O casal comparece ao fórum para a audiência de conciliação marcada pelo juiz em um processo de separação. Nunca gostei muito da então existente audiência de conciliação do casal. Às vezes os pombinhos já estavam vivendo aos tapas e beijos desde o dia em que falaram “até que a morte nos separe”.

Se o casamento já tinha vinte anos e não dera certo, não seriam quinze minutos de conselhos do juiz que iriam consertar tudo, até por que antes do juiz o casal já se aconselhara com o padre, o pastor, o bispo e sem pedir ouviram conselhos da sogra, da cunhada, do vizinho e da prima do vizinho, etc. e tal. Mas neste dia a separação era amigável e pensava eu que era questão de homologar o combinado. O ato solene começa e o juiz quer saber o motivo da separação.

O advogado alerta o magistrado que não havia litígio e que estava tudo acertado e queriam apenas a homologação. Não satisfeito, o juiz se diz obrigado a tentar fazer os cônjuges a viverem juntos e insiste para saber o motivo. Senhor João, me diz o porquê o senhor quer largar a Dona Maria. Doutor, querer eu não quero, mas ela quer assim e eu estou de acordo. Não, não pode ser, diz sua Excelência.

Dona Maria, então o problema é com a Senhora. Diz-me qual a razão que leva a Senhora a querer se apartar de seu marido. Doutor, deixa pra lá, é coisa minha e prefiro não tocar no assunto. Eu não sei se o juiz era curioso demais e queria saber da vida alheia ou se de fato queria mesmo recolocar nos trilhos mais um casamento. Dona Maria, a Senhora não esta entendendo, enquanto o assunto não for revelado nós vamos ficar aqui.

Portanto, trate logo de começar a falar. Olha Senhor juiz, o problema é que o João todo dia quando acorda ele quer. Depois ele pega o burro com a carroça e vai trabalhar. Na hora do almoço, mesmo com a barriga cheia, ele quer. Lá pelas quatro da tarde ele vem do serviço e solta o burro. Após tomar o banho ele quer de novo. De noite, quando eu já estou pegando no sono ele diz que ta querendo.

Deste jeito não há mulher que agüente. O juiz olha para o Senhor João e determina. Agora é sua vez, o que é que o Senhor come, bebe ou qual é a simpatia que o senhor faz? Não importa, traz a receita para mim amanha cedo sem falta.

Este artigo é de autoria do Promotor de Justiça de Barra de São Francisco, Creumir Guerra.