Por Pedro Burgos

6574f870-b477-11e4-a94e-55869ab23a46_youtube_630Parece mais tempo, mas faz só uma década que o domínio youtube.com foi registrado. Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim, os criadores do site, já mudaram a história algumas vezes: ora eles dizem que não havia na época um serviço decente para compartilhar vídeos domésticos, ora aparecem com a teoria de que o YT seria um site de paquera, ou uma ferramenta para ver melhores momentos da TV. Pouco importa agora.

O que ficou claro é que a tecnologia que eles criaram de compressão de vídeos, e a facilidade de enviar e compartilhar imagens em movimento pela internet (mesmo com aquela conexão vagabunda que tínhamos em 2005) revolucionou a internet, e teve impacto quase que imediato na nossa cultura. Vendo a oportunidade, o Google pagou mais de 1 bilhão de dólares pelo site, a tecnologia e a equipe, pouco mais de um ano depois de ele entrar no ar. Parecia um monte de dinheiro à época. Mas hoje, considerando que o Youtube fatura mais de 1 bilhão por trimestre só em publicidade, tem cerca de 1 bilhão de usuários registrados e mais de 300 horas de vídeo são enviadas ao site a cada minuto, parece uma barganha.

E não é só em termos de publicidade (por vezes irritante), que o Tubo é importante. Ele parece hoje ser parte inseparável da nossa experiência na internet, tanto que mal percebemos que ele está em todos os lugares – justamente porque o Google teve logo a sacada de que as pessoas não deveriam ter que digitar youtube.com no navegador para ver o Youtube. Com a tecnologia de “embed”, encontramos os vídeos com borda vermelha nas redes sociais ou em sites de notícias, de piadas que todo mundo está comentando a campanhas de horários políticos, ou um gol que havíamos perdido. O Youtube é a nossa TV coletiva, com infinitos replays que todo mundo tem acesso, de qualquer lugar (com conexão boa).

O Youtube foi essencial por democratizar a produção, e fomentar uma cultura de vídeos amadores, novos talentos, e novas categorias, que nunca teriam espaço na TV tradicional, aberta ou fechada. OYOU do nome sempre alimentou essa ideia de que a internet poderia ser uma ferramenta de comunicação de uma pessoa para infinitas outras. No Youtube, cada um é a sua própria emissora, e com um serviço gratuito e um engenhoso sistema de publicidade, o Google ajudou a financiar carreiras antes improváveis.

Cada um tem uma listinha, mas aqui está a minha de 10 vídeos que definem por que o Youtube é tão importante:

1. O show de talentos infinito – O Pentatonix, grupo vocal americano formado em 2011, foi ignorado pelas gravadoras – afinal, não há muito espaço para música a capella em rádios ou TV. Mas os jovens resolveram despejar o seu talento no Youtube. Virou um dos 50 maiores canais do mundo, com covers peculiares. Aliás, essa é outra marca do site, que revelou centenas de pessoas que de outra forma ficariam confinadas à cantoria no chuveiro. O Pentatonix é a história de sucesso: eles acabaram de ganhar um grammy, por seu medley de músicas do Daft Punk, com mais de 100 milhões de visualizações. E assinaram com a gravadora que havia os esnobado antes.

2. Youtube Kids – Não há mais programas infantis na TV aberta, mas há uma quantidade infinita de diversões animadas para as crianças no Youtube. Os amigos Juliano Prado e Marcos Luporini sacaram antes de quase todo mundo o potencial do canal para chegar à molecada, que hoje maneja tablets e smartphones com naturalidade. A partir do sucesso do canal da Galinha Pintadinha no Youtube, eles venderam uma variedade de produtos licenciados, e com mais de 1 bilhão de visualizações, ficaram milionários. O gênero infantil é certamente dos que mais dá audiência, e o melhor: há muito conteúdo educativo, do genial Pocoyo ao grupo Palavra Cantada.

3. O “gatinho surpreso” – Uma pesquisa recente mostrou que entre os usuários de internet que enviaram vídeos ao Youtube em 2013, quase metade mandou alguma estripolia de um bicho, como essa aí de cima. Animais de estimação sempre nos atraíram, e as fotos são sucesso garantido, mas com o Youtube, gatos, cabras e pandas chegaram a um outro patamar na cultura pop.

4. Um passinho pra dentro – O Youtube permitiu à periferia se comunicar com ela mesma e o resto do mundo, sem intermediários. Dificilmente programas de rádio, ou a MTV colocariam algo como o dançarinho Fezinho Patatyy fazendo o passinho do Romano sobre a música de MC Dadinho, mas no Youtube eles conseguiram mais de 30 milhões de visualizações, convites para shows e até estrelar um documentário. Pela plataforma, diversas estrelas foram criadas, independente do background, dos roqueiros do OK Go a Justin Bieber. No Brasil, o funk ostentação, por exemplo, não existiria sem os vídeos em que eles ostentam.

5. A nova e melhorada MTV – É claro que a estrutura de vídeos não serve apenas aos novatos. Os videoclipes de estrelas pop são a maior fonte de audiência do Youtube, em média de visualizações. As superproduções, sejam de Katy Perry, Justin Timberlake ou Lady Gaga, são eventos por si só. E apesar de altamente visuais, muitas vezes as músicas são só ouvidas, já que muita gente usa as playlists do Youtube como rádio. O PSY, que escolhi aí, é relevante porque ele é fruto dos nossos tempos: só por causa do alcance global da plataforma temos fenômenos como o coreano, que produziu o primeiro vídeo a ter mais de 1 bilhão de visualizações (hoje com 2,24 bi, e contando), em uma língua que não faz sentido pra gente.

6. A fofura comercializável – O vídeo mais assistido de crianças provavelmente é o Charlie Bit my finger, mas o do bebê rasgando o papel é importante porque além de enriquecer os pais por algo banal, ele nos lembra como a publicidade está toda hora se aproveitando dos memes, para testar o que chama a atenção das pessoas. O Itaú recriou o vídeo aí em cima e teve milhões de visualizações. Com o Youtube, estamos em uma época onde as pessoas ativamente assistem publicidade, se ela for legal.

7. A pegadinha global – Em um curto espaço de tempo no início de 2013, pipocaram milhares de vídeos com versões de 30 segundos de pessoas fazendo a mesma coreografia de Harlem Shake. Daqui a algum tempo ninguém vai se lembrar, mas aquela maluquice ilustra o tanto que o Youtube é a plataforma ideal para remixar e entrar em uma brincadeira global. Seja dançando alguma coisa, fazendo imitações de clipes (como de Happy), ou propagando algo como o desafio do balde de gelo, podemos fazer parte da mesma piada, com vídeos.

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8. As notícias comentadas – Você já deve ter topado com John Oliver, que apesar de tecnicamente não ter sido “cria do Youtube”, inegavelmente ganhou mais projeção por ali – as emissoras mais espertas aproveitam o espaço para lançar os melhores momentos de seus programas. O âncora britânico também é estrela de um tipo de vídeo favorito do Youtube: o de comentários sobre notícias com humor (ou bastante revolta). No Brasil, Felipe Neto ou Cauê Moura, com mais palavrões e alguns gritos, fizeram sua fama assim.

9. TV Pirata 3.0 – O humor na TV está geralmente empacado em fórmulas antigas, mas no Youtube ele está se reinventando o tempo todo. Por ali os comediantes de “stand-up” fizeram sua fama, e um sem número de trupes de esquetes ganharam milhões de seguidores, contratos de publicidade e até espaço no cinema ou na “velha mídia”. Com produções caprichadas, canais como o Porta dos Fundos, Parafernalha, ou Só 1 minuto mostram que Zorra Total já era.

10. TV para jogar – O canal de Felix Arvid Ulf Kjellberg, vulgo PewDiePie, é o mais popular do Youtube, com 34 milhões de “assinantes”, uma audiência surreal. Ele ganhou tudo isso em larga medida fazendo os chamados vídeos de “Let’s Play”, onde a pessoa joga algo no videogame e conta o que está acontecendo, faz piadas e comentários. Há vários desses no Brasil, e ajudou a criar o peculiar fenômeno de pessoas que preferem ver os outros jogando a jogar.

Com isso dá para ter uma ideia da dimensão da mudança de hábitos que o Youtube provocou. E é difícil imaginar que ele perca a sua relevância algum dia, já que ele é quase que a Globo da internet global. Mas, tudo isso posto, é bom o Google ficar de olho: o último clipe da Madonna, por exemplo, estreou no Snapchat, que criou uma impressionante plataforma para veículos de mídia tradicional. O Facebook está crescendo absurdamente a sua plataforma de vídeos, que é até mais rápida, tecnologicamente. Muita gente dos vídeos de videogame está se mudando para o Twitch. A cobertura de moda, nos Fashion Weeks pelo mundo, está quase inteira em micro-vídeos do Instagram. Pode ser que as Portas dos Fundos da vida estejam no Youtube, mas os jovens comediantes parecem estar mais confortáveis com as facilidades dos vídeos de 6 segundos do Vine, como Victor Meynel ou Lucas Rangel, que tem 900 mil seguidores. E durante as eleições, os candidatos causaram bastante impacto não por vídeos no Youtube, mas por compartilhamentos no WhatsApp.

Fica o alerta. É bom ter uma TV que cubra todo tipo de programação imaginável. Mas melhor que isso é ter vários canais, e outras TVs.