Era um domingo chuvoso, triste mesmo. Podia-se dizer tratar de um dia perfeito para um velório.

Eugenia passou a noite acordada ao lado do corpo do marido morto que estava sendo velado na sala de jantar. Ela estava inconsolável e não atendeu de jeito nenhum aos inúmeros pedidos de amigos e parentes para ir descansar e retornar ao posto pela manhã.

A viúva fez questão que o velório fosse realizado em casa. Queria até que o corpo ficasse na cama, mas desta vez acabou por concordar com os argumentos de sua irmã mais velha e aceitou coloca-lo na mesa da sala de jantar.

Eugenia e o marido tinham uma boa situação financeira, viviam bem. Porém sem luxo, mais por causa dela que não gostava de ostentar, dizia que não precisava de muito para viver, que o básico e a companhia do marido lhe bastavam para ser feliz, só não esperava ficar viúva de forma tão repentina. Guilhermino, o marido morto, não pensava da mesma forma, gostava de gastar com o que tinha vontade, o que fazia escondido da mulher que vivia a lhe controlar os gastos, e foi em uma de suas extravagâncias que o coração veio a lhe faltar. Ele era um homem forte de seus cinquenta e poucos anos, aparentava ter uma saúde de ferro e tinha horror a médico, não ia nem amarrado. Nunca pisou em um hospital, nem para nascer e para morrer. Nasceu pelos braços de uma parteira na casa da avó materna e morreu na mesa do bar do Sr. Leopoldo, de infarto fulminante, no meio da comemoração pela vitória do campeonato de futebol do seu time de coração, ocasião em que estava custeando a bebida de todos do bar, o que fazia sempre que achava que tinha um bom motivo para celebrar. O médico ainda foi chamado às pressas, mas quando chegou não havia mais nada para fazer, já estava morto. Só restando aos companheiros, de bebedeira, levarem o corpo para casa e entrega-lo a viúva, que não entendeu como Guilhermino havia morrido em uma situação daquelas e passou a culpar os amigos pelo o ocorrido. Pois para ela o marido jamais ficaria na mesa de um bar bebendo até morrer se não fosse pela influencia de más companhias. E se não bastasse o fato da morte e as circunstância em que ocorreu, o que já teria sido o suficiente para desequilibrar Eugenia por completo, ainda teve o golpe dado pelo o dono do bar, Sr. Leopoldo, que não teve a menor sensibilidade e lhe entregou a conta da farra para que ela pagasse tendo em vista que o falecido assumiu a despesa antes de partir desta para melhor.   – Mas Sr. Leopoldo, o senhor deve estar enganado, o meu Guilhermino nunca teria assumido pagar por uma coisa assim… Ainda mais nesse valor exorbitante. Ele era um homem comedido. Não saía por aí torrando dinheiro. Sr. Leopoldo não era dado a gentilezas e não quis saber da dor da viúva e muito menos de sua dificuldade em se deparar com uma face do marido que ela, até então, desconhecia e não arredou pé. – O D. Eugenia… eu não quero saber de nada. O que eu não posso é ficar no prejuízo. Afinal de contas se seu marido morreu as dívidas dele agora são suas! Então, por favor, trate de me pagar que eu preciso voltar para fechar o bar e vir para o velório do meu amigo. A pobre da viúva vendo que seus argumentos de nada iriam adiantar, mesmo sem estar convencida da legitimidade da dívida e achando se tratar de algum equivoco do dono do bar, resolveu pagar e ir providenciar as coisas para o velório de seu amado marido. – Aqui está seu dinheiro Sr. Leopoldo. Agora se o senhor me der licença… Ela nem acabou de falar e o dono do bar já tinha, praticamente, puxado o dinheiro, conferido e saído em retirada.

Voltando ao velório…

Eugenia estava inconformada com a morte de Guilhermino e mais ainda pela maneira como ocorreu. Não acreditara na historia contata pelos amigos que trouxeram o corpo para casa, de que o marido estava bebendo com eles no bar desde cedo e que havia passado mal após ter ficado completamente bêbado. “Não é possível… ele não bebia assim”. Pensava fazendo força para se convencer que tudo aquilo era um forte e terrível engano. Mas seus pensamentos seguiam a lhe atormentar. “Se bem que eu troquei as roupas dele e o cheiro era de pura cachaça… Não, não… quer ver que alguém derramou pinga em cima dele e agora querem denegrir sua imagem, só pode ser… E essa história da conta que o Sr. Leopoldo veio me cobrar? Só pode ser algum engano, alguém que está se aproveitando da morte do meu Guilhermino para empurrar a divida para ele. Mas assim que acabar o enterro vou tirar isso a limpo, a se vou”. A pobre viúva estava atordoada pelos acontecimentos, mas seguia firme apegada a imagem de bom home que tinha do marido, ou pelo menos fazia força para manter.

