2d51bcd0-c0b2-11e3-a5d4-432c7b4cc23e_1O menino Caíque completou cinco anos ontem. Sem festa, velinha ou parabéns. A tia deu a ele um pedaço de bolo duro, o que deu para achar. O menino está cinza, imundo, coberto por fuligem tóxica. Caíque é um dos 1.600 sobreviventes do incêndio que, no último dia dois, consumiu cerca de 400 barracos da Favela Fazendinha, no bairro da Penha, zona leste de São Paulo –a menos de 10 km do centro da cidade.

Magrinho, olhos enormes fixando a lente da câmera, triste, Caíque poderia ser personagem daqueles dramas humanitários indianos. Ou haitianos. Como ele, pisando descalço nas cinzas do que foi a favela, entre restos calcinados de roupas e sapatos, há centenas de crianças. Muitas, como o menino Caio, de dois anos, andam para lá e para cá simplesmente nuas.

Centenas de crianças ainda vivem no local. (Foto: Chico Silva)

É que, com o incêndio, queimaram-se os canos de PVC que abasteciam os barracos. Sobraram apenas dois canos dos quais corre filete de água limpa, disputado por todos os flagelados. Não dá para tomar banho. Muito menos lavar roupas. E pensar que ali, colado ao muro da favela, erguem-se ainda vazias seis torres de apartamentos quase prontos para morar.

A vida na Fazendinha sempre foi difícil, ao lado do rio fétido chamado Aricanduva, prodígio fluvial que já nasce poluído porque sobre sua nascente construiu-se um aterro sanitário. Agora ficou muito pior. Banheiros com esgotos a favela nunca teve. Havia as fossas. Mas até elas não servem mais. Porque as paredes dos barracos, de compensado e madeirite, se queimaram, o jeito tem sido usar o mato.

As crianças pisam nas fezes humanas, deixadas aqui e acolá.

Os adultos falam, gritam, protestam. Entre eles, encontram-se guerreiros caídos, como o boxeador Daniel Saboia, 27 anos, tri-campeão brasileiro dos meio-médios, morador de um barraco, agora deitado no meio das cinzas. Caprichoso, ele consegue manter seu colchão imaculadamente branco, apesar de cercado pela fuligem.

Mas as crianças são vítimas graves e silenciosas. Como os dois irmãos, de três e quatro anos, que foram deixados trancados no barraco em que moravam, enquanto a mãe procurava emprego. O incêndio colheu-os dormindo.

Medidas de apoio não foram tomadas. (Foto: Chico Silva)

Estão internados no Hospital Municipal do Tatuapé, com 70% dos corpos cobertos por queimaduras de 2º e 3º graus. Vizinhas, como a diarista Maura Pereira da Silva, de 40 anos, dizem que o menino Davi, de três anos, corre o risco de perder a perna. A irmã, um ano mais velha, as duas mãos. Ontem, a Secretaria da Saúde dizia que o estado deles involuiu, de “grave” para “gravíssimo”.

Tamanha tragédia, e o prefeito petista Fernando Haddad não achou que era sua obrigação aparecer no local. Pelo menos para se mostrar solidário.

Uma semana depois do incêndio, tudo o que a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social havia concedido aos flagelados resumia-se a um kit higiene, uma cesta básica e colchões.

E ofereceu abrigo emergencial, longe mais de uma hora andando a pé. Nenhuma família aceitou.

“O medo é sair e depois não poder voltar, como já ocorreu tantas vezes em outras favelas incendiadas. Ficar na rua é o pior pesadelo das pessoas aqui”, disse Ronaldo José da Silva, carpinteiro de 43 anos, um dos fundadores da favela, em 2006.

Carro-pipa para ajudar os favelados a lavar as ruas, a tomar banho, a lavar as roupas, e assim parar de aspirar fuligem, nem pensar. Também não apareceu por lá um só banheiro químico para resolver pelo menos um pouquinho o caos sanitário do lugar. A prefeitura petista não providenciou.

Apesar disso, ainda existe amor em SP. Professores, alunos e funcionários das escolas Benedita Ribas e João Dias, ali da zona leste, mobilizaram-se em solidariedade aos favelados. Estão fazendo coleta de mantimentos, roupas e água potável. A líder entre os professores, entretanto, não quis ser mencionada pelo nome neste texto. “A verdadeira caridade não pede reconhecimento”, ensinou.