Zuleica acordou animada para o aniversário de 50 anos de Adelino, mas ainda não tinha certeza se poderia ir. Pois o lugar da festa era distante e tinha medo de voltar sozinha e não tinha conseguido nenhuma carona.

Adelino era o funcionário mais querido da repartição, todos gostavam dele e estariam presentes na festa e Zuleica, como os demais, fazia questão de ir e depois de muito pensar resolveu se vestir e seguir rumo à comemoração. – Não é possível que não tenha alguém lá que não vá vir aqui para os meus lados… Ou eu chamo um taxi… Ah sei lá, quando chegar lá eu vejo, o que não posso é deixar de ir ao aniversário do Adelino. E saiu pela porta cantarolando e fechando os brincos.

Ao chegar à festa Zuleica estava preocupada, pois pode ver que realmente era muito longe de sua casa e em um lugar de difícil a acesso. Para ir foi tranquilo, ainda estava de dia, mas estava apreensiva pela volta. A primeira coisa que fez, depois de cumprimentar o aniversariante, foi tentar achar alguém que fosse passar perto de sua casa na volta para que ela pudesse pegar uma carona, mas não encontrou. Gonçalves, um também colega de trabalho, vendo sua aflição se aproximou: – Zuleica não se preocupe, trate de aproveitar a festa. Pode deixar que eu te levo no viaduto do Fidelis, que é aqui perto, que tem um ponto de taxi que roda a noite toda. Fique tranquila. Zuleica agradeceu, mas não ficou a vontade com a oferta. – Obrigada, mas aonde é esse viaduto do Fidelis? Eu não conheço nada por aqui. Não sei não… posso me perder. É melhor eu ficar só um pouquinho e ir embora enquanto ainda está cedo. O motorista de taxi que me trouxe me disse que aqui a noite é muito difícil de conseguir um taxi, que até para chamar um é complicado tendo em vista que não tem sinal de celular. Gonçalves insistiu dizendo, que conhecia bem aquela região, que era para ela não se preocupar que se fosse preciso ele mesmo a levaria ou a colocaria num taxi e acabou por convencer Zuleica que caiu na festa sem mais pensar na volta para casa.

Zuleica estava se divertindo muito e achou ótimo ter concordado em ficar, mas lá pela meia noite procurou por Gonçalves para pedir que ele então a levasse no tal viaduto do Fidelis para que pudesse pegar um taxi e ir para casa. – Gonçalves… Já está tarde, acho melhor eu ir. Você poderia me levar no ponto de taxi? Gonçalves que já tinha bebido além da conta não queria saber de sair da festa. – Ah Zuleica! Por favor… Ainda tá muito cedo para ir embora. Já falei para você não se preocupar. Vou beber mais um pouquinho e já, já te levo, ok? Zuleica ficou meio contrariada, mas voltou para junto dos demais amigos e ficou esperando. Mas estava aflita e não conseguiu mais ficar a vontade, olhava o relógio de minuto a minuto e observava Gonçalves com receio de que ele fosse embora e esquecesse-se dela.

Finalmente às duas horas da manhã, quando já não havia quase mais ninguém no salão, foi que Gonçalves se decidiu a levar Zuleica. – Pronto Zuleica, é aqui. É só você andar até ali na frente que tem taxi à beça, dá até para escolher. Olha Zu… se eu não tivesse bebido um pouco além da conta eu mesmo te levava, mas acho que não dá,não… Gonçalves estava que não se aquentava e mesmo que quisesse levar Zuleica ela não teria aceitado. Mas o problema não era só esse, o local onde Gonçalves a estava deixando não tinha nenhum taxi a vista. E apesar de ser iluminado e até com certo movimento de pessoas circulando, era totalmente desconhecido para Zuleica, que mesmo assustada resolveu ir em frente e tentar chegar a casa o mais breve possível. – Tudo bem Gonçalves, pode deixar que eu me viro. Mas só me diz onde é que eu pego esse bendito taxi que não estou vendo nenhum por aqui. Gonçalves fez sinal com o braço na direção de um viaduto e deu um breve aceno de mão e saiu cambaleando de tão bêbedo que estava. Zuleica seguiu a indicação e quando chegou mais próximo pode ver uma placa pendurada em uma pilastra: “Viaduto do Fidelis”, e pensou aliviada que estava no local certo de pegar um taxi, conforme seu colega de trabalho havia lhe orientado. Mas olhou de todos os lados e nada de taxi e ninguém sabia informar onde conseguir um. O movimento de pessoas foi diminuindo e ela começou a ficar com medo. – Ai meu Deus que furada eu me meti. Aonde é esse tal ponto de taxi que o Gonçalves falou? Ah… só se for do outro lado… E subiu o viaduto, mas não conseguiu encontrar. Não passava nem taxi, nem ônibus, somente um carro ou outro, particular, que dava uma meia trava para olhar aquela mulher, parecendo perdida, no meio da rua o que só aumentava o medo de Zuleica que apertava o passo e os carros seguiam adiante. Pensou então em ver o celular para tentar ligar para pedir ajuda a alguém, mas sua tentativa foi em vão, o telefone além de estar completamente sem sinal, à bateria estava nas últimas e começou a ficar desesperada. Zuleica voltou para o viaduto e andava de uma extremidade a outra xingando Gonçalves e se mal dizendo por ter ficado até tão tarde na festa. – Ai aquele miserável do Gonçalves! Ele me paga! E eu sou mesmo uma estúpida, uma burra! Como é que vou sair daqui agora? Vou acabar tendo que ir a pé para casa! E o pior é que não faço a menor ideia para que lado ir. Ai!  Resolveu parar e tentar mais uma vez fazer com que seu celular pegasse quando foi surpreendida por um senhor, alto e de certa idade lhe cumprimentando o que quase a matou de susto. – Oi, boa noite moça. O que faz por aqui a essas horas? Já é muito tarde para uma mulher ficar sozinha na rua. Posso lhe ajudar em alguma coisa? Zuleica que estava de cabeça baixa mexendo no telefone deu um grito e um pulo para trás achando estar vendo um fantasma, pois o homem estava todo de branco, fumava um cachimbo e ela podia jurar que ele surgiu do nada, pois tinha certeza de que não tinha ninguém ali e não viu de onde ele saiu. Mal conseguia falar de tanto medo, mas arriscou: – Quem é você e de onde saiu? O senhor a olhou de cima em baixo, deu uma longa baforada em seu cachimbo e respondeu: – Eu sou o Fidelis, ora! Quem mais haveria de ser? E você é a Zuleica, não? Acho que já está na hora de voltar para casa. Vamos até lá em casa tomar um café que depois te levo. Zuleica estava tão surpresa que até esqueceu-se do medo e se aproximou: – Como assim, o Fidelis? Isso é alguma piada por acaso? E como sabe o meu nome? Foi aquele ordinário do Gonçalves que mandou você aqui para me assustar, não foi? Pois pode dizer a ele… O senhor a interrompeu a pegando pelo braço e os dois foram andando lentamente pelo viaduto. – Não é nada disso, se bem que você realmente não devia confiar em qualquer um, ainda mais em quem bebe demais como esse seu amigo. Eu conheço todos que passam pela minha casa, afinal moro aqui e tenho que tomar conta. Sabia que você viria me visitar. Zuleica não estava entendendo nada, mas estava curiosa em relação àquela figura surgida do nada. – O senhor mora aqui? Mas aonde? E como sabia que eu viria? Eu não vim visitar o senhor não, eu quero e ir para casa. O senhor sabe aonde posso pegar um taxi?

 Os dois seguiram conversando até sumirem na poeira levantada por um enorme caminhão que atravessou o viaduto, o qual nem foi notado por Zuleica que não parava de questionar seu acompanhante.

Zuleica acordou tarde, porém cansada o que atribuiu à festa de aniversário que fora na noite anterior. Sentia a cabeça pesada e confusa com lembranças que achava ser de um longo sonho conflituoso que tivera. Estava em sua casa, na sua cama e ao virar para o lado deparou-se com um cachimbo sobre sua mesinha de cabeceira e deu um grito de puro susto e pavor. Cobriu-se até a cabeça dizendo para si mesma que precisava dormir mais um pouco e que devia ter bebido alguma coisa na festa que não lhe fez bem.

 

Bia Tannuri