O dia mal tinha raiado e a casa já estava cheia de amigos e vizinhos que não paravam de chegar. Eugenia teve dificuldades para fazer com que fossem embora no dia anterior, pois todos queriam ter passado a noite velando o corpo. Mas ela não permitiu, queria ficar sozinha com o marido em sua ultima noite em casa, mesmo que morto. Mas no dia seguinte, não teve jeito, a casa já amanheceu com gente na porta, o que causou certa surpresa a viúva, que não esperava um velório tão cheio. “Que estranho… não sabia que Guilhermino tinha tantos amigos assim…” Pensava Eugenia a cada desconhecido que chegava para lhe cumprimentar. Pois só conhecia os poucos parentes presentes e os amigos da igreja, que não eram muitos. A maioria ela não fazia a menor ideia de quem seriam e qual a ligação que tinham com o falecido, o que parecia ser muito próxima, dado ao estado de tristeza de todos. Mas o que mais lhe causou espanto foi quando começou a prestar atenção em uma conversa entre dois sujeitos, ditos amigos do defunto, sobre como eles iriam fazer para realizarem os churrascos de domingo sem o tão valoroso patrocínio do morto, que ele realmente iria fazer muita falta às tardes de celebração do bar do Sr. Leopoldo. E seguiu a prestar atenção às conversas dos inúmeros homens ali presentes, intitulados amigos de seu marido, que ela não conhecia. Todos estavam lamentando não a perda do amigo, mas sim o prejuízo que sua morte iria causar na organização das farras dominicais. A viúva não parava de pensar que tudo aquilo que estavam falando de seu marido não fazia o menor sentido. “Mas o que é isso?… Parece que todo mundo agora resolveu inventar histórias sobre o Guilhermino… E logo sobre esse assunto, não pode ser. Ele era um homem tão comedido, não era dado a gastos com futilidades. Bebida então nem pensar, vê se pode. Ele era um homem tão religioso, ia todo domingo a igreja, fazia suas orações… Festas no bar… Nunca! Ele ia sim naquele bendito bar do Sr. Leopoldo, mas só para ver o futebol. Só isso”.  Mas mesmo sem acreditar, seguiu de canto em canto procurando conversar com um e com outro e escutar as conversas, que eram sempre sobre o mesmo assunto: – Que falta vai fazer o patrocínio do Guilhermino para as nossas farrinhas… Era a voz corrente nos quatro cantos do velório entre os “amigos” do morto.

Se Eugenia já estava estarrecida com as histórias, as quais fazia força para não acreditar, de gastos de dinheiro do marido com bebidas e festas para os amigos, mais desorientada ficou com a chegada de uma mulher que entrou sem falar com ninguém e foi direto se encostar à beira do caixão e a chorar tão alto que silenciou o falatório do salão. A viúva foi amparada por uma vizinha que já estava a observar a situação e correu para ajuda-la. – Mas o que é isso? Quem é essa agora? Isso foi a gota d´água! Como se já não bastasse toda essa gente, que eu não conheço, não sei de onde saiu e estão a chorar pelo meu marido como se fossem mais intimas dele do que eu, agora essa mulher! Eugenia estava começando a perder o controle e a vizinha, por nome Matilde, tentava em vão lhe acalmar. – Calma Eugenia, quer ver é da igreja… E veio orar por Guilhermino… Calma.  Os argumentos da vizinha não foram suficientes para amansar os nervos de Eugenia. – Como da igreja, se nunca a vi por lá? E com esse vestido, tão curto que dá para ver até a alma! Vou lá agora saber quem ela é! A vizinha mais uma vez tentou tranquilizar a viúva, mas não teve jeito, ela foi até a mulher tomar satisfação do porque chorava daquela forma exagerada pela morte de seu marido e o resultado não poderia ter sido pior. – Com licença, você pode me dizer quem é você e o porque de tanto choro pela morte do meu marido? A mulher tinha cabelos loiros na altura dos ombros, uns vinte e poucos anos, corpo perfeito e olhar angelical, todos no velório a observavam e agora mais ainda para ver qual seria a resposta que ira dar a pobre viúva. Os amigos do bar, que sabiam o verdadeiro envolvimento da moça com Guilhermino, se entre olharam e se aproximaram procurando amenizar a situação, mas só serviu para piorar ainda mais o humor de Eugenia.  Paulo Aufredo foi o primeiro a tentar, se intrometendo na conversa antes que a tal mulher tivesse tempo de responder. – D. Eugenia, eu sinto tanto… tanto!… A senhora deve ter sofrido um grande golpe com a perda de nosso Guilhermino… Eugenia não deu a menor atenção e praticamente o empurrou para que saísse de sua frente e fez o mesmo com João e Batista que foram os próximos a se arriscarem e voltou a inquirir a mulher que a observava com olhar cheio de tristeza. – Então minha filha você pode me dizer… Mas antes de Eugenia completar a pergunta a criatura a sua frente caiu em um pranto e se jogou em cima do caixão como que querendo abraçá-lo e começou a gritar: – Perdi meu Guiguizinho!… Meu amorzinho!… Deixe-me ao menos chorar por ele! Eugenia não conversou, puxou a mulher pelo braço e a fez ficar de frente para ela e por mais que os amigos do bar tentassem impedi-la, dizendo que a tal mulher não passava de uma simples conhecida, não adiantou, Eugenia estava enfurecida e disposta a tudo para saber quem era aquela sujeita.   – Que história é essa de Guiguizinho? Quem é você afinal de contas?! E que diabos está fazendo no enterro do meu marido?! Ela perguntou e a mulher, até então desconhecida, não economizou na explicação: – Eu sou a Virginia. A Virgininha como o meu Guiguizinho gostava de me chamar… Ai que saudades… E você?… Ah… você deve ser a mulher dele, não é? Ele falava de você… Eugenia partiu para cima da tal da Virgininha a segurando pelos braços e sacudindo com força querendo saber exatamente o que o marido falava dela e qual era o verdadeiro relacionamento que os dois mantinham. Os amigos mais uma vez tentaram amenizar, mas não tiveram como, as duas começaram a discutir e ambas se jogaram em cima do caixão reivindicando a posse do defunto. O fuzuê estava formado, as mulheres estavam enfurecidas, não deram a menor atenção aos pedidos de calma e só pararam quando adentrou pela porta uma figura no mínimo inusitada gritando e querendo saber do morto, ao qual chamava de Guizão. Era um homem. No entanto, se não fosse pelo saliente gomo de adão e pela voz grave, podia-se dizer que era uma mulher extravagante. Pois tinha longos cabelos castanhos presos no alto da cabeça em forma de coque, usava um vestido até os pés de seda preta com bordados em prata, luvas de renda também pretas e sandálias e bolsa na cor roxa. Os olhos estavam perfeitamente maquiados com uma sombra cintilante prateada e enormes cílios postiços e a boca com um batom vermelho cor de sangue. Complementando o traje um monumental leque roxo, no mesmo tão das sandálias e bolsa, o qual abanava sem parar enquanto se aproximava do caixão, e chorando se jogou por cima dele ignorando as duas mulheres que pararam a discussão e ficaram paralisadas observando o mais novo integrante do velório. Eugenia e Virginia se entreolharam, quase com cumplicidade, e perguntaram ao mesmo tempo: – Mas quem é esse agora? E que história é essa de Guizão? Como não houve resposta, as mulheres empurraram o tal homem vestido de mulher de cima do caixão e o inquiriram enraivecidas querendo saber quem ele era. Por um momento estavam unidas em prol de saber o que estava acontecendo. – Eu sou a Afrodite! E vocês quem são? E que trajes são esses? Assim sem brilho, sem nada… Não acham que deveriam ter escolhido uma roupa melhor para vir aqui prestar a ultima homenagem ao meu Guizão? Que falta de respeito! Foi Eugenia que tomou a frente da conversa: – Olha aqui o D. Afrodite ou senhor sei lá quem você seja! Eu sou a esposa do Guilhermino! E o que eu quero saber é o que você era do meu marido e o que faz aqui no enterro dele?! Eugenia estava aos berros e até teria se esquecido de Virginia se não fosse por sua intromissão na conversa se intitulando a namorada do defunto, o que não pareceu afetar a mulher de Guilhermino que estava com todas as energias voltadas para saber se suas suspeitas, que a essa altura eram compartilhadas pelos demais participantes do velório, sobre a ligação de Afrodite com seu marido seriam confirmadas. Afrodite olhou para Eugenia com carinho e estendeu a mão em cumprimento, não sendo correspondida, mas em relação à Virginia mostrou espanto e descontentamento:    – Ah… muito prazer! Então você é a Eugenia, ele sempre falava de você. Mas dessa aí não! Nunca me falou nada de namorada. Virginia ficou histérica e quis tirar satisfações, dizendo que era sim namorada de Guilhermino, mas foi logo interrompida por Eugenia que aos gritos a mandou calar a boca o que ela obedeceu sem questionar.  Eugenia então voltou a encarar Afrodite: – Afinal de contas quem é você e de onde conhece meu marido? A resposta, apesar de ter sido em de acordo com o que todos já haviam pensado dado ao andamento da situação, causou um enorme alvoroço no salão. – Eu sou a noiva dele ora. Nós íamos nos casar… Mas Guizão dizia que não podia por sua causa, que ele não tinha coragem de te deixar, que precisava de mais algum tempo… Aí eu fui deixando, deixando… Até que no mês passado resolvemos ficar noivos. Ele até pediu minha mão para mamãe. Ele ia te contar tudo, mas não deu tempo… Desta vez Eugenia não suportou e desmaiou sendo amparada pelos amigos do bar que estavam de boca aberta com a revelação. – Nossa desta vez o Guilhermino surpreendeu mesmo!  Comentou Aurélio, um dos amigos e frequentadores do bar do Sr. Leopoldo. Foi uma confusão só, a viúva desmaiada no meio da sala, Virginia gritando sem parar que ela era sim a namorada do morto e que não acreditava que seu Guiguizinho era noivo de um homem e Afrodite cercada pelos amigos que queriam saber detalhes de sua relação com Guilhermino tendo em vista que ninguém sabia de sua existência.

E no meio de toda aquela confusão chegou o Sr. Clodoaldo, representante da funerária, para levar o corpo para realização do enterro e foi ai que se danou tudo mesmo. Pois quando ele começou a fechar o caixão para enfim levá-lo, a viúva, ou pelo menos a dita oficial, que já havia acordado de seu súbito desmaio correu para impedi-lo, dizendo que queria que o corpo fosse tirado do caixão e enterrado em uma cova rasa no chão, feito um indigente, que aquele homem que estava ali morto não era o marido que ela sempre conheceu e que ela não ia pagar para enterrar um estranho. Virginia, a namorada, mais uma vez começou a gritar, dizendo que o morto é que tinha razão quando falava que a mulher era uma mão de vaca pão dura, que não deixava ele se divertir controlando tudo que ele gastava e até na hora da morte do coitado ela queria economizar. E as duas começaram a travar o maior bate boca, cada uma puxando o caixão de um lado para o outro e o Sr. Clodoaldo tentado impedir, até que a o corpo escapuliu e caiu no chão. Aí foi a vez de Afrodite se manifestar. Mas dessa vez ninguém teve dúvida de que se tratava de um homem, o que ela, ou ele, não estava fazendo questão nenhuma de disfarçar e com a voz o mais grossa possível deu um grito e se colocou de pé:        – Vamos parar com essa palhaçada! Vocês duas parem com esse escândalo que quem vai tratar do enterro do Guilhermino sou eu! Puxou o longo vestido que usava até a cintura, prendeu na cueca de cor roxa, se abaixo pegou o defunto no colo o colocando de volta no caixão e fez sinal para o representante da funerária dar prosseguimento as questões do enterro. – Pode seguir com os preparativos do enterro que eu vou arcar com tudo. Virou-se para as pessoas que permaneciam imóveis a observar a cena e falou em tão forte e decidido: – E tem mais! Não quero saber de mais alvoroço aqui hem!! Quem quiser ir ao enterro pode ir, mas sem escândalo. Depois já voltada para sua versão feminina, ajeitou o vestido e os cabelos e olhou com olhar de ternura e estendeu a mão para Eugenia: – Vamos querida acompanhar o enterro do nosso Guizão… Ele há de nos fazer muita falta… Eugenia não sabia o que fazer, estava no limite de suas forças, mas embalada por uma energia que não sabia bem de onde vinha deu a mão a Afrodite e as duas seguiram de braços dados atrás do caixão. Virginia correu para se juntar a elas, o que não foi aceito de inicio por Afrodite, mas que em seguida cedeu ao pedido de Eugenia. –Ah… deixa ela vir, afinal era a namorada dele… E as três foram de braços dados por todo cortejo, seguidas pelos amigos e parentes que não paravam de se acotovelar e comentar o ocorrido.