feita, lá pelas bandas do Contestado ES/MG, um velho fazendeiro havia falecido e, enquanto seus amigos bebiam o defunto, o capataz da fazenda e seu filho foram até a cidade comprar o caixão, em uma caminhonete. Na volta, com a urna já na carroceria, encontram um amigo do falecido, conhecido como compadre Bené. Este, era assim chamado por ser pai de 19 filhos, o que o tornara compadre de muita gente no lugarejo. Já meio bêbado, e desgostoso pela morte do amigo, pede carona.

– Se você não tem medo de viajar junto com caixão, pode subir.

– Não tenho medo algum! Vou tomando conta da última morada do meu amigo.

Uma chuva forte começa, e para não se molhar, pois a viagem era uns dez Km ( Mantena MG a B S Francisco/ES), compadre Bené, num gesto de coragem e incentivado pelas doses da “branquinha”, resolve se esconder dentro do caixão. Então adormece. Logo à frente no Povoado de Bananal encontram um desconhecido que acreditavam estar indo para o velório. Este também pede carona ao capataz, que avisa:

– Pode subir! Já tem outro aí. Assim você faz companhia para ele.

Ao subir na carroceria da caminhonete e vendo somente o caixão, o desconhecido fica muito assustado. Encolhido em um canto, e coberto com uma capa de chuva, torce para a viagem acabar logo. Assim se livraria do incômodo “companheiro” de viagem.

Ao passarem por pelo Patrimônio das Moças, o barulho da reza das beatas do Padre Zacarias e o burburinho das vozes despertam compadre Bené que, abrindo vagarosamente a tampa do caixão, e vendo o desconhecido, pergunta:

– Parou de chover, companheiro?

O que se viu a seguir foi um verdadeiro rebuliço, com o desconhecido e as beatas que acompanhavam a procissão saindo em disparada ladeira abaixo, derrubando o andor do santo, as cercas e a Plantação de milho de Sr Uzenil Resende que ficava ali nas proximidades.

Causo – Edivaldo Machado Lima-
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