A minha primeira comarca como promotor de justiça titular foi Pedro Canário, na divisa com a Bahia e com todo o nordeste brasileiro. Naquela região há um grande plantio de cana de açúcar, que na verdade serve para abastecer as empresas produtoras de álcool automotivo. Na ocasião da colheita da cana os homens desempregados do nordeste, acostumados com o serviço braçal, descem para ficar todo o período da safra ganhado o seu suado dinheirinho.

O pagamento é feito por produção e todos fazem o maior esforço pra ganhar o mais que puder. Assim, estes trabalhadores deixam suas famílias em Alagoas, Sergipe e outros cantos e se estabelecem no norte do Espírito Santo por até noventa dias. Nem tudo são flores, é comum os homens matar as saudades na cachaça e nos bares que funcionam à meia luz.

Algumas famílias desestruturadas acabam deixando suas meninas saírem para freqüentar os bares, além de outras aventuras à margem da BR 101. Após tomar conhecimento que a dona de um dos bares estava recrutando garotas menores de idade para a missão de acompanhar os solitários cortares de cana, o promotor pede a policia para fazer uma incursão nos ditos bares, um ou outro intitulado de “boate”.

Na diligencia, positiva e operante, os militares lograram êxito em prender uma senhora que mantinha duas moças menores de quinze anos em seu estabelecimento. A prisão foi mantida e se aguardou o interrogatório, que ainda era o primeiro ato após o recebimento da denuncia. A mulher se declarou inocente por que a única coisa que fazia era alugar as chaves dos quartos que ficavam nos fundos da casa.

Na verdade as jovenzinhas trabalhavam de “capadinha à meia”. Tudo esclarecido, a soltura daquela senhora era o que melhor se tinha para fazer. Antes de bater o martelo o juiz resolveu dar um sermão na acusada e exigiu que ela fechasse o dito bar, explicando que explorar a prostituição é crime, ainda que as profissionais fossem maiores.

Aquela doce mulher, trabalhadora e calejada pela vida, resolve levantar o dedo e pedir para fazer um pedido ao juiz que acabara de mandar expedir o alvará de soltura. Doutor juiz, eu não sei se o senhor sabe que a nossa vida aqui é muito difícil. Lá em casa nós somos oito bocas.

Eu, minha duas filhas e os meus cinco netos. Se não for pedir demais, será que o senhor pode deixar fechar a casa depois da colheita da cana? “É que é só nesta época do ano que nois ganha um dinheirinho e ai dá pra pagar as continhas no comercio”. Vai com Deus dona Creuza, vê se pelo menos não recebe menores em seu comércio.

Este artigo é de autoria do Promotor de Justiça de Barra de São Francisco, Dr. Creumir Guerra.