18954_3O governo pode entregar ao país na segunda-feira, dia 25, um amargo e antecipado presente de Natal — exatamente um mês antes da festa.

A perspectiva do anúncio, na próxima semana, de um aumento de 5% no preço da gasolina agitou ontem o mercado financeiro, levando as ações ordinárias da Petrobras a subirem quase 4% na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa).

As preferenciais, que não dão direito a voto, tiveram valorização de 4,84%. O avanço na cotação dos papéis foi decisivo para a alta de 1,6% do Ibovespa, principal indicador do comportamento do pregão.

Os investidores aguardam o desfecho da reunião do Conselho de Administração da companhia, marcada para a próxima sexta-feira que decidirá sobre a nova metodologia de reajuste dos combustíveis, proposta no fim de outubro pela presidente da estatal, Graça Foster.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem reagido em público contrariamente à fórmula de mudanças periódicas e automáticas nas tabelas das refinarias, o que daria previsibilidade às receitas da petroleira e independência a sua política de preços. Para ele, essa espécie de gatilho minaria o combate à inflação.

Mas a informação que guiou as mesas de operação, ontem, e deu nova munição aos especuladores era a de que, além do aumento de 5% para a gasolina, o conselho presidido por Mantega adotaria o novo modelo de tarifação a partir de janeiro.

Para analistas ouvidos pelo Correio, qualquer decisão dependerá da evolução do índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência na política de metas de inflação seguida pelo governo.

“Não é à toa que os ajustes automáticos são tão caros à diretoria da Petrobras. Essa é a maneira que a empresa encontrou para se livrar das decisões de Brasília que deixaram seu caixa apertado e seu endividamento em nível preocupante”, analisa Mareei Caparoz, economista-chefe da RC Consultores.

Para ele, os R$ 17 bilhões que a petroleira perdeu nos nove primeiros meses do ano em razão da elevada defasagem enfre os preços que cobra no país e os que paga no exterior pelos combustíveis estão fazendo falta, sobretudo quando se consideram os investimentos necessários à exploração do Campo de Libra, no pré-sal da Bacia de Santos.

Na opinião de Caparoz, a questão do reajuste é política e dependerá dos indicadores inflacionários, como o IPCA-15, que será divulgado hoje. “De toda forma, nenhum aumento vai zerar as distorções”, acrescentou. Ele lamenta que o governo não tenha aproveitado a janela de acomodação do IPCA, entre os períodos de forte pressão dos alimentos. “As chuvas chegaram e o tomate já subiu 35% na semana passada”, alertou.

Estouro do teto

Heron do Carmo, professor da Universidade de São Paulo (USP), torce para que o Planalto ceda e adote o automatismo nos aumentos dos combustíveis, para o bem da Petrobras e até para melhorar o humor dos investidores internacionais em relação ao Brasil.

Como a inflação perseguida pelo governo este ano é de 4,5% pelo IPCA, com limite de 6,5%, o especialista defende um aumento menor para não provocar o estouro do teto da meta em 2013. “O certo seria anunciar o reajuste só em dezembro, para contaminar o próximo ano, que já tem cenário mais complicado”, disse.

A diretoria da estatal definiu, como parâmetros para a fórmula de reajuste, índices como câmbio e preços internacionais do petróleo. A empresa não detalhou como o mecanismo funcionaria, mas garantiu que as oscilações não impactariam em cheio o consumidor doméstico